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Author: DaysyEscritora
last update2025-11-10 06:38:31

Os dias se arrastavam, cada um mais pesado que o anterior. Bianca vivia diariamente sob o manto gélido da ignorância de sua mãe, Vivian, que raramente lhe dirigia a palavra, exceto para um reproche velado. Seu pai, Bruno, embora menos brusco, mantinha uma distância abismal, uma frieza que doía mais do que qualquer grito.

Por isso, quando um dia o viu à sua frente, olhando-a nos olhos e dirigindo-lhe uma saudação, Bianca se atordoou por um segundo. A voz de seu pai era grave, incomum.

— Bianca — disse Bruno, seu tom neutro, mas firme. — Preciso falar com você. Estou te esperando na sala. — Sem esperar por resposta, ele se virou e desapareceu.

Cheia de uma crescente desconfiança, Bianca se dirigiu lentamente à sala, cada passo um fardo pesado. Ao entrar, notou que seu pai tinha companhia. Ali estava Vivian, sentada no sofá, sua postura rígida e seu rosto contraído, irradiando uma raiva palpável. Bianca sentou-se também, seus movimentos lentos e cautelosos, como se cada articulação doesse.

— Por que queriam me ver? — quis saber, sua voz mal um sussurro.

Bruno respirou fundo, o peso do momento visível em seus ombros.

— Devido à morte repentina de Aitana, tudo mudou. Mas há algo que não muda, Bianca: a dívida que temos com aquela família. Conversamos com os pais de Eric, e George, assim como sua esposa Jackeline, deram sua aprovação para que se realize o seu casamento com Eric.

O mundo de Bianca parou. Um desfecho assim era inimaginável, absurdo. Não havia passado nem um mês desde a morte de Aitana, e já a estavam colocando como um simples substituta, um tapa-buraco para saldar uma conta. O pânico a invadiu. Seu corpo tremeu incontrolavelmente, e seus nervos se dispararam. Negou com a cabeça, repetidamente.

— Não posso me casar com Eric — as palavras saíram com dificuldade. — Por que eu me casaria com o noivo de Aitana? Não vou fazer isso!

Vivian a olhou de forma ameaçadora, seus olhos injetados de raiva.

— Agora você se preocupa que ele tenha sido o noivo de sua irmã? — espetou Vivian, sua voz um chicote. — Acha que eu não sei que você sempre gostou do Eric? Você sempre olhou para ele com esses olhos de ovelha, não é?

Um silêncio tenso preencheu a sala. Bruno pigarreou, desconfortável, tentando retomar o controle da conversa.

— Filha, isso é para o bem de todos. O negócio da família não pode mais ser salvo com nossas próprias forças. Mas pelo menos, poderei recuperar algo do que perdemos se você se casar com Eric. Faça isso, por favor. É nossa última esperança.

Vivian bufou, impaciente, desdenhosa.

— Pare de pedir a ela com amabilidade, Bruno. Afinal, é o mínimo que ela pode fazer para reparar o dano que nos causou — acusou, seu olhar cravando-se na trêmula e nervosa Bianca. — E pare de se fazer de boba. Você deveria estar contente por conseguir o que sempre quis. Ou vai me negar que o sobrenome Harrington não era sua ambição secreta?

Talvez sua mãe, sempre tão observadora apesar de sua frieza, sempre tão perceptiva às verdadeiras intenções, tivesse percebido os sentimentos ocultos de sua filha pelo noivo de Aitana. Uma verdade que Bianca guardara ciosamente no mais profundo de seu coração.

Bianca cerrou os punhos com tanta força que suas unhas cravaram em suas palmas. A ideia de se casar com Eric era insuportável. Não importava que sua própria irmã tivesse lhe admitido em vida que não sentia nada por aquele homem, que o noivado com Eric não passava de um arranjo de negócios, um amor que ela não podia corresponder. De todo modo, Bianca se sentia terrivelmente mal por ter que ocupar o lugar dela, por se tornar a sombra de Aitana.

— Eu não serei a esposa desse homem — soltou, tentando soar firme, embora sua voz fosse apenas um fio.

O que ela não esperava era o tapa. O som ecoou na sala. O giro brusco de seu rosto não doeu tanto quanto o olhar de sua mãe, carregado de raiva, decepção e um desprezo absoluto.

— Case-se se não quiser nos ver mendigando — sibilou Vivian, sua voz baixa, mas letal. — Se não quiser se ver transformada em ninguém, uma pária.

Encurralada, oprimida pela culpa que sentia e pela dor que a consumia, Bianca se viu forçada a pronunciar um "sim". Um "sim" que não era de aceitação, mas de resignação. Um "sim" que a condenava ao seu próprio inferno pessoal: à sombra de sua irmã e sob o nome de Eric Harrington, o homem que a odiava.

