
Encarei a palavra divórcio no papel sem conseguir compreender o que estava acontecendo e, pior ainda, por que era a minha irmã quem me entregava aquele documento
— Eu sei que é muito para absorver — minha irmã falou diante do meu silêncio.
— Isso é uma brincadeira? — perguntei com a voz rouca.
Karen me encarou com um olhar de pena, um olhar que eu conhecia bem. Ela sempre usava quando me achava ingênua demais, otimista demais ou demorava para compreender as coisas.
— Não, Bela, não é uma brincadeira. Eu e o Carlos nos apaixonamos. Aconteceu. E não é justo com você. Por isso ele está pedindo o divórcio. Nós pretendemos nos casar — disse com calma, quase com indiferença, como se casar com o meu marido fosse o mesmo que trocar de roupa.
— Eu quero falar com o Carlos — falei, me levantando e pegando o celular, sentindo as minhas mãos tremendo. — Isso só pode ser algum tipo de brincadeira.
— Para quê, Bela? Só vai trazer mais sofrimento — ela continuou, com aquela voz sonsa que sempre me irritou.
— É Isabella! Você ouviu? ISABELLA!
— Não precisa gritar. Estou tentando ajudar. Ele está sofrendo muito com isso, mas não controlamos o coração e não queremos enganar você.
— Ajudar? Você está na minha casa dizendo que meu marido quer o divórcio para se casar com você, a minha irmã. E acha que está me ajudando?
— Estou tentando facilitar, não precisa ser doloroso e dificil...
— Desde quando? Desde quando isso vem acontecendo?
— É recente, eu queria contar desde o início, mas você estava em um momento fragil. Você é a minha irmã, minha única família e essa é uma situação muito dificil.
Karen falou com os olhos marejados, eu não tinha ideia de como ela podia ser tão cinica e manipuladora.
Carlos não atendia o telefone, mas ele não escaparia assim tão fácil. Karen estava na minha sala com o pedido de divórcio na mão. Era muito desaforo. Deixei-a falando sozinha, peguei minha bolsa e saí. Éramos casados havia cinco anos, ele não podia fazer uma coisa dessas assim, sem olhar na minha cara, um casamento não pode ser jogado no lixo dessa forma, por causa de um caso com uma vagabunda qualquer, e era exatamento isso que a minha irmã era, eu sabia há muito tempo.
O escritório era perto de casa, e consegui chegar dirigindo sem causar um acidente. Mas, quando desci do carro, o segurança barrou a minha entrada.
— Desculpe, senhora Isabella, mas o doutor Carlos disse que eu não podia permitir que subisse.
— Como é? Eu sou a dona da empresa! Quem ele pensa que é para me impedir de subir? — gritei, sentindo minha paciência se transformar em pura lava.
— Desculpe, mas são ordens.
— Ordens de quem? Ele vai falar comigo sim. Carlos! Seu desgraçado! Desça aqui para me encarar como homem! Você quer me trocar pela minha irmã? Troque, mas vai fazer isso olhando na minha cara! — gritei em plenos pulmões, sob o olhar atônito do segurança que ainda me impedia a entrada.
— Isabella, o que você pensa que está fazendo? Acha que isso vai resolver alguma coisa? — Karen tinha me seguido.
— Karen, não fala comigo ou eu quebro a sua cara! — avancei para ela.
— Você não pode fazer isso. Estou grávida — falou assustada, colocando a mão sobre a barriga ainda lisa.
Encarei minha irmã em choque. Senti o mundo rodar. Aquilo não podia estar acontecendo. Eu tentava engravidar há anos, de repente, minha irmã estava grávida e dizendo que iria se casar com meu marido, o homem que eu amava e jurava que me amava de volta.
Karen aproveitou meu momento de paralisia e passou correndo pelo segurança. Carlos não desceu, embora eu tivesse certeza de que ouvira meus gritos.
— Vai para casa Isabela, é melhor para você se acalmar — Karen falou com um sorriso no rosto, então se virou e entrou no elevador.
Eu queria continuar gritando, mas a notícia da gravidez me desestabilizou. Perdi o rumo, liguei mais uma vez para Carlos, mas o telefone nem chamava.
