All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 191
- Chapter 200
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Capítulo 191 - Matéria Viva
“Nem tudo que se perde tem valor. Nem tudo que é bonito é amor. O que passou, passou, não voltará. O que tiver que vir, virá.”Cássio esperou que Renato aparecesse para conversarem rapidamente sobre a feira antes de ir embora. Como não havia passado por lá, não fazia ideia de como estavam as coisas. Para sua surpresa — e alívio — tudo havia corrido bem; o estande estava praticamente finalizado.Conteve-se para não perguntar sobre a Orsini, mas Renato acabou comentando por conta própria:— O estande do nosso maior concorrente está todo coberto. Não dá pra ver nada. Estão fazendo um suspense danado.Cássio bufou, impaciente.— Que frescura… como se a gente já não conhecesse a Prisma.— Não sei, viu. Chegaram muitas caixas hoje. — Renato ponderou. — A equipe parece respeitar muito ela. Dá pra sentir.Ele observou o amigo, atento à reação.Por alguns segundos, o olhar de Cássio ficou vago, distante. Depois, recompôs-se.— Isso não tem nada a ver com a gente — disse, mais para si mesmo do
Capítulo 192 - Apagamento
“A desesperança é um sentimento reacionário e nos coloca conformados.”Cássio acordou cedo novamente na terça-feira, mas, dessa vez, Silvia se antecipara. Quando ele desceu as escadas, encontrou-a na cozinha, já à sua espera, com o café passado — quente e forte, exatamente como ele gostava.— Por que acordou tão cedo? — perguntou, sem muito interesse. Tudo o que menos queria naquele momento era interagir com alguém, menos ainda com ela.— Você saiu tão sorrateiro ontem… — disse, estendendo-lhe a xícara, o sorriso doce demais para aquele horário. — Tenho certeza de que não está se alimentando direito. Resolvi acordar mais cedo para preparar seu café.Ela empurrou um prato com um sanduíche natural com pão integral em sua direção e continuou, num tom cuidadoso:— Eu sei o quanto você anda preocupado. Mas, se continuar assim, vai acabar surtando. Você precisa parar um pouco, descansar.Cássio a observou em silêncio, exausto. Parecia que ninguém, absolutamente ninguém, conseguia compreende
Capítulo 193 - Barroco
“Quando tudo o que sustenta um homem lhe é arrancado, o desespero não grita.Ele se aquieta. E, no silêncio, até o medo aprende a ir embora.”Cássio estava em um lugar que não reconhecia, sentado na grama macia de um campo coberto por flores miúdas. Utópico demais para ser real.Protegia os olhos do sol com a mão enquanto observava Helena correr, rindo, atrás de uma criança. Uma menina pequena, de cabelos da cor da terra molhada — exatamente como os dela.Inspirou fundo, sentindo o ar leve, limpo, tão puro quanto a alegria que lhe preenchia o peito. Por um instante, tudo parecia inteiro outra vez.Então Helena parou e olhou para ele. Do mesmo jeito que o olhava antes. Havia amor neles. O mundo pareceu suspender o fôlego.Até que algo o empurrou.Seu corpo tombou de lado na grama e o impacto o arrancou do sonho. Piscou pesado, desorientado. O campo havia desaparecido. As flores, a luz, a criança — tudo se dissolvera. Estava de volta ao parque. O céu já começava a perder o azul intenso,
Capítulo 194 - Expressionismo
“Ninguém foge do que cultivou. Algumas colheitas não gritam — cercam-te.”Cássio fitava a grande porta de madeira talhada à sua frente. As figuras esculpidas nela eram antigas, agressivas — formas retorcidas que lembravam demônios em tormento. Havia algo profundamente perturbador naquela imagem, como um aviso silencioso.A porta se abriu.Um dos homens fez um gesto curto, ordenando que entrasse.Ele hesitou por um segundo a mais do que devia. O empurrão veio discreto, porém firme, suficiente para forçá-lo a avançar alguns passos para dentro da sala.Ao recuperar o equilíbrio e erguer o olhar, o mundo pareceu se ajustar de repente.Ali estava o homem que ele quase conseguira apagar da memória.A cicatriz longa e irregular que rasgava a lateral esquerda do rosto, da maçã da face até perto do canto da boca. Os olhos escuros e fundos — como poços que não devolvem o que engolem. A mandíbula marcada, dura como pedra talhada. E o nariz… levemente quebrado para o lado.Agora Cássio sabia por
Capítulo 195 - Borrão irreversível
“Quando todas as saídas desaparecem, descobrimos que o labirinto sempre foi interno. E que fomos nós que o desenhamos.”Dante conhecia aquele tabuleiro como poucos. Já havia atraído muitos para dentro da sua teia, observando cada movimento até o momento exato em que a resistência se desfazia. Alguns ainda tentavam manter a pose, fingiam firmeza, ensaiavam recusas… mas no fim, todos cediam. Sempre cediam. Ele nunca saía de mãos vazias.— O que eu quero é algo muito simples — disse com tranquilidade. — Quase insignificante diante da minha boa vontade. Quero apenas o controle do setor de logística da sua fábrica.Cássio o encarou, surpreso, tentando encontrar lógica naquele pedido específico.— Eu não entendi… — disse, cauteloso. — Eu não posso entregar a fábrica. A empresa depende dela para existir.Dante ergueu levemente a sobrancelha, paciente, como quem explica o óbvio a uma criança.— Eu não estou pedindo a fábrica. Fui claro. — Inclinou-se um pouco à frente. — Quero apenas a logíst
