— Onde você vai assim, toda arrumada? — minha prima perguntou quando me viu. Era a primeira vez em muito tempo que eu me arrumava, coloquei um vestido social branco, fiz um rabo de cavalo, já que meus cabelos estavam secos e sem brilho e passei maquiagem para disfarçar um pouco a cara de cansada.
— Vou me encontrar com o Augusto.
— Que Augusto? O Salvatore? Sério? — ela reagiu com cara de reprovação.
— Sério. Ele me convidou para jantar e eu aceitei.
— Isabela, eu quero muito que você siga em frente, mas não com o Augusto. O cara voltou para a cidade nao faz nem um mês e quase todo dia está na Lush com um monte de mulher que ele usa e depois descarta.
— Não é um encontro romântico, é só um jantar entre dois colegas de escola.
— Para começo de conversa, vocês nunca foram amigos na escola.
— Não se preocupe, não vai acontecer nada demais — disse eu, saindo de casa. Na verdade, não tinha tanta certeza assim.
Quando cheguei no restaurante, um dos mais caros da cidade, Augusto já me esperava. Assim que me viu, levantou-se e, como um perfeito cavalheiro, puxou a cadeira para que eu me sentasse.
— Pensei que desistiria. Fico feliz que tenha vindo — disse ele, com sorriso galanteador.
Augusto pediu uma garrafa de champanhe e o melhor prato da casa; os garçons o tratavam como um rei.
— Então, como quer fazer isso? — perguntei de forma direta, sem paciência para enrolação.
— Calma. Vamos apreciar o jantar primeiro, se esse acordo evoluir, temos que começar a parecer um casal de verdade.
— Duvido que vamos convencer alguém de que somos um casal de verdade.
— Claro que vamos. É só cuidar dos detalhes. Como eu disse: reencontro depois de anos, você com o casamento fracassado, reencontra o amor no antigo colega de escola e esse colega, um cafajeste, toma jeito ao perceber que o amor estava ali o tempo todo. É perfeito.
Augusto falava com carisma e confiança, ouvindo assim, a história até parecia convincente. Porém, quanto mais eu ouvia, mais absurda ela me soava.
Olhei em volta. O restaurante era chique, na adolescência, quando o negócio do meu pai ainda dava lucro, costumávamos frequentar lugares como aquele. Depois disso, eu não havia retornado a ambientes assim. No último ano, Carlos nem saía comigo, dizia que não suportava olhar para pessoas com família quando ele não tinha.
— Tudo bem? — Augusto perguntou, percebendo que eu tinha me distraido.
— Na boate Lush. É bom manter a história próxima da verdade. Quando te vi, quis ajudar a se reerguer, rolou química, atração. — Ele disse “atração” me encarando de forma sugestiva, senti o rosto aquecer e desviei o olhar sem graça.
— E assim, do nada, vamos casar? Quem vai acreditar nisso?
— Tem histórias assim o tempo todo.
— Você parece sempre ter uma resposta pronta.
— Sou empresário, eu preciso ter sempre uma resposta pronta. — A arrogância continuava a mesma.
— Qual o próximo passo, então? — perguntei.
Ele já tinha tudo planejado, parecia que Augusto já vinha arquitetando seu próprio casamento há muito tempo, só faltava a noiva.
— Pelo visto você já tem tudo planejado.
— E por que eu? Você vive cercado de mulheres, deve ter um monte querendo ser sua esposa.
— Se eu aparecesse com uma mulher desconhecida dizendo que iria me casar, com certeza ninguém acreditaria. Mas alguém do passado é perfeito, todo mundo adora histórias de reencontro. E quando você falou do divórcio, tive certeza, a nossa história faz todo sentido. Ou já esqueceu que eu fui seu primeiro beijo? É o seu destino casar comigo.
Não queria lembrar que ele fora o primeiro garoto que me beijou, segredo que nunca contei para ninguém. Por incrível que pareça, Augusto também fingiu que nada havia acontecido entre nós.
