All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 201
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Capítulo 201 - Falso brilho
“A inveja é um sentimento tão torto que quem o sente nem percebe o quanto se diminui.” Clarice LispectorO motorista estacionou no prédio adjacente ao grande salão do evento. Assim que Cássio desceu do carro, Silvia posicionou-se ao seu lado e enlaçou-lhe o braço, num gesto calculado. Ele permitiu, ainda que o contato lhe pesasse mais do que deveria.Atravessaram juntos a travessa que ligava os dois edifícios. Ele seguia com o queixo erguido, a postura de quem sempre estivera no controle — ao menos por fora. Ela caminhava com a convicção de quem ocupava, enfim, o lugar que merecia.O vestido lilás, de ombro único, moldava-lhe o corpo. O corpete estruturado se abria em tecido fluido logo abaixo do busto, disfarçando a barriga já saliente, embora Silvia mantivesse a mão pousada sobre o ventre, quase ostentatória. Queria que todos vissem que ali crescia o futuro herdeiro dos Amaral. E ela, muito em breve, seria a senhora daquela casa. Cássio percebeu o gesto — e desviou o olhar.Ela não
Capítulo 202 - O olhar do outro lado da tela
“Há coisas que só compreendemos quando já não nos pertencem.” Carta de Vincent van GoghO som ambiente preenchia o pavilhão com uma música animada. Logo na entrada, os organizadores da feira se posicionavam com microfones, prontos para a abertura oficial, enquanto artistas aguardavam o momento de iniciar apresentações e performances temáticas. Tudo vibrava em expectativa.Quando faltavam apenas quinze minutos, a equipe da Orsini percebeu que era hora.— Vamos? — perguntou Rafael, animado, já com a mão no interruptor único que acendia todas as luzes do interior do estande.Eles se mobilizaram em silêncio coordenado, soltando os ganchos, removendo e dobrando as cortinas com cuidado. À medida que o tecido descia, os estandes vizinhos e as pessoas que transitavam pelo corredor reduziram o passo. Alguns pararam. Outros se aproximaram sem perceber.Quando as luzes se acenderam, o interior do estande se revelou como um convite.Houve um breve silêncio — aquele instante raro em que o barulho
Capítulo 203 - A harmonia ameaçada
“Aquilo que é reprimido retorna, muitas vezes de forma violenta.” Sigmund FreudHelena acompanhava o movimento crescente do pavilhão com atenção serena. O fluxo de pessoas se intensificava: visitantes curiosos, lojistas atentos, decoradores, repórteres, engenheiros, arquitetos, consultores. Tudo se misturava num vaivém constante. Ela ouvia as explicações precisas das recepcionistas da Orsini para quem se aproximava do balcão — ninguém saía dali sem um panfleto, um cartão, um contato. Dentro do estande, seus colegas também se destacavam, conduzindo conversas que despertavam ainda mais o interesse em cada novo visitante.Não havia euforia. Havia permanência.As pessoas ficavam. Demoravam-se. Faziam perguntas que iam além do preço — queriam saber de onde vinha a ideia, o porquê das formas, o sentido das escolhas de materiais. Aquilo a atravessou com uma satisfação calma, quase íntima.Funcionava.O estande não competia com os outros. Ele acolhia. Criava um intervalo dentro da feira — um
Capítulo 204 - A cor do pressentimento
“Nada é mais perigoso do que aquilo que foi mal enterrado.” Hannah ArendtSilvia sempre acreditara saber conduzir o jogo, mas o reaparecimento de Márcio lhe lembrava, de forma brutal, que algumas peças não se deixam descartar assim tão fácil. Se ele resolvesse falar, tudo ruiria — o casamento, o sobrenome que estava prestes a assumir, a empresa, a versão cuidadosamente construída de si mesma. Tudo agora parecia suspenso por fios frágeis demais, esticados ao limite.O pânico veio forte. Não pelo escândalo em si, mas pela possibilidade de perder tudo antes mesmo de tocar aquilo que julgava seu por direito.Instintivamente, levou a mão ao ventre, como um último apelo silencioso para conter o passado que ameaçava emergir.— Meu amor… — começou, a voz doce ensaiada. Forçou os olhos a marejarem enquanto dava passos curtos na direção dele. — Como pode dizer essas coisas? Sempre fomos uma equipe. Tudo o que fiz foi pensando no nosso filho.Márcio balançou a cabeça, exausto.— Eu não queria na
Capítulo 205 - Camadas de Culpa
“Não se cai de uma vez. Cai-se aos poucos.” Clarice LispectorMárcio chegou à antiga casa onde Silvia morara com os pais e teve a impressão imediata de estar diante de um fantasma. O lugar era apenas a sombra do que fora um dia. A iluminação estava desligada, assim como o abastecimento de água. As cortinas pendiam gastas, ruídas pelo tempo, e os poucos móveis que restavam estavam cobertos por uma camada espessa de poeira, como se ninguém ousasse tocá-los havia anos.Ele nunca entendera por que Silvia insistira em manter aquela casa, mesmo depois de tudo o que acontecera ali. A mãe adoecera e falecera pouco tempo depois. O pai deprimido afundara no alcoolismo, e junto com ele desaparecera a menina doce que Márcio conhecera. Aquela casa marcara o início do fim.Ele sabia o quanto aquilo fora difícil para ela. Tentara ajudar como pôde — mesmo que fosse pouco. Também era órfão. Os pais haviam morrido em um acidente de carro quando ele ainda era criança, e fora criado pela avó desde então.
