Home / All / Predador: Presa em minhas garras / Capítulo 2: Faço tudo por você
Capítulo 2: Faço tudo por você
Author: Evy
last update2025-07-31 08:50:36

Um ano depois

A porta do prédio rangeu quando Melia entrou, segurando a sacola de compras contra o peito. Seus passos ecoaram pelo corredor mofado e, por um momento, ela ficou feliz por finalmente estar em casa, mas a felicidade logo se foi assim que viu uma figura bloqueando a passagem.

Era um homem grande, fedendo a cerveja velha e cigarro. Tinha uma barba mal feita, a camisa encardida e um o sorriso nojento.

— Aí, garota… Cadê a mamãe? Faz dias que não aparece. Os caras estão com saudade do serviço dela.

Melia apertou a sacola contra o corpo, sentindo o estômago se revirar.

— Ela tá doente — respondeu baixo, sem olhar para ele.

— Doente? — o lobo riu, inclinando-se para frente, a barriga grande quase roçando nela. — Uma pena. Você podia ocupar o lugar dela, tá na idade, né? Bonitinha assim…

O coração da garota quase pulou para fora do peito.

— Sai da frente. — A voz saiu trêmula, mas firme.

As mãos dele se ergueram enquanto sorria malicioso.

— Você sabe como é aqui, menina. Renegada que não abre as pernas passa fome.

— Sai. Da. Frente. — repetiu, o olhar firme apesar das lágrimas queimando nos olhos.

Ele resmungou algo sobre ômegas frescas e se afastou, desistindo, ao menos por enquanto. Melia entrou no apartamento correndo, trancando a porta com as mãos trêmulas, encostando-se na madeira velha e segurando o choro.

O lugar cheirava a mofo e ervas secas. A tinta descascava das paredes, o piso rangia sob seus pés enquanto atravessava o corredor até o quarto da mãe.

Selene estava deitada no colchão fino, coberta com o lençol mais limpo que tinham. Estava magra, as cicatrizes feitas por Van Smail ainda estavam ali, profundas apodrecendo lentamente seu rosto e um de seus olhos dourados agora estava completamente negro e oidre. Sua respiração era dificil, Selene parecia prestes a partir, e talvez realmente estivesse.

— Mamãe… — Melia largou a sacola na cadeira ao lado da cama. — Trouxe sopa, e a moça do mercado me deu um chá de raízes, ela disse que pode te ajudar…

Selene deu um sorriso fraco.

— Você tá crescendo tão rápido… Queria poder te ver fazer dezoito. Te ver livre disso tudo. Eu tentei, minha menina.

— Você vai ver. Vou dar um jeito, levo você num médico na parte alta da cidade, compro remédios melhores. Eu prometo.

— Não, meu bem. — Selene sussurrou, a voz quase sumindo. — Não quero que se sacrifique, você precisa viver sua vida e…

A loba não conseguiu terminar, começando a tossir, gotas de sangue espirrando de seus lábios enquanto ela apoiava a mão no peito. Melia respirou fundo, segurando o choro, abraçando a mãe e fazendo carinho em suas costas até a tosse passar. Deu sopa a ela com todo cuidado do mundo, depois acariciou seus cabelos até ela adormecer. Ficou ali, observando o peito da mãe subir e descer com dificuldade, cada respiração mais frágil que a anterior.

“Vou dar um jeito, mamãe”, sussurrou, determinada.

Pegou o casaco surrado e saiu em silêncio, subindo as escadas úmidas do prédio até o nono andar. Parou diante da porta 541 e bateu forte. Alguns segundos depois, a porta se abriu. Um rosto cansado, os olhos marcados por olheiras, mas traços muito bonitos surgiu do outro lado.

— O que você tá fazendo aqui, garota? — Juno, melhor amiga de Melia, a puