All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 141
- Chapter 150
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Capítulo 141 - Sem direito a retoque
“Por mais firme que seja o traço, sempre há uma parte da alma que escapa junto à tinta.”Pedro abriu a porta do carro para Lívia entrar, lembrando-se da pequena cena que ela fizera na pizzaria só para obrigá-lo a agir daquele jeito.— Ora, ora… — ela provocou, acomodando-se no banco. — Parece que alguém está aprendendo.— Não se empolga — respondeu ele, seco. — Só quis evitar o seu drama.Fechou a porta e tomou o lugar do motorista.— Sabe… — Lívia continuou, com um meio sorriso — você posa de durão, mas no fundo isso é só fachada.Pedro bufou, ligou o carro e arrancou. Durante o trajeto, ela o observava de soslaio: os músculos dos braços tensionados ao girar o volante, o maxilar firme, a atenção concentrada na estrada. Ele percebeu o olhar e virou o rosto para o lado, tentando esconder o sorriso que insistia em surgir.— Tenho que admitir uma coisa — disse, depois de alguns segundos. — Você é realmente muito boa no que faz. Quero dizer… tudo isso da Helena com aquele idiota. Você deu
Capítulo 142 - O traço final
“Depois da última camada, não há retoque que salve o que já foi revelado.”Silvia saiu das sombras no exato momento em que as portas do elevador se fecharam, levando Lívia e Pedro embora. O silêncio que ficou para trás parecia carregado demais para ser ignorado. Seu olhar, afiado e inquieto, denunciava a irritação de quem detesta não entender o que está acontecendo — e, pior ainda, não controlar.Avançou alguns passos em direção à porta da sala de Cássio, decidida a descobrir por conta própria, quando foi surpreendida por Riviera saindo apressado. Os dois quase se chocaram.O advogado franziu o cenho por reflexo, mas recompôs a expressão no mesmo instante. Aquela mulher parecia surgir em todos os lugares nos momentos mais inconvenientes.— Ah… senhora Moretti. Olá! — disse, com uma cordialidade automática.Silvia inclinou levemente a cabeça, estudando-o. — Doutor Riviera… estou sentindo um clima estranho na empresa hoje. — Sua voz saiu mansa demais. — Está acontecendo alguma coisa?E
Capítulo 143 - Fora da moldura
“Quem cresce na sombra aprende cedo a usar a escuridão como abrigo e como arma.” Cássio entrou em casa com passos pesados, Silvia logo atrás. Atirou o paletó sobre o sofá e seguiu direto para a escada.— Você não vai comer? — ela perguntou.— Estou sem fome.Silvia o observou subir. Não era apenas um homem moralmente diminuído — ele parecia menor. Mais magro, a pele opaca, os movimentos lentos de quem estava doente. Se falisse, não teria muita utilidade. Mas morto, seria inútil de vez. Então insistiu, modulando a voz com cuidado.— Você precisa se alimentar melhor. Cuidar da sua saúde.Cássio parou antes do primeiro degrau, sem se virar.— Por que você não sobe e toma um banho enquanto eu preparo alguma coisa?Houve um breve silêncio.— Tudo bem.Assim que ele desapareceu no topo da escada, Silvia pegou o celular e enviou uma mensagem curta à empregada, pedindo que viesse preparar um caldo de legumes.Mais tarde, Cássio saiu do banho arrastando o corpo exausto. Vestiu o pijama como q
Capítulo 144 - Pigmento sobre cicatriz
“Algumas feridas só cicatrizam quando decidimos pintar por cima.”Silvia voltou para casa sem pressa alguma. Subiu os degraus um a um, como se cada passo fosse uma tentativa inútil de triturar a frustração que ainda lhe corroía o peito. Helena talvez não fosse um problema para Dante — mas continuava sendo para ela.Parou ao lado da cama e ficou observando Cássio dormir. O corpo largado, vulnerável, alheio a tudo que se movia ao redor. A mente de Silvia, porém, não encontrava descanso. Aquela mulher não sairia ilesa. Mesmo que fosse preciso esperar, mesmo que fosse preciso ser paciente, Helena pagaria. Ela se certificaria disso.…Lívia se despediu de Helena e Santiago ainda no saguão da Orsini Design, não sem antes lançar uma piscadela descarada na direção de Pedro, que fingiu não ver, mas não conseguiu esconder o canto da boca traindo um sorriso.O dia seguinte prometia ser longo. E, embora quisesse comemorar a liberdade recém-conquistada da amiga, sabia que o corpo pedia descanso.