Quando George Harrington se sentou em frente ao filho Eric no imponente escritório de sua mansão, houve tensão.

Jackeline observava em silêncio, seu semblante grave. A proposta de desposar Bianca Bellerose, apenas algumas semanas após a morte de Aitana, acendeu a fúria de Eric.

— Vocês estão loucos? — rugiu Eric, batendo na mesa de mogno. Seus olhos azuis, habitualmente frios, ardiam com uma mistura de dor e absoluta incredulidade. — Casar com Bianca? A culpada pela morte de Aitana! Jamais!

George o deixou desabafar, sua expressão pétrea. Quando o eco da voz de Eric se dissipou, o patriarca falou, sua voz grave e ressonante, cada palavra carregada de um peso inabalável.

— Se você não se casar com Bianca, Eric, a reputação da família Harrington ficará irreparavelmente manchada. O noivado com Aitana não era apenas um acordo de negócios; era uma aliança pública, anunciada em todos os círculos sociais e financeiros, um passo que assegurava nossa posição como a família mais influente. As pessoas esperavam essa união. A interrupção deste casamento, tão abruptamente após a tragédia, levantaria suspeitas e alimentaria rumores. Diriam que os Harrington são instáveis, que não cumprimos nossos compromissos.

— Pai, eu não vou me casar com ela.

— Eric, essa jovem não é culpada pela morte de Aitana, foi um acidente. Deixe de negar e aceite o casamento.

— Faça isso, filho — insistiu sua mãe.

George se inclinou ligeiramente, seu olhar penetrante.

— As pessoas especularão sobre o ocorrido com Aitana, e o bom nome de nossa família será arrastado pela lama. Não podemos permitir que nossa honorabilidade, construída por gerações, seja posta em dúvida por um mero sentimentalismo, Eric. Este casamento é uma questão de honra e de imagem. Demonstrará ao mundo que, apesar da tragédia, os Harrington são inabaláveis, que honramos nossos pactos e que mantemos a estabilidade. É a única forma de silenciar os fofoqueiros e proteger nosso legado.

Eric ouviu cada uma delas, o peso da linhagem e da reputação esmagando-o. A fúria ainda borbulhava em seu interior, mas sob o gélido controle que seu sobrenome lhe havia incutido, a raiva se transformou em uma resignação amarga.

Com a mandíbula tensa e os punhos cerrados sob a mesa, Eric assentiu lentamente.

— De acordo — murmurou, sua voz mal um sussurro rouco. Não era uma aceitação de Bianca, mas uma claudicação ao dever.

George e Jackeline relaxaram visivelmente, uma tensão milenar abandonando seus ombros. A decisão estava tomada. O destino de Bianca Bellerose e o futuro dos Harrington estavam selados.

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  • 160 Fim

    O tempo voou e, apesar das circunstâncias, Bianca e Eric estavam muito emocionados com as mudanças em suas vidas. A ideia de viverem juntos os enchia de uma felicidade que não se podia medir. Eles se sentiam prontos para começar de novo e planejar um futuro em família. Eric, com o coração cheio de esperanças, havia escolhido um novo lugar para eles. Um lugar para começar do zero, longe do que uma vez haviam deixado pela metade. Os gêmeos, Olivia e Henry, eram os mais animados. Ambos olhavam para os pais com os olhos brilhantes.— O lugar para onde vamos tem um pátio enorme para brincar? — perguntaram.Eric e Bianca se olharam com um sorriso. Eles explicaram que havia muito espaço, que eles poderiam correr e fazer muitas coisas em seu novo lar. Bianca também estava ansiosa para conhecer o local. Naquele dia, Eric dirigiu cerca de uma hora e meia até chegarem a uma grande propriedade. Os portões se abriram e, quando entraram, Bianca não podia acreditar no que estava vendo. A propriedade

  • 159

    Dias depois, Eric estava em seu escritório, absorto nos planos de seu novo projeto. O design do complexo de edifícios se desdobrava em sua tela, um quebra-cabeça de linhas e ângulos que o absorvia por completo. Era sua forma de canalizar a ansiedade e a dor em algo produtivo, construindo um futuro que parecia tão sólido quanto o cimento.A porta se abriu de repente e apareceu sua secretária, Daniela Montero. Ela parecia preocupada, seu rosto pálido e seus ombros tensos.— Senhor Harrington — disse, sua voz era apenas um sussurro —, estão solicitando o senhor ao telefone.A formalidade em seu tom, que costumava ser tão alegre, indicou a Eric que algo não estava bem. Ele deixou o lápis sobre a mesa e pegou o telefone que ela lhe oferecia.— Sou o detetive Smith — disse uma voz grave do outro lado da linha. — Ligo para informá-lo que, com as provas que o senhor nos forneceu e a confissão dos homens que sequestraram a senhorita Bianca, há cinco anos e meio, conseguimos reunir provas sufic

