Capítulo 26
Author: Kayla Sango
last update2025-12-27 06:32:41

— Você vai adorar o restaurante — Clara disse, apertando o passo. — É a sua cara.

— Minha cara de quando? — Eu perguntei. — De antes ou de depois de eu virar CLT?

Clara riu, aquele riso de quem não pode rir alto porque ainda está em horário comercial.

— De antes. Restaurante de rica. Você vai se sentir em casa.

Eu olhei para ela, atravessando a calçada com a minha pastinha fina na mão como se fosse um diploma falso.

— Eu só não estava acostumada a uma coisa — eu disse.

— O quê?

— Pagar.

Clara f
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  • Capítulo 129

    ~ MAREU ~O sorvete de limão siciliano parecia uma escolha responsável para alguém que precisava manter a dignidade numa segunda-feira. Azedinho, refrescante, discreto.Eu estava sentada no banco em frente à pracinha da escola da Olívia, olhando o portão como se aquilo fosse parte da minha função — o que, tecnicamente, era. Mas o que eu fazia de verdade era tentar não pensar no buquê no meu quarto. E não pensar no Logan me olhando quando eu recebi.O celular vibrou. Nome na tela: LOGAN NOVAK.Eu atendi antes de dar tempo do meu corpo decidir se tremia ou fingia.— Mareu — a voz dele veio baixa, controlada, com o tipo de paciência que já tinha passado pela raiva e agora estava no estágio “eu vou te processar emocionalmente”. — Quer me explicar por que eu deveria estar apresentando números ao conselho e, ao invés disso… eles estão assistindo Up — Altas Aventuras?Eu olhei para o sorvete na minha mão como se ele tivesse me traído.E, por um segundo, eu não consegui segurar.Uma risada es

  • Capítulo 128

    ~ LOGAN ~Era cedo quando cheguei no escritório. O tipo de cedo que, para eles, significava eficiência e, para mim, significava apenas que ninguém ali tinha tido a chance de estragar o dia ainda.Eu me sentei na ponta da mesa de reuniões, como sempre. Postura controlada, expressão neutra, a pasta de couro ao meu lado. Eu tinha passado a noite tentando convencer a mim mesmo de que eu era um homem racional e que a imagem de Mareu beijando outro homem do lado de fora da minha casa não era assunto para atravessar comigo para dentro de uma reunião de projeções trimestrais com o conselho.Eu estava perdendo essa discussão interna.Os gráficos já estavam na tela quando eu entrei, as barras coloridas subindo como se o mundo inteiro fosse um relatório. Os conselheiros conversavam em tons baixos, ajustando óculos, mexendo em papéis, com aquele ar de quem acredita sinceramente que decide o destino de países quando, na prática, decide apenas o destino do meu humor.Henrique estava à direita, com

  • Capítulo 127

    ~ MAREU ~Segunda-feira tem um talento especial: ela não pergunta se você está pronta. Ela só entra, acende as luzes da cozinha e exige produtividade como se eu não tivesse passado a noite anterior lembrando, com detalhes indecentes, de um banheiro caro demais e de um homem que não tinha o menor direito de me fazer perder a noção de bom senso.Eu estava de pé, tentando convencer meu corpo de que aquilo tinha sido só… um evento isolado. Um episódio fora da curva. Uma pane elétrica emocional. Eu me repetia isso enquanto servia o café da manhã da Olívia e enquanto a mini-executiva do meu coração se preparava pra aula com a calma de quem já tem uma reunião marcada com o destino.A diferença é que, naquele dia, ela estava com o tablet apoiado na bancada, assistindo alguma coisa decididamente infantil. Infantil do tipo “crianças normais com idade normal assistem” e não “documentário sobre a logística de um porto norueguês”. E isso, vindo da Olívia Novak, era muito suspeito.— Por que você e

  • Capítulo 126

    ~ MAREU ~— Logan, você me assustou! — eu disse, levando a mão ao peito como se isso fosse impedir meu coração de tentar fugir pela garganta. — Fica aí igual uma alma penada de galã de filme dos anos 40.Eu só percebi o que tinha dito depois. Porque ele estava mesmo daquele jeito: encostado no sofá, luz baixa, camisa ainda alinhada, aquele rosto sério e bonito demais pra ser usado como mobília de sala às onze da noite. E eu não precisava jogar elogio no ar como quem deixa comida no chão pra cachorro.Ele ergueu o olhar devagar. Parecia… tenso. Como se o corpo inteiro dele estivesse tentando ficar sentado enquanto a cabeça queria levantar e ir resolver alguma coisa. Preferencialmente invadindo a vida dos outros com um terno.— Seu encontro foi bom? — ele repetiu.A minha primeira reação foi ridícula: piscar, travar e olhar ao redor, só pra confirmar que eu tinha entrado na casa certa e não numa realidade paralela em que meu chefe fazia perguntas de namorado.— Eu… eu… — começou a sair

  • Capítulo 125

    ~ LOGAN ~A televisão estava ligada, o volume baixo, alguma coisa passando. Eu estava no sofá como se aquilo fosse descanso — postura correta, mãos relaxadas, cara de quem encerrou o domingo com normalidade.Por dentro, eu estava exatamente no oposto. Não inquieto como alguém ansioso. Inquieto como alguém que cometeu um erro estratégico e agora precisa conviver com a própria estupidez sem poder corrigi-la.Eu tinha inventado um compromisso só para justificar a hora extra da Mareu. A ideia, na minha cabeça, tinha sido limpa: evitar que ela saísse, evitar que eu tivesse que assistir a mulher que mora na minha casa e ocupa a minha cabeça indo ao encontro de outro homem.O problema com ideias “limpas” é que elas raramente sobrevivem ao mundo real.Depois de flagrar Mareu saindo com Rômulo eu peguei a pizza como se nada tivesse acontecido e subi para comer no quarto com Olívia enquanto ela me contava animada que ia costurar um vestido.Olívia, sem levantar o tom, decretou que “ainda cabia

  • Capítulo 124

    ~ MAREU ~Eu fiquei sentada na cama com o celular na mão como se ele fosse um objeto perigoso. Na tela, a mensagem do Rômulo:“Não consegui esperar a próxima vez. Estou no seu portão. Pode vir aqui?”Eu li duas vezes. Três. Quatro, só pra ter certeza de que o meu cérebro não tinha decidido inventar romance pra compensar o domingo.Meu primeiro impulso foi o impulso sensato — aquele que raramente ganha, mas eu sempre deixo ele tentar pelo menos uma vez.“Você não devia ter feito isso.”Aí eu pensei na continuação.“Já está tarde. É domingo. Amanhã eu trabalho cedo. Tenho uma criança de seis anos e meio que acorda como se o mundo fosse uma reunião que começa pontualmente às sete. Tenho um bebê de nove meses que não respeita horário nem hierarquia. E tenho um patrão com olhos verdes que não me deixa esquecer que eu sou… eu.”Ok. Essa parte eu não ia mandar. Primeiro porque era longa. Segundo porque era verdade demais.Eu respirei fundo e tentei ser a adulta responsável que Clara insiste

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