Capítulo 3
Author: Bárbara Monteiro
last update2025-07-22 06:34:49

Capítulo 3 – Regras, Café e Silêncios

A recepção da Monteiro Group era um reflexo do próprio dono: impecável, fria e intimidadora. O chão de mármore refletia as luzes frias do teto, e as paredes de vidro revelavam o movimento agitado da cidade lá fora. Eloise chegou às 7h45. O salto firme ecoava no saguão, mas seu coração, esse sim, vacilava.

Respirou fundo ao entrar no elevador. Estava vestida de forma elegante, mas sem exageros — saia lápis preta, blusa de seda branca, cabelo preso em um coque moderno. Não era uma bajuladora, mas sabia jogar com presença.

Ao chegar ao 21º andar, foi recebida por uma mulher magra, de óculos retangulares e expressão azeda.

— Senhorita Nogueira, certo? — disse a mulher, olhando-a de cima a baixo. — Sou Marisa, diretora de RH e… sua supervisora direta. Antes de entrar na sala do senhor Monteiro, precisa ser clara sobre algumas regras.

Eloise apenas assentiu com a cabeça. Marisa continuou:

— Evite assuntos pessoais. Ele odeia atrasos. Prefere silêncio durante os trajetos. Não faça perguntas além do necessário. E café… — ela se aproximou, como se fosse contar um segredo — …apenas preto, sem açúcar, sem erro.

— Entendido — respondeu Eloise, com um meio sorriso. — Eu gosto de homens exigentes.

Marisa arqueou a sobrancelha, sem humor.

— Boa sorte, você vai precisar.

A porta se abriu automaticamente, revelando o escritório. Augusto Monteiro estava de costas, encarando a vista da cidade. A postura rígida, as mãos nos bolsos da calça social. Um homem que parecia carregar o mundo — e fazer questão disso.

Eloise entrou sem hesitar.

— Bom dia, senhor Monteiro.

Ele virou o rosto lentamente, os olhos verdes cruzando com os dela. Frio, calculista… mas havia uma faísca ali. Algo contido, mas prestes a queimar.

— Está atrasada — disse ele.

— Cheguei às 7h45 — respondeu, firme.

Augusto se virou por completo, os olhos descendo lentamente por ela, analisando cada detalhe.

— Está bem. Sua mesa fica ao lado da minha sala, com um único objetivo: não ter que sair procurando você pela empresa. Receberá instruções diretas. Evite erros, senhorita Nogueira. Eles custam caro.

— Erros só existem onde há espaço para falhas — ela arqueou uma sobrancelha — Comigo, isso não vai acontecer. Serei sua sombra para garantir que tudo saia perfeito.

Ele não respondeu, apenas indicou a sua mesa na entrada da sua sala. O computador já estava ligado. Uma pilha de pastas organizadas esperava por ela.

Durante horas, o ambiente ficou mergulhado em um silêncio profissional, quebrado apenas pelo som das teclas, dos telefonemas e de uma ou outra ordem direta vinda dele.

Às 10h em ponto, ela se levantou.

— Vou buscar seu café.

Ele apenas assentiu.

Ao retornar, colocou a xícara sobre a mesa com precisão. Augusto pegou a xícara, bebeu um gole… e parou.

— Está… aceitável.

— Aceitável? — Ela riu baixo. — Isso é quase um elogio vindo do senhor.

Ele pousou a xícara e se inclinou para frente, os olhos fixos nos dela.

— Senhorita Nogueira… ainda não entendeu. Aqui não se vence pela ousadia. Se vence pela perfeição.

— E ousadia não é uma forma de perfeição?

Ele se levantou, dando a volta na mesa até ficar próximo dela.

— Você se acha esperta.

— Eu sou esperta.

O ar entre eles ficou carregado. Havia uma tensão invisível que se formava cada vez que se encaravam. Eloise sentiu. E ele também.

Mas antes que algo fosse dito, Marisa apareceu na porta.

— Senhor Monteiro, os documentos do Conselho estão aqui.

Augusto recuou um passo, retomando a postura distante.

— Pode deixá-los na minha mesa.

Eloise sentou-se novamente, controlando a respiração. O jogo tinha começado. Mas ela não era apenas uma peça. Sabia exatamente o que estava fazendo.

Naquela mesma manhã, quando foi até o banheiro, olhou-se no espelho e sussurrou para si mesma:

— Vai doer. Mas eu vou aguentar.

Mal sabia ela que aquele homem — com todos os seus traumas, sombras e regras — seria muito mais do que um chefe difícil.

Ele seria o maior risco da sua vida.

E talvez… o mais perigoso.

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Reader Comments

estou gostando desse início de série, parecer ser pertubador

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