Capítulo 145 - Pintura craquelada
“Lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor e sofrer novamente.” William ShakespeareNa manhã de sexta-feira, Pedro aguardava do lado de fora, atento ao movimento tranquilo do bairro enquanto observava algumas crianças brincarem na rua. O olhar experiente varria o entorno quase por instinto, mesmo naquele cenário pacífico.Quando Helena e Santiago finalmente surgiram, algo neles parecia diferente. Mais leves. Mais felizes.— A privacidade parece ter feito milagres com vocês — provocou ele, com um meio sorriso.Santiago respondeu antes que Helena pudesse abrir a boca: — Melhor não provocar enquanto ela ainda está com fome.Pedro riu baixo, contornando o carro. Marcelo já havia seguido para a agência mais cedo, levando Mabe consigo.— Onde querem tomar café? — perguntou, já abrindo a porta.Helena nem precisou pensar. — Que tal a padaria da esquina? O croissant de lá é simplesmente perfeito… — disse, com um entusiasmo quase infantil.Santiago sorriu da empolgação dela.Co
Capítulo 146 - Nova perspectiva
“O futuro não pede permissão. Ele simplesmente começa.”Após o café delicioso, Pedro seguiu com os futuros papais para a clínica, atento ao trânsito e ao entorno. Helena faria sua primeira consulta de pré-natal, e havia algo quase solene naquele compromisso.Pelo retrovisor, ele flagrou a cena comovente: Santiago acariciando o ventre ainda discreto de Helena, enquanto ela descansava a cabeça em seu ombro, tranquila. O gesto era simples, mas havia nele uma ternura que apertou o peito de Pedro.Nunca fora homem de planos longos. Relações sérias sempre lhe pareceram um risco alto demais. Já perdera pessoas demais na vida — perdas que ensinaram a não se apegar, a não criar raízes onde o chão pudesse ceder. Amar, para ele, sempre carregara a sombra do luto antecipado.Ainda assim, algo vinha mudando.Naquele tempo trabalhando ao lado deles, acompanhando de perto aquele amor que crescia com cuidado e respeito, Pedro se pegou desejando o que nunca ousara querer. Não era inveja. Era uma espéc
Capítulo 147 - Tentativa de restauração
“Arrependimento não mata, o que nos dói é a certeza de que nossas vidas poderiam ter seguido um rumo diferente.”Nem mesmo a dor provocada pela troca do curativo conseguiu arrancar Cássio do torpor em que estava mergulhado. Ele continuava distante, afundado no próprio vazio.Silvia, ao seu lado, tentava decifrar o emaranhado de pensamentos que o mantinha tão distante.O procedimento havia sido rápido e, em poucos minutos, já estavam novamente no corredor da clínica. Antes de seguir, Cássio lançou um último olhar para a porta fechada do consultório de obstetrícia. Doía — profundamente —, mas não havia mais nada a ser feito. Nem sequer podia se permitir qualquer aproximação, amarrado pela medida restritiva que o mantinha afastado dela.— Vamos — chamou Silvia, firme. — Precisamos conferir os últimos detalhes do lançamento — acrescentou tentando incutir nele algum senso de urgência, qualquer coisa que o arrancasse daquele lugar.Cássio baixou a cabeça. Após alguns segundos, assentiu e se
Capítulo 148 - Paleta fria
“Montar um quebra-cabeças faltando peças e tentar consertar uma vida errada é a mesma coisa.”Assim que Pedro estacionou em frente à galeria para deixar Santiago, o celular de Helena vibrou no silêncio do carro.Uma notificação do aplicativo do banco.“Você acabou de receber uma transferência no valor de noventa milhões de reais.”Ela leu uma vez. Depois outra.Não sentiu euforia. Nem surpresa. O que veio foi algo mais raro: alívio. Não pelo dinheiro em si, mas pelo ponto final. Estava feito. Aquilo, enfim, pertencia ao passado.Santiago percebeu a mudança em seu semblante e, ao acompanhar o olhar dela até a tela, entendeu.Aquilo não chegava nem perto do que ela merecia, mas pelo menos agora nada mais a ligava ao passado.Ele a puxou para si, envolvendo-a num abraço firme, protetor.— Pronta pra começarmos esse novo capítulo… agora sem amarras?Helena sorriu, um sorriso inteiro, tranquilo.— Ansiosa.Santiago beijou-lhe a testa com ternura.— Então, até mais tarde.Antes de sair do c
Capítulo 149 - Imagem oculta
“Sinto um vazio dentro de mim, uma coisa que não sei como explicar, é tipo um vazio que "preenche" toda minha alma, uma coisa que parece que vai explodir a qualquer hora…”Cássio assistia à transmissão sem piscar.A câmera passeava pelo showroom com movimentos lentos, quase cirúrgicos. Os móveis surgiam enquadrados com precisão excessiva — aço, vidro, linhas duras. Nada fora do lugar. Nada vivo demais.Era bonito.Era eficiente.Era… vazio.Ele reconhecia aquilo. Reconhecia demais. Para ele, inércia não era um conceito, era um estado.Viu Renato falar. As palavras corretas. O tom exato. As desculpas ensaiadas pela ausência. Tudo sob controle.Os comentários elogiosos surgiam na transmissão, mas que aquele sucesso não o salvava. Apenas o mantinha em pé.Uma hora depois, a transmissão chegou ao fim. Cássio passou a alternar as abas do navegador com atenção quase obsessiva — redes sociais, portais de decoração, revistas especializadas em design de interiores para as quais a assessoria j
Capítulo 150 - O acabamento do avesso
“Nem todo silêncio é vazio. Alguns estão cheios de futuro.”Ao chegarem ao Studio Cassiani, Renato não subiu. Despediu-se ali mesmo e seguiu para a própria empresa, deixando Cássio com a estranha sensação de que, apesar de tudo, a distância entre eles começava enfim a diminuir.Cássio passou o restante do dia recolhido em sua sala. Talvez pelo alívio momentâneo trazido pelos resultados positivos do retorno das operações, a fome — há dias esquecida — finalmente dera sinal de vida. Pediu que a assistente providenciasse um almoço tardio e comeu ali mesmo, sem pressa, observando relatórios e notificações surgirem na tela.Os pedidos continuavam entrando. O ritmo era animador. A empresa respirava de novo.Ainda assim, a cifra permanecia intacta em sua mente. Noventa milhões.E, por mais promissor que o movimento parecesse, aquele número seguia ali — pesado, imóvel, longe de estar resolvido....Helena equilibrava um prato de folhas verdes com frango grelhado enquanto comia ao lado dos cole