Capítulo 206 - O quadro do erro
“Não se apaga uma mancha acrescentando mais tinta.” Paul KleeMárcio acreditou, por um instante, que aquilo fora um livramento. Um gesto divino — ou ao menos um sinal — para que repensasse os próprios atos. Uma última chance de resgatar o pouco que ainda restava de sua alma.O carro que usara naquela tentativa falha fora arranjado por Silvia. Não sabia a procedência, mas tinha plena consciência de que precisava se livrar dele. Dirigiu até um lago afastado da cidade, conhecido por engolir histórias mal contadas. Colocou um tijolo sobre o pedal do acelerador, engatou a primeira marcha e saltou para fora. O veículo seguiu sozinho, avançando até desaparecer sob a superfície escura da água.Aquele lago já guardava segredos demais. A partir daquele momento, carregaria mais um — o dele.Márcio caminhou pela estrada de terra em silêncio, os pensamentos tão pesados quanto os passos. A cada metro, repassava as escolhas que o haviam levado até ali. Amava Silvia, disso não tinha dúvida. Mas aque
Capítulo 207 - Enquadrado
“Não há paz sem justiça.” Martin Luther King Jr.Márcio juntou o dinheiro de volta no pacote e o enfiou no fundo da mochila, cobrindo-o com algumas peças de roupa, como se pudesse esconder também o peso daquilo. Pegou o capacete sobre a mesinha, respirou fundo e partiu.Antes de deixar a cidade, procurou um amigo — um sujeito não muito correto, conhecido por fabricar identidades falsas para adolescentes burlarem a idade e entrarem em boates. Pediu-lhe um novo nome. Pagou em dinheiro pelo seu silêncio.Só então pegou a estrada, sem destino definido.Passou por cidades pequenas, lugares onde o efetivo da polícia era escasso e pouco eficiente. Descoloriu o cabelo. Passou a usar apenas blusas de manga longa, mesmo no calor, para esconder as tatuagens que o denunciavam. Cada mudança era um passo a mais no apagamento de quem fora.Nunca ficava muito tempo no mesmo lugar. Não havia mais ninguém ao seu lado. Nenhuma ligação para fazer. Nenhum lugar para voltar.Márcio seguia sozinho pelo mund
Capítulo 208 - A cor do desengano
“A verdade não muda; muda o modo como a enxergamos.” Pablo PicassoMárcio aguardou a uma distância segura daquele mar de gente até que a feira fosse oficialmente aberta ao público. Esperou com paciência que o fluxo se reorganizasse, que a curiosidade inicial se dissipasse um pouco, e só então entrou. Sua aparência destoava dos demais, mas, em meio a tantos estímulos visuais, a atenção que despertava era breve demais para se tornar risco.Usou o mapa recebido na entrada para localizar o estande do Studio Cassiani. Não foi difícil. Parou a alguns metros de distância — e sua atenção encontrou Silvia antes mesmo de procurar por qualquer outra coisa.Ela estava elegante. A pele viçosa. Serena demais. Indiferente ao caos que se tornara a vida dele por causa dela.Observou a forma como ela tratava os funcionários: o nariz erguido, o tom autoritário, como se fosse dona não apenas daquele espaço, mas das pessoas que ali circulavam. Aquela mulher não se parecia em nada com a que ele ainda guard
Capítulo 209 - Retoques de Ironia
“A arrogância sempre tropeça no detalhe.” Albert CamusPedro duvidava que, em um lugar tão lotado, alguém ousasse tentar qualquer coisa. Ainda assim, mantinha-se cem por cento alerta. O olhar varria o pavilhão sem descanso. Mais cedo, notara Cássio observando a uma curta distância, mal disfarçando o interesse nítido e desaparecendo com o amigo pouco tempo depois.Para Pedro, apesar de achar o empresário um grande idiota, não acreditava que ele fosse capaz de algo realmente extremo. Parecia mais um homem corroído pelo arrependimento do que movido por impulso violento. Quase patético, se fosse honesto consigo mesmo. Ainda assim, homens com o ego ferido costumavam ser imprevisíveis. Perder nunca lhes assentava bem.Helena, por sua vez, parecia em paz. À vontade naquele espaço que ajudara a construir. Conversava com todos que se aproximavam — e não eram poucos. Dava entrevistas, posava para fotos com a equipe, conduzia visitas pelo estande com naturalidade.Estava feliz por ela.Diferente
Capítulo 210 - Camadas descascadas
“O perigo não está no ódio, mas na certeza. Nada é mais violento do que quem acredita não ter outra saída.” Albert CamusSilvia observava a paisagem pela janela do carro sem realmente enxergar nada. Estava tensa demais para absorver o que passava diante dos olhos. O motorista ainda tentou puxar conversa, comentou algo sobre o trânsito, mas foi silenciado por um olhar seco, de reprimenda. Ela não tinha espaço para trivialidades.Não soube dizer quanto tempo se passou até que a paisagem começou a mudar.Primeiro, veio uma sensação difusa. Depois, o reconhecimento. A entrada do bairro. A pracinha onde brincara quando criança. A antiga padaria — ainda de pé, embora cercada agora por prédios que não faziam parte de suas lembranças. Tudo parecia ligeiramente deslocado, como uma fotografia antiga mal restaurada.O carro reduziu a velocidade e parou.Silvia ergueu o olhar e sentiu o estômago se contrair. À sua frente, a casa baixa de paredes amarelo bege desbotado. A pintura descascava em vár