5: Flores e desculpas
Author: Célia Oliveira
last update2024-09-12 09:09:58

Quando chega em casa, Marina se j**a na cama e começa a repassar mentalmente tudo o que aconteceu em seu primeiro dia de trabalho. Embora sentisse que poderia se dar muito bem naquele ambiente, o receio de cruzar novamente com Victor a inquietava. Sabia que, mesmo não trabalhando diretamente com ele, suas interações seriam inevitáveis. Ela se lembra que Katrina lhe disse mais algumas coisas sobre Victor antes de terminar o expediente.

“Ele tem um jeito de te manipular sem que você perceba. Ele testa seus limites, se faz de superior e, quando vê uma brecha, te envolve. Se você não tomar cuidado, acabará jogando o jogo dele… e, acredite, ninguém ganha esse jogo. Ele é experiente demais.”

Um som suave de batidas na porta a tira de seus pensamentos. Rapidamente, Marina se levanta e vai até a porta, onde se depara com sua mãe.

— Boa noite, meu amor. Como foi seu primeiro dia de trabalho? — pergunta Daniela, com um sorriso cansado, mas carinhoso.

— Foi bom. Possivelmente logo me acostumo com o ambiente.

— Que ótimo. Espero de coração que você se dê bem por lá e não precise trabalhar até tarde da noite, como nós — diz Daniela, com uma ponta de preocupação.

Daniela e o marido acordam às quatro da manhã e só fecham a padaria por volta das nove da noite. A primeira meta de Marina é se estabilizar para poder tirar os pais dessa rotina exaustiva.

— Prometo que vou tirar vocês dessa vida, mãe — afirma Marina, abraçando-a com ternura.

— Não pense tanto em nós, filha. Já estamos acostumados com isso. Se essa vida dura não se repetir com você, já ficaremos felizes — responde Daniela, com um sorriso sereno.

— É melhor a senhora ir descansar. Deixa que cuido da casa hoje — sugere Marina. 

— Tudo bem, meu amor. Obrigada.

Ao ver a mãe se afastar pelo corredor, Marina amarra o cabelo em um coque e desce as escadas para começar a arrumar a casa, aliviando um pouco a carga de trabalho da mãe. Ela começa pela cozinha e, quando termina, pega o lixo e o leva para fora. Ao voltar, avista Sávio pedalando sua bicicleta.

— Boa noite, Marina! Como foi seu dia? — pergunta ele, parando ao lado dela com um sorriso simpático.

— Foi bom. Estou determinada a me sair bem naquele lugar.

— Só não se esforce demais, tá? É inútil se matar por um trabalho que pode te substituir a qualquer momento — aconselha Sávio, com um tom de preocupação.

— Claro que vou me esforçar, Sávio. Tenho metas na vida e não posso me dar ao luxo de me acomodar.

— Às vezes, você parece muito ambiciosa, Marina — comenta, surpreso com a determinação que vê nos olhos dela.

— Não é pecado querer dar o seu melhor para mudar de vida — declara Marina, aproximando-se dele. — E acredito que você deveria pensar o mesmo, ou vai ficar nessa mesmice para sempre.

— Eu gosto da minha vida — responde Sávio, sorridente. — Tenho saúde, uma família unida e um trabalho que me faz feliz.

Marina suspira, frustrada, percebendo que ele não entende o que ela quer dizer.

— Se isso é suficiente para você, tudo bem — diz ela, levantando as mãos em rendição. — Mas um dia você sentirá falta de ter conquistado mais.

— O que é meu, Marina, vai me encontrar no tempo certo — responde ele, com uma calma que a irrita ainda mais.

Marina balança a cabeça, desacreditada.

— Tudo bem, Sávio. Você sabe o que é melhor para você — diz ela, se afastando. — Agora vou entrar. Tenho que acordar cedo para ir atrás do futuro que quero.

— Boa noite, Marina — ele responde, enquanto pedala de volta para casa.

Assim que o rapaz se afasta, uma lágrima solitária escorre dos olhos de Marina. Ela sabe o que sente por Sávio, mas jamais admitiria, especialmente ao vê-lo tão satisfeito com a vida simples que leva.

— Eu não posso parar minha vida por você — murmura, entrando de volta para casa.

[…]

Na manhã seguinte, Marina está novamente sentada na padaria, no mesmo lugar de sempre. Da sua posição, ela observa o movimento da rua e dos clientes que entram e saem. Enquanto come um pedaço de torta, quase se engasga ao avistar o mesmo carro do dia anterior estacionar em frente à padaria.

— Era só o que me faltava — resmunga, tomando um gole de suco para evitar o engasgo.

Ao ver a porta do carro se abrir, ela mal consegue acreditar. Victor Ferraz sai do carro, segurando um buquê de flores. 

“O que significa isso?”, pensa incrédula, enquanto seus olhos se arregalam de surpresa. Victor entra na padaria e faz um rápido reconhecimento do lugar. Ao avistar Marina, um sorriso irônico se forma em seus lábios.

Ela revira os olhos, tentando ignorá-lo, e ele também faz o mesmo, seguindo em direção ao balcão. Naquele momento, apenas um cliente estava na padaria. José estava na cozinha, colocando pães no forno, enquanto Daniela, atrás do balcão, se surpreende ao ver Victor novamente.

— Bom dia, senhora — ele a cumprimenta com um sorriso calculado.

— Bom dia, senhor — responde Daniela, cordial.

— Estas flores são para você — diz ele, estendendo o buquê.

— Para mim? — pergunta Daniela, surpresa.

— Sim, é um pedido de desculpas pelo meu comportamento de ontem — explica Victor. — Eu estava num dia ruim e acabei descontando em você e no seu marido. Por favor, me perdoe.

— Se for por isso, aceito suas desculpas — responde Daniela, sorrindo ao pegar as flores. — São lindas. Muito obrigada!

Marina, observando a cena, mal pode acreditar. Sua mãe está caindo no charme sujo de Victor, e isso a irrita profundamente.

— E o senhor deseja algo hoje? — pergunta Daniela, ainda com as flores nas mãos.

— Sim, hoje não estou com pressa e vou comer aqui mesmo — anuncia, com um olhar direto para Marina. — Vou querer o mesmo que a loirinha ali está comendo.

— Tudo bem, já vou servir — responde Daniela, saindo para colocar as flores em um vaso. 

Marina percebe que Victor está vindo em sua direção. Tentando disfarçar, ela finge não o notar. Porém, ele ignora o comportamento defensivo dela e puxa uma cadeira, sentando-se na mesma mesa.

— Bom dia, loirinha — provoca, com um tom caçoador.

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