All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 151
- Chapter 160
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Capítulo 151 - Assinatura
"Se você ouvir uma voz dentro de você dizendo 'você não pode pintar', então pinte, e essa voz será silenciada." Vincent Van GoghO comercial iniciou sobre um fundo claro, quase neutro, linhas finas surgiram lentamente, como traços técnicos desenhados no ar. Apareciam, cruzavam-se, interrompiam-se num ritmo rápido e calculado.Algumas linhas desapareciam antes mesmo de se completarem. Outras permaneciam, criando planos, volumes, perspectivas. Nada era orgânico. Nada era aleatório.Então, num movimento sutil, as linhas restantes se condensaram. Simplificavam-se. Até que, com uma precisão quase cirúrgica, se fundiram em uma marca.A logo da Orsini Design surgiu limpa, sólida e definitiva.E então a trilha começou, discreta, sofisticada, anunciando que o que viria a seguir.Em close, uma mão delicada surgiu em cena, deslizando lentamente pela superfície da madeira. Os dedos acompanhavam o veio com atenção quase reverente, iluminados por um reflexo natural que parecia nascer do próprio mat
Capítulo 152 - Verniz estilhaçado
"O tempo tem a estranha mania de ser tarde demais" Quando Cássio abriu os olhos, o cheiro asséptico o atingiu de imediato. Piscou algumas vezes, tentando afastar a névoa da mente, até que a imagem se organizou: teto branco, luz fria, o contorno metálico de equipamentos ao redor. Estava em uma cama de hospital.A cabeça latejava. Um torpor incômodo o deixava lento, mas ainda assim ele tentou se sentar.— Você acordou? — a voz de Silvia veio apressada, enquanto ela se aproximava.— O que… o que aconteceu? — perguntou, a garganta seca.Antes que ela respondesse, a porta se abriu e o médico entrou no quarto.— Que bom que despertou. Como está se sentindo? — perguntou com um tom profissional, porém gentil.— Não sei… eu… — Cássio ainda parecia tentar montar as peças do que lembrava.— O senhor teve uma crise de pânico — explicou o médico, respirando com empatia. — É algo relativamente comum em pessoas sob níveis elevados de estresse.— Crise de pânico? — Cássio repetiu, como se a expressão
Capítulo 153 - Esboço de promessa
“O amor começa assim: um contorno tímido… e um coração disposto a preencher.”Depois que todos se despediram, Santiago depositou um beijo demorado na testa de Helena e seguiu para o banho, enquanto ela recolhia as últimas coisas na cozinha. Quando terminou e foi para o quarto, encontrou-o apenas com a toalha enrolada na cintura, o cabelo ainda úmido, falando ao telefone em voz baixa.— Combinado, então. Também amo vocês — disse ele, antes de encerrar a ligação.Helena o envolveu por trás, abraçando-o pela cintura.— Posso saber o que o senhor Villar anda aprontando? — provocou, com um sorriso na voz.Ele girou o corpo, ficando de frente para ela.— Nada demais — riu. — Estava só falando com meus pais.— Você sente muita falta deles, não é? — perguntou, suave.Santiago assentiu, o olhar brevemente distante.— Sinto. Mas acho que não vai demorar para eles sossegarem.Ela apoiou a cabeça em seu peito, sentindo o calor que ainda vinha do banho.— Que tal passarmos o fim de semana na fazen
Capítulo 154 - O traço que permanece
“O amor imaturo diz: te amo porque preciso de ti. O amor maduro diz: preciso de ti, porque te amo.”Olívia surgiu à porta com um sorriso largo no rosto, os cabelos brancos, curtos, refletindo o brilho quente das luzes penduradas. Vestia um traje mais sóbrio do que o florido com o qual Helena a conhecera — parecia pronta para a missa de domingo, elegante na simplicidade.— Minhas crianças… — cumprimentou-os, afetuosa, já abrindo os braços. — Que bom que vieram.Helena foi a primeira a se deixar envolver pelo abraço apertado, retribuindo com a mesma ternura. O carinho se prolongou um pouco mais do que o esperado, até que Santiago pigarreou atrás dela, fingindo impaciência.— Não seja tão ciumento — repreendeu a avó, divertida, estendendo os braços também para ele.Santiago sorriu ao abraçá-la, rendido.— Fizeram boa viagem? — perguntou Olívia, segurando as mãos de Helena entre as suas.— Fizemos, sim — respondeu ela, ainda absorvendo o cenário ao redor. — Mas… por que a casa está toda d
Capítulo 155 - Duas telas
“Há quem celebre o começo enquanto outros aprendem a continuar.”Quando Santiago se afastou um pouco, Helena levou a mão ao peito, tentando conter o choro que transbordava. As mãos dele tremiam levemente enquanto encaixava a aliança em seu dedo — um gesto solene, quase sagrado, como se selasse algo eterno.Ela pegou a outra aliança com cuidado e repetiu o gesto, os olhos presos aos dele. Quando o ouro finalmente deslizou pelo dedo de Santiago, ela sorriu entre lágrimas.— Eu te amo… tanto — confessou, com a voz embargada.Ele segurou o rosto dela com carinho, os polegares secando-lhe as lágrimas.— Eu também te amo.Os aplausos vieram em cascata, quentes, cheios.Consuelo foi a primeira a romper o círculo. Enxugava o rosto, mas não conseguia conter o sorriso enquanto envolvia a filha num abraço apertado.— Você merece tudo isso, minha filha — disse, emocionada, como se cada palavra viesse do fundo do peito.Rogério aproximou-se logo depois, pigarreando para disfarçar os olhos marejado