Capítulo 196 - Pincelada seca
“O veredicto não vem de uma vez; o processo é que se torna o castigo.” Franz KafkaCássio deixou a sala sentindo o peso do valor de sua alma na maleta. Não carregava apenas dinheiro, mas o preço exato daquilo que havia acabado de entregar.Do lado de fora, os homens o aguardavam em silêncio. Não houve palavras, apenas gestos objetivos. Foi conduzido de volta ao carro, e o ritual se repetiu: a venda sobre os olhos, o nó firme atrás da cabeça, o mundo novamente reduzido ao escuro.No banco traseiro, com a maleta apoiada sobre o colo, o silêncio do veículo se tornou ensurdecedor. Não havia ameaças, não havia pressa — apenas o vazio. Um vazio amplo, pesado, que se espalhava por dentro dele como uma sala sem móveis. Era como se tivesse deixado algo importante para trás, algo que não cabia na maleta. Algo que não poderia ser recuperado.Sentia-se oco. Inerte.Quando o carro finalmente parou, ele arrancou a venda quase por reflexo. Ninguém tentou impedi-lo. Um dos homens desceu primeiro e fe
Capítulo 197 - Camadas soterradas
“Há escolhas que não nos empurram para o abismo. Nós apenas descobrimos tarde demaisque já estávamos andando em sua direção.”Cássio caminhou até a casa com a maleta colada ao corpo, desconfortável, como se carregasse algo que queimava através da superfície. Não era apenas dinheiro. Era a materialização da própria vergonha. Cada passo parecia denunciá-lo, cada olhar imaginário dos vizinhos soava como julgamento.Entrou apressado, fechando a porta atrás de si com cuidado excessivo. O interior da casa estava mergulhado na penumbra — sinal de que Silvia ainda não havia chegado. Um alívio breve, quase culpado.Se ela o visse com aquela maleta, faria perguntas que ele não estava disposto a responder. Na verdade, nem saberia como.Precisava esconder aquilo o quanto antes.Subiu as escadas em passos rápidos, o coração batendo descompassado. No quarto, pousou a maleta sobre a cama como se ela pudesse explodir a qualquer momento. Abriu o closet e começou a revirar prateleiras, gavetas, caixas
Capítulo 198 - Tons quentes
“O verdadeiro encontro entre duas pessoas acontece quando os corpos também se reconhecem.” D. H. LawrenceHelena e Santiago se moviam pela cozinha com a naturalidade de quem já havia feito aquilo muitas vezes juntos. Havia algo de familiar no gesto de dividir o preparo da refeição, tão parecido com a primeira noite em que cozinharam ali — a mesma em que, sem perceber, nunca mais haviam se largado. Santiago cuidava do strogonoff, atento ao ponto do molho, enquanto Helena finalizava o arroz. Os movimentos se encaixavam em perfeita sincronia.Desde que Pedro e Marcelo haviam voltado a ocupar o sobrado ao lado, uma nova rotina se formara dentro daquela casa. Jantares improvisados, portas abertas, risadas atravessando os cômodos. Um pequeno núcleo que se sustentava em afeto e presença. Ainda assim, Helena sabia: aquele equilíbrio tinha prazo para mudar outra vez.Pouco antes, haviam recebido a visita de Inês Cavalcante, a engenheira parceira dos Duarte. Durante quase uma hora, as duas casa
Capítulo 199 - A sombra do perigo
“O medo não impede a morte. Impede a vida.” Albert CamusA quarta-feira tão aguardada acabara de clarear. Helena terminava de se arrumar diante do espelho. O macacão de alfaiataria em tom nude abraçava seu corpo com elegância, a parte superior desenhava o tronco, enquanto a amarração delicada na cintura marcava o centro do seu corpo. As pernas se abriam em uma pantalona fluida que escondia quase por completo a sandália de salto grosso — confortável, pensada para o longo dia que teria.Metade do cabelo estava preso em um meio-coque simples, o restante caia em ondas macias, uma cascata de chocolate até a base das costas. Uma maquiagem leve, brincos dourados em forma de nó capturavam a luz com discrição nos lóbulos de suas orelhas.Ao tentar colocar o colar herdado da avó, com o pingente de coração que carregava mais memória do que ouro, hesitou por um segundo.“Use quando precisar se lembrar de quem você é, minha menina.”Quase podia ouvir a voz de sua avó.A simples ideia de Cássio ter
Capítulo 200 - O Erro Secou
“Todo pecado é uma escolha.” Oscar WildeHelena chegou ao São Paulo Expo acompanhada de um Pedro muito mais atento e alerta do que nos últimos dias. Do lado de fora, filas e mais filas aguardavam o horário de abertura do evento. O número de pessoas circulando era surpreendente.Após apresentarem os crachás de expositores na entrada, foram autorizados a entrar. Lá dentro, o ambiente parecia ainda mais agitado, carregado de expectativa.Helena caminhou até o estande da Orsini Design observando tudo ao redor, tomada por um orgulho silencioso por fazer parte daquilo.Encontrou a equipe igualmente animada. Todos vestiam camisas brancas impecáveis, com o logotipo dourado da empresa bordado ao peito — um detalhe que traduzia o cuidado e o orgulho de representar aquela marca. Eles seriam responsáveis por apresentar as peças aos visitantes, explicar o conceito dos móveis, conduzir praticamente um tour imersivo pelo espaço e pela coleção.No balcão de informações, duas recepcionistas da empresa