  • 158

    Os dias no hospital tinham sido os mais longos na vida de Bianca. Ela sentia que o tempo havia parado, cada minuto uma eternidade longe dos seus filhos. Mas agora, finalmente, o momento da partida havia chegado. Eric empurrava a cadeira de rodas em que ela estava sentada, um gesto de amor e proteção. O ar fresco do exterior lhe deu as boas-vindas. A luz do sol pareceu um bálsamo em sua pele. O aroma de liberdade, de vida, encheu seus pulmões.No entanto, o rosto de Eric mudou drasticamente quando ele viu duas mulheres em seu caminho. Ali, ao lado de sua chefe Elara, estava Clara. Eric cumprimentou Elara, que, aliás, já estava ciente do seu relacionamento com Bianca. A mulher ainda estava surpresa, mais ainda ao saber que eles tinham filhos em comum. Por outro lado, Clara tinha os olhos cheios de lágrimas. Ela segurava um buquê de flores, que estendeu a Bianca.— Estou tão feliz em ver você recuperada — disse Clara, com a voz embargada pela emoção. — Estou tão contente que você possa v

  • 157

    Tatiana se sentou na cadeira de metal, a luz da lâmpada do teto refletindo na mesa de aço. A sala, com suas paredes cinzas e o ar frio, era um mundo distante do luxo e do conforto a que estava acostumada. Em frente a ela, dois detetives a observavam, seus rostos sérios e seus olhos avaliadores.— Senhorita Tatiana Russo, nós a prendemos sob suspeita de sequestro, agressão e tentativa de assassinato. Os homens que a ajudaram já confessaram. É melhor para a senhorita cooperar — disse o detetive, sua voz era tranquila, quase monótona.Tatiana soltou uma risada seca, um som tão frio quanto o quarto.— Não sei do que o senhor está falando. Eu não conheço esses homens. Eu não fiz nada. Isso deve ser um erro.O outro detetive se inclinou para frente, com os cotovelos sobre a mesa. Sua voz era mais dura.— Pare o show. Sabemos que a senhorita ordenou que levassem a senhorita Bianca. Que deu a ordem para torturá-la e depois a deixassem lá para morrer.Tatiana, inabalável, cruzou uma perna sobr

  • 156

    Eric arrastou uma cadeira e a colocou perto da cama, um ruído surdo que não lhe importou. Ele se jogou sobre ela, sem se importar com a hora, que já era madrugada, nem com o cansaço que sentia. O corredor do hospital, com sua luz fria e seu silêncio opressivo, era um mundo distante. Ali, na penumbra do quarto, só existia ela. A dor física que o havia consumido ao lutar parecia insignificante ao lado da dor emocional que lhe roía a alma.Ele pegou a mão de Bianca, sentindo sua pele fria e frágil. Apenas esse contato lhe dava força para continuar. Ele se sentia um fracasso. Havia chegado a tempo de salvá-la, sim, mas não para evitar que a ferissem. E muito menos para salvar seu filho, um filho que ele não soube que existia até que ele se fora para sempre. As lágrimas, que ele havia contido desde que o médico lhe deu a notícia, rolaram por suas bochechas.— Eu sinto muito, Bianca — sussurrou, com a voz embargada pela emoção. — Eu devia ter te protegido, eu devia ter feito melhor.Ele bei

  • 155

    Uma hora antes...Ele pegou o celular e, com as mãos firmes, discou o número da polícia.— Preciso que enviem uma patrulha e uma ambulância para a rua... Acho que há um sequestro em um armazém abandonado.Ele deu seu nome e desligou. Só então ele desceu do carro. Abriu o porta-luvas do carro e pegou sua arma de defesa pessoal. Sua mente estava clara. A porta do armazém estava entreaberta. Uma voz grave e um grito abafado se infiltraram. Era ela.A porta se abriu de repente com seu empurrão. O ar rançoso do interior, carregado de poeira e umidade, atingiu seu rosto. Seu olhar se fixou imediatamente em duas figuras corpulentas que se inclinavam sobre Bianca, caída no chão. Um medo frio e paralisante o atravessou.— Afastem-se dela! — gritou, sua voz era um trovão de pura ira.Os homens se viraram, surpresos. Um deles soltou uma risada zombeteira.— Ora, ora. Olhem quem temos aqui. O namorado da senhorita — disse, o escárnio em sua voz era palpável.Eric não respondeu. Não ia perder temp

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