Voltei para dentro do carro. Precisava ir para casa, colocar a cabeça em ordem, entender o que estava acontecendo. Mas imagens da minha irmã dizendo que estava grávida, colocando as mãos na barrida, me dando a papelado do divórcio me rondavam.
Dirigi de volta para casa tentando organizar os pensamentos e entender como tudo tinha chegado àquele ponto. Mas, ao parar diante do portão automático, ele não se abriu. E fui informada que estava proibida de entrar.
— A casa é minha! Ele não pode me impedir de entrar na minha casa! — gritei para a portaria.
Mas aparentemente podia. A polícia chegou e ameaçou me retirar à força. Sem saber para onde ir, só com a roupa do corpo, fui para a casa da minha tia, a única parente que me restava.
— Isabella! Eu estava até ligando para você! — disse minha prima assim que me viu estacionar na calçada.
Eu não sabia como contar o que tinha acontecido, mas não precisei. Camila já sabia. Todas as minhas coisas tinham sido mandadas para a casa da minha tia.
Na sala havia caixas com as minhas roupas e alguns pertences jogados de qualquer jeito. Minha tia, com a mão no coração, me pedia calma. Eu tinha sido despejada da minha própria casa.
Foi ali, olhando para aquelas caixas, que finalmente chorei. Tudo parecia surreal demais, mas a visão das minhas coisas amontoadas me atingiu direto no coração, a lembrança de Karen dizendo que estava grávida, que estava apaixonada por Carlos, era demais.
Chorei de humilhação, por ter sido enganada pelo homem que jurei amar, que eu acreditava ser o amor da minha vida e que pensei que também me amava.
Minha prima me abraçou, tentando me consolar, mas eu me afogava nas minhas lágrimas, imune a qualquer consolo.
— Toma uma água - Ela disse me entregando o copo.
Camila me ajudou a beber porque minhas mãos não paravam de tremer. Aos poucos, fui me acalmando, até me sentir sonolenta e perder a consciência me afastando por um tempo da dor.
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Capítulo 199. Dupla surpresa
"Isabella"Karen tinha evaporado mais uma vez. Mas, dessa vez, sem o filho. Ainda custava acreditar que ela tivesse sido capaz de fazer aquilo. Durante muito tempo, pensei que a única coisa de humana e boa que ainda existia na minha irmã fosse o Heitor. Pelo visto, eu estava errada. Karen não deixou sequer um bilhete. Se fosse encontrada, seria presa novamente. E, dessa vez, ficaria detida até o julgamento.Enquanto isso, ajudava a minha tia. Em alguns dias, levava Heitor para minha casa, para dar um descanso a ela, já que Camila estava trabalhando sem parar. Eu precisava pensar no meu sobrinho, no bem-estar dele e não perderia mais tempo pensando em Karen. Por isso depois de dois dias procuramos um advogado para regularizar a situação dele e como ficaria a questão da guarda. Augusto também trabalhava direto, agora ao lado da irmã. Era a primeira vez que os dois dividiam um projeto sem competição, sem medir forças. Eu sabia que discutiam, irmãos de temperamento forte sempre discute
Capítulo 198. Nem mais me procure
"Isabella"Cheguei à casa da minha tia e fiquei alguns segundos parada diante do portão. Pensei seriamente em ir embora. Em fingir que não tinha vindo. Mas havia assuntos que não podiam mais ser adiados, e Karen era um deles.Camila tinha me ligado mais cedo. Disse que Karen pedia para falar comigo, eu não atendia mais ligações, não respondia mensagens dela e aquela tinha sido a única forma que ela encontrara, pedir a intermediação da prima, quase implorando.Respirei fundo e abri o portão. Camila estava trabalhando, minha tia havia saído para levar Heitor ao parque. Seríamos apenas nós duas, de novo em mais uma conversa. Bati à port e Karen atendeu, não a via desde a visita na cadeia. Estava mais abatida, olheiras profundas, o cabelo mais curto, mal cuidado. Ainda assim, o olhar… o olhar continuava o mesmo. Minha irmã não conseguia mais me enganar. Não disse nada. Apenas entrei.— A tia saiu com o Heitor — ela comentou, fechando a porta atrás de mim. — Quer alguma coisa? Uma água?