Era desconfortável ouvir ele falar de forma tão cínica sobre relacionamentos, para Augusto, casamento era apenas um meio para um fim. Talvez ele estivesse certo, afinal o amor não me levou a lugar nenhum.
— E qual é o seu plano? — ele perguntou de repente, interrompendo meus pensamentos.
— Sua vingança. A Isabela que eu conheci na escola era uma boa alma, doce, romântica, não levantava a voz para ninguém. Imagino que você não tenha experiência com vingança, certo?
O tom de Augusto me fez sentir idiota e eu não sabia o que responder.
— Imaginei — ele falou diante do meu silêncio. — Vou incluir algumas “aulas”. A primeira: vingança psicológica. Veja, um homem abandona a mulher para casar com outra, ele pode alegar o que quiser, mas jamais vai querer ver a ex melhor do que ele. Então, minha querida, você vai surgir deslumbrante com o vestido mais caro que meu dinheiro puder comprar, com um sorriso apaixonado no jantar da família mais rica da cidade, uma foto nas redes sociais e seu ex terá um colapso.
O desgraçado era brilhante, eu tive de admitir. Não sabia se aquilo surtiria efeito em Carlos, mas queria que surtisse. Com certeza Karen ficaria revoltada e com inveja, ela queria a vida de uma herdeira milionária, e a história de amor com Carlos não fazia sentido, ele não era milionário, mesmo tendo um negócio próprio.
— Tudo bem. Vamos em frente — falei com determinação.
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Capítulo 199. Dupla surpresa
"Isabella"Karen tinha evaporado mais uma vez. Mas, dessa vez, sem o filho. Ainda custava acreditar que ela tivesse sido capaz de fazer aquilo. Durante muito tempo, pensei que a única coisa de humana e boa que ainda existia na minha irmã fosse o Heitor. Pelo visto, eu estava errada. Karen não deixou sequer um bilhete. Se fosse encontrada, seria presa novamente. E, dessa vez, ficaria detida até o julgamento.Enquanto isso, ajudava a minha tia. Em alguns dias, levava Heitor para minha casa, para dar um descanso a ela, já que Camila estava trabalhando sem parar. Eu precisava pensar no meu sobrinho, no bem-estar dele e não perderia mais tempo pensando em Karen. Por isso depois de dois dias procuramos um advogado para regularizar a situação dele e como ficaria a questão da guarda. Augusto também trabalhava direto, agora ao lado da irmã. Era a primeira vez que os dois dividiam um projeto sem competição, sem medir forças. Eu sabia que discutiam, irmãos de temperamento forte sempre discute
Capítulo 198. Nem mais me procure
"Isabella"Cheguei à casa da minha tia e fiquei alguns segundos parada diante do portão. Pensei seriamente em ir embora. Em fingir que não tinha vindo. Mas havia assuntos que não podiam mais ser adiados, e Karen era um deles.Camila tinha me ligado mais cedo. Disse que Karen pedia para falar comigo, eu não atendia mais ligações, não respondia mensagens dela e aquela tinha sido a única forma que ela encontrara, pedir a intermediação da prima, quase implorando.Respirei fundo e abri o portão. Camila estava trabalhando, minha tia havia saído para levar Heitor ao parque. Seríamos apenas nós duas, de novo em mais uma conversa. Bati à port e Karen atendeu, não a via desde a visita na cadeia. Estava mais abatida, olheiras profundas, o cabelo mais curto, mal cuidado. Ainda assim, o olhar… o olhar continuava o mesmo. Minha irmã não conseguia mais me enganar. Não disse nada. Apenas entrei.— A tia saiu com o Heitor — ela comentou, fechando a porta atrás de mim. — Quer alguma coisa? Uma água?