Capítulo 156 - Harmonia
“Quando a composição é verdadeira, nenhum elemento sobra.”No restante do dia, Renato e Cássio se dedicaram a esboçar a disposição dos móveis no estande. O trabalho fluía com leveza. Para Cássio, havia um alívio silencioso em dividir decisões outra vez — a amizade com Renato parecia, enfim, ter se recomposto, suavizando a solidão que vinha se acumulando havia dias.Como a coleção era essencialmente minimalista, as peças dialogavam entre si com facilidade. Não havia espaço — nem necessidade — para excessos. A proposta pedia respiro, linhas claras, poucos elementos além do indispensável.Quando chegaram ao desenho final, os dois ficaram alguns segundos em silêncio, observando o resultado.— Ficou muito bom — disse Renato, confiante.Cássio assentiu, mas o olhar permanecia tenso.— Precisa ser mais do que bom. Precisa ser excelente — respondeu. — Eles estão divulgando até em comerciais de TV. O alcance é mundial. Temos que compensar isso de alguma forma.Renato apoiou as mãos na mesa.—
Capítulo 157 - Do âmbar ao cinza
“Há sombras que só precisam de uma fresta para entrar.” Santiago conduziu Helena por uma pequena trilha de terra até um trecho da fazenda que ela ainda não conhecia. O caminho serpenteava entre árvores altas e áreas abertas, e o vento frio da noite batia suave contra o corpo dela, misturado ao cheiro de mato úmido. Após alguns minutos, ele reduziu a velocidade e apontou à frente.Ali, no alto de outro mirante, surgia um sobrado em formato de A, todo construído em madeira e vidro, integrado ao verde ao redor como se tivesse nascido dali. As luzes externas realçavam as linhas simples da arquitetura, refletindo nas superfícies envidraçadas e criando uma atmosfera acolhedora e silenciosa.Helena tirou o capacete devagar, ainda absorvendo a cena, e aceitou a mão que Santiago estendia para ajudá-la a descer.— Amor… que lugar mais lindo — exclamou, com a voz baixa, quase reverente.Ele sorriu satisfeito, passando o braço pela cintura dela.— Imaginei que você ia gostar — disse, orgulhoso.
Capítulo 158 - Pigmento tóxico
“Algumas manchas não estão na pele.”No fim da tarde, Silvia acompanhou Viviane até a porta com uma energia nova, quase elétrica, pulsando sob a pele. Se não podia ser amada, Helena também não seria. Com paciência, arrancaria tudo o que fosse importante para ela.Assim que fechou a porta, subiu as escadas sem pressa. Tomou um banho longo, quase ritualístico. Quando saiu, não se vestiu. Parou nua diante do espelho do quarto, o corpo ainda úmido, os cabelos pingando sobre os ombros.Seus olhos desceram devagar até o ventre já levemente saliente.Ali estava a prova. O que a mantinha de pé. O que a tornava necessária.Silvia pousou as duas mãos sobre a barriga, os dedos abertos, como se quisesse moldar o futuro ali dentro. O reflexo lhe devolveu um sorriso torto, quase irreconhecível.— Você é meu — murmurou, para si mesma… ou para algo que só ela via.Naquele corpo havia poder. Um poder que Helena jamais teria. Helena tinha talento, tinha amor, tinha brilho — coisas frágeis, voláteis, f
Capítulo 159 - Tons de manhã
“Quando o amor é casa, o mundo desacelera.” Helena despertou lentamente, com a luz da manhã filtrando-se pela vidraça e pousando sobre sua pele com um toque morno. Do lado de fora, o canto dos pássaros se entrelaçava ao silêncio do chalé, criando uma melodia preguiçosa. Ao abrir os olhos, percebeu-se sozinha na cama baixa do mezanino, envolta por uma calma rara.O banho de banheira que Santiago insistira em preparar na noite anterior — e tudo o que haviam compartilhado dentro dele — permanecia em seu corpo como um eco tranquilo.Ela se ergueu devagar e deixou o olhar repousar sobre a banheira ainda cheia, posicionada próxima à vidraça. O ar ainda carregava consigo o aroma delicado dos sais de banho.Vestiu uma camiseta de Santiago e desceu os degraus estreitos de madeira quase sem fazer ruído, guiada pelos sons suaves vindos da cozinha logo abaixo. Ao encontrá-lo, apenas de bermuda de frente para a bancada, aproximou-se em silêncio e o envolveu por trás.— Te achei — murmurou, num so
Capítulo 160 - Pigmentos opostos
“Eu quero a sorte de um amor tranquilo.” CazuzaSilvia mal dormira. Algo lhe revirava o estômago enquanto a mente vagava, inquieta, por uma vida inteira de ausências.“Como seria ser amada?”Márcio gostava dela desde a juventude, ela sempre soubera. Mas o que ele era, afinal? Um operário sem importância — e, graças a ela, um capanga insignificante de Dante. Aquilo era pouco.“E Cássio? Como seria ser admirada por alguém como ele? Será que, algum dia, poderia despertar nele algo além do uso, além da conveniência?”Cássio dormia de costas para ela. O corpo largo, tranquilo, alheio. Silvia estendeu a mão, quase tocando os músculos firmes de sua lombar… mas conteve-se no último segundo.“O que estou fazendo?” — repreendeu-se. “Eu não preciso disso.”Levantou-se. O corpo parecia pesado, exausto, como se carregasse um peso que não sabia nomear. Seguiu até o banheiro.Depois de fazer suas necessidades, parou diante do espelho. Encarou o próprio reflexo por tempo demais. A raiva veio quente,