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Capítulo 4 -  A Beleza que Me Aprisiona
Author: Annanda
last update2025-12-11 20:26:46

Elena Rossi

O som dos saltos de Lara ecoava no corredor como um metrônomo de controle. Cada passo dela era firme, enquanto os meus pareciam tropeçar no próprio medo. O ar dentro do iate tinha um cheiro difícil de descrever, uma mistura de couro, uísque e maresia.

Eu me sentia fora do meu corpo, como se apenas o som dos saltos me mantivesse em movimento. A cada curva do corredor, minha mente tentava fugir para outro lugar, qualquer lugar onde a respiração não doesse tanto.

Mas o medo tinha forma, e ele andava atrás de mim.

— Por aqui. — disse Lara, cortando meus pensamentos.

Ela abriu uma porta e fez sinal para que eu entrasse. O quarto era deslumbrante e isso, por algum motivo, me fez sentir pior.

As paredes eram revestidas de madeira clara, as janelas panorâmicas se abriam para um mar escuro e infinito. No centro, uma cama enorme, coberta por lençóis de linho branco que pareciam novos demais para serem tocados. Um vaso de lírios descansava na mesa de cabeceira, exalando um perfume doce e frio.

— Este será o seu quarto durante a viagem. — disse Lara, ajeitando a cortina com precisão. — O senhor Cavallari gosta que seus convidados tenham conforto.

“Convidados.”

A palavra soou quase como ironia.

Coloquei minha bolsa no chão, sem coragem de ir além.

O reflexo no espelho diante da cama mostrou uma versão de mim que eu mal reconhecia,  os cabelos desgrenhados, o olhar vazio, os ombros tensos. A mulher que me olhava de volta parecia à beira de um abismo que não sabia onde terminava.

— Há um closet ali. — continuou Lara, abrindo uma porta lateral. — As roupas foram separadas de acordo com as instruções do senhor Cavallari.

“Instruções.”

Aquela palavra me causou um arrepio.

Segui-a em silêncio. O closet era maior do que todo o apartamento onde eu costumava viver. Vestidos pendiam de cabides de veludo, seda, cetim, renda. Tons neutros, elegantes. Branco, preto, vinho, dourado.

Um móvel inteiro exibia sapatos organizados por altura e cor. Saltos finos, sandálias delicadas, botas de couro. Tudo escolhido com cuidado quase cirúrgico, como se alguém tivesse estudado cada milímetro do meu corpo antes de decidir o que eu vestiria.

Então vi.

Na prateleira de vidro, dobradas com perfeição, as lingeries. Rendas finas, quase transparentes, brancas, pretas, e  vermelhas. Pequenas demais, caras demais. O tipo de coisa que não parecia feito para ser vestida, mas exibida.

Senti o rosto queimar e o ar me faltou. Porque de repente me lembrei o que tinha acabado de vender e cedo ou tarde eu estaria nos braços do meu comprador. Será que ele seria gentil? Ou apenas um homem que ansiasse por um sexo intenso e selvagem? Nada disso importava, já era tarde demais.

Lara notou. Claro que notou. Virou-se lentamente, curvando os lábios em algo que não era exatamente um sorriso.

— São todas novas. O senhor Cavallari prefere qualidade.

— Eu... — tentei dizer algo, mas a voz falhou. — Eu não pedi isso.

— Ele também não perguntou. — respondeu com naturalidade. — Você faz parte do acordo, Elena. E o acordo inclui o que ele decidir fornecer.

A palavra pertencer me atravessou como uma lâmina.

Afastei o olhar, tentando respirar. Fingir que aquelas peças não existiam. Fingir que o toque do tecido fino nas minhas mãos não me deixava desconcertada. Mas não era só vergonha. Era a sensação de estar sendo moldada, preparada.

— Há perfumes na penteadeira. — continuou ela, impassível. — Todos franceses. Alguns escolhidos pessoalmente pelo senhor Cavallari.

Olhei para os frascos de vidro cristalino, alinhados sob a luz dourada. Chanel, Dior, Amouage. Toquei um deles e o cheiro de jasmim se espalhou. Era bonito... e ao mesmo tempo, cruel.

— Isso tudo é... demais. — murmurei. — Eu não sei o que ele espera.

Lara me lançou um olhar contido.