Capítulo 197. Proposta de venda
"Augusto"Entrei na empresa pela porta da frente desta vez. Poderia ter esperado mais, deixado a poeira baixar, permitido que o tempo acalmasse os olhares. Mas meu objetivo sempre foi retomar meu lugar e minha rotina o mais rápido possível. Se demorasse demais, tudo aquilo viraria pó e eu não pretendia assistir à queda de longe.Meu espaço, agora, precisava ser reconquistado passo a passo. Eu sentia os olhares cravados em mim, alguns curiosos, outros desconfiados. Ainda assim, abaixar a cabeça nunca foi uma opção, afinal eu era um Salvatore e, depois da minha inocência ter sido comprovada em rede nacional, não devia satisfação a ninguém.O silêncio no elevador era constrangedor. Dois diretores subiram comigo, um pigarreou e o outro comentou algo irrelevante sobre o clima. Não respondi. Fui direto ao andar da presidência. Desta vez, meu retorno não era surpresa, tinha avisado com antecedência e de forma que Tadeu compreendeu que era definitiva, sem margem para negociação. O olhar d
Capítulo 196. Depois da tempestade
"Augusto"Quando o advogado disse que eu precisava ir mais uma vez à delegacia, senti apenas cansaço. Cada vez que o celular tocava, eu já imaginava que aquele seria o comunicado.Era um desgaste que não se resolvia com descanso. Eu já tinha contado tudo. Já tinha respondido às mesmas perguntas de maneiras diferentes, recontado a mesma história, repetido datas, horários, decisões. Ainda assim, lá estava eu de novo, sendo chamado — a prova de que, para eles, eu continuava sendo o suspeito final.Isabella quis ir comigo, mas não deixei. Não era ambiente para ela e, no fundo, além da proteção, havia vergonha. Eu não queria que ela visse, mais uma vez, o quanto aquilo me diminuía, o quanto destruía a minha reputação.No caminho até a delegacia, o advogado falava sobre estratégia, possibilidades, sobre como a coletiva daquela tarde poderia encerrar tudo. Eu ouvia, mas não absorvia. Já tinha aprendido que palavras bonitas não significavam nada. Existia, sim, a possibilidade — ainda que remo
Capítulo 195. Em estado de espera
"Isabella"Senti o alívio percorrer meu corpo quando Augusto foi liberado. Enquanto eu ainda era interrogada, só conseguia pensar nas tais provas que Karina dizia ter — especialmente na foto que ela havia enviado, da qual eu tinha certeza de que era falsa. Ainda assim, talvez a polícia não enxergasse daquela forma. Às vezes, uma prova frágil basta quando existe a chance de prender alguém grande.Augusto me abraçou assim que me viu, ainda na delegacia. Só queria ir para casa, descansar e fingir que tudo aquilo não tinha acontecido. Mas era impossível. Ver o filho de Karina ir embora sem a mãe, sabendo que ela ficaria detida, partiu meu coração, era dificil de esquecer. Assim que entramos no carro, falei sentindo algo entalado na garganta, na verdade era culpa. — Me desculpa por isso… acho que não estava pensando direito.— Você acha que eu sou o culpado? — ele perguntou, sem me olhar. — Não havia motivo para eu me encontrar com alguém que dizia ter provas contra mim se acreditasse qu
Capítulo 194. Interrogatório
"Augusto"A ligação para o meu advogado foi rápida. Expliquei, de forma superficial, que uma informação nova tinha surgido. Se achou estranho, não comentou. Apenas disse que o melhor a fazer era sairmos todos dali. Não adiantava disfarçar, havia câmeras por toda parte, e era óbvio que o momento em que entramos no prédio tinha sido registrado.Karina conseguiu acalmar o filho e colocá-lo no carrinho. Pegou uma bolsa às pressas, e descemos todos juntos. Foi preciso tirar a cadeirinha do carro dela e colocá-la no meu. Eu não permitiria que dirigisse — a possibilidade de fuga ainda era grande, e qualquer tentativa nesse sentido só agravaria ainda mais a situação dela e poderia colocar o bebê em risco.Isabella ajudava em silêncio. Não disse uma palavra, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que estava apavorada com o que poderia acontecer com aquela criança. Confesso que também senti um aperto no peito quando vi os olhos grandes do bebê me encarando com curiosidade. Ele podia ser