Capítulo 197. Proposta de venda
"Augusto"Entrei na empresa pela porta da frente desta vez. Poderia ter esperado mais, deixado a poeira baixar, permitido que o tempo acalmasse os olhares. Mas meu objetivo sempre foi retomar meu lugar e minha rotina o mais rápido possível. Se demorasse demais, tudo aquilo viraria pó e eu não pretendia assistir à queda de longe.Meu espaço, agora, precisava ser reconquistado passo a passo. Eu sentia os olhares cravados em mim, alguns curiosos, outros desconfiados. Ainda assim, abaixar a cabeça nunca foi uma opção, afinal eu era um Salvatore e, depois da minha inocência ter sido comprovada em rede nacional, não devia satisfação a ninguém.O silêncio no elevador era constrangedor. Dois diretores subiram comigo, um pigarreou e o outro comentou algo irrelevante sobre o clima. Não respondi. Fui direto ao andar da presidência. Desta vez, meu retorno não era surpresa, tinha avisado com antecedência e de forma que Tadeu compreendeu que era definitiva, sem margem para negociação. O olhar d
Capítulo 196. Depois da tempestade
"Augusto"Quando o advogado disse que eu precisava ir mais uma vez à delegacia, senti apenas cansaço. Cada vez que o celular tocava, eu já imaginava que aquele seria o comunicado.Era um desgaste que não se resolvia com descanso. Eu já tinha contado tudo. Já tinha respondido às mesmas perguntas de maneiras diferentes, recontado a mesma história, repetido datas, horários, decisões. Ainda assim, lá estava eu de novo, sendo chamado — a prova de que, para eles, eu continuava sendo o suspeito final.Isabella quis ir comigo, mas não deixei. Não era ambiente para ela e, no fundo, além da proteção, havia vergonha. Eu não queria que ela visse, mais uma vez, o quanto aquilo me diminuía, o quanto destruía a minha reputação.No caminho até a delegacia, o advogado falava sobre estratégia, possibilidades, sobre como a coletiva daquela tarde poderia encerrar tudo. Eu ouvia, mas não absorvia. Já tinha aprendido que palavras bonitas não significavam nada. Existia, sim, a possibilidade — ainda que remo
Capítulo 195. Em estado de espera
"Isabella"Senti o alívio percorrer meu corpo quando Augusto foi liberado. Enquanto eu ainda era interrogada, só conseguia pensar nas tais provas que Karina dizia ter — especialmente na foto que ela havia enviado, da qual eu tinha certeza de que era falsa. Ainda assim, talvez a polícia não enxergasse daquela forma. Às vezes, uma prova frágil basta quando existe a chance de prender alguém grande.Augusto me abraçou assim que me viu, ainda na delegacia. Só queria ir para casa, descansar e fingir que tudo aquilo não tinha acontecido. Mas era impossível. Ver o filho de Karina ir embora sem a mãe, sabendo que ela ficaria detida, partiu meu coração, era dificil de esquecer. Assim que entramos no carro, falei sentindo algo entalado na garganta, na verdade era culpa. — Me desculpa por isso… acho que não estava pensando direito.— Você acha que eu sou o culpado? — ele perguntou, sem me olhar. — Não havia motivo para eu me encontrar com alguém que dizia ter provas contra mim se acreditasse qu
Capítulo 194. Interrogatório
"Augusto"A ligação para o meu advogado foi rápida. Expliquei, de forma superficial, que uma informação nova tinha surgido. Se achou estranho, não comentou. Apenas disse que o melhor a fazer era sairmos todos dali. Não adiantava disfarçar, havia câmeras por toda parte, e era óbvio que o momento em que entramos no prédio tinha sido registrado.Karina conseguiu acalmar o filho e colocá-lo no carrinho. Pegou uma bolsa às pressas, e descemos todos juntos. Foi preciso tirar a cadeirinha do carro dela e colocá-la no meu. Eu não permitiria que dirigisse — a possibilidade de fuga ainda era grande, e qualquer tentativa nesse sentido só agravaria ainda mais a situação dela e poderia colocar o bebê em risco.Isabella ajudava em silêncio. Não disse uma palavra, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que estava apavorada com o que poderia acontecer com aquela criança. Confesso que também senti um aperto no peito quando vi os olhos grandes do bebê me encarando com curiosidade. Ele podia ser