— O senhor Cavallari não é um homem que explica o que quer. Ele observa, mede, decide.

Por um instante, o ar prendeu na minha garganta. Lara percebendo a minha hesitação, se aproximou um pouco mais.

— E o que ele decidiu sobre mim? — perguntei, sem conseguir conter o tremor.

Lara hesitou por um segundo e, naquele instante, percebi algo nos olhos dela. Um lampejo quase humano.

— Que você o intriga. — respondeu, enfim. — E isso pode ser uma bênção... ou uma maldição, dependendo de como se comporta.

Voltei para o centro do quarto, incapaz de permanecer no closet sufocante. As janelas deixavam entrar o brilho prateado do luar sobre o mar. O som das ondas era constante, quase hipnótico.

Lara ajeitou o blazer.

— Ele pediu que descanse o resto do dia. — disse. — Mais tarde, o senhor Cavallari deseja vê-la novamente. Vista-se adequadamente.

Engoli o nó na garganta.

— E o que seria “adequadamente”?

— Em breve saberá. — respondeu, mas antes dela sair resolvi perguntar:

— Você conhece a mulher do perfume de jasmim? — perguntei.

 Lara mediu as palavras como pinos.

— Eu conheço a consequência.

A porta se fechou com um clique suave e  o silêncio voltou.

Fiquei ali, parada.

O quarto era bonito, confortável... mas havia algo que me oprimia. Tudo era simétrico demais, calculado demais, como se a beleza fosse apenas outro tipo de prisão.

Sentei-me na beira da cama sentindo o lençol frio contra a minha pele. Olhei para o mar lá fora, o horizonte imóvel, e, só então, as perguntas vieram, as que eu havia engolido durante todo o tempo.

Será que ela estava bem?

Será que alguma coisa havia mudado?

Será que alguém lembrava de ajustar o travesseiro dela, de molhar os lábios, de chamá-la pelo apelido carinhoso que só eu usava?

 Será que ainda tinha tempo?

A saudade apertou tanto que minhas mãos se moveram antes da razão.

Peguei o celular dentro da bolsa, ainda havia bateria. Minhas unhas tremiam quando procurei o contato.

Madrinha Lúcia.

A ligação chamou uma vez, duas, três.

— Elena? — a voz dela veio rápida, aflita. — Meu Deus, menina… onde você está? O hospital ligou dizendo que você saiu tarde ontem, está tudo bem? Você está chorando?

Não percebi que estava.

Engoli o choro e falei com a voz mais firme que consegui construir naquele abismo:

— Madrinha… preciso que você vá ao hospital. Preciso que fique com a Sofia por cinco dias.

— Cinco dias? — a voz dela subiu. — Elena, o que está acontecendo? Você sabe que eu vou, mas… cinco dias? Você não pode simplesmente sumir agora. Sua irmã precisa de você!

Fechei os olhos, sentindo o peito abrir uma ferida.

— Eu sei. — sussurrei. — É justamente por isso que estou pedindo.

Houve silêncio do outro lado. Depois:

— Elena, me diga onde você está. O que está fazendo, não faça nada imprud…

— Madrinha… — interrompi, com a voz falhando. — Confia em mim.

Ela respirou fundo, longa e dolorosamente.

— Eu confio. — respondeu, enfim. — Mas isso… isso está me assustando.

— Vai passar. — menti. — Só… só cuida dela. Por mim.

— Eu cuido. — disse ela. — Vai ficar tudo bem?

Olhei para o mar escuro e por um momento ouvi a voz de Damian e menti de novo.

— Vai sim.

Desliguei antes que ela ouvisse meu desespero.

Meu peito apertou e a culpa voltou com força. O que eu havia feito?

Deitei-me sem trocar de roupa, mas o sono não veio. O quarto era lindo, mas a beleza ali não me pertencia. No escuro, o silêncio parecia observar.

E então eu vi, mesmo de olhos fechados, os olhos de Damian Cavallari. Friamente atentos, precisos, como se cada gesto meu fosse uma resposta que ele esperava.

E percebi, com um medo que gelou até a alma, que aquele homem não precisava me tocar para me despir. Sob aquele olhar, algo em mim se desfazia. Pedaço por pedaço, eu deixava de ser eu.

E naquele instante, percebi que o verdadeiro contrato ainda nem tinha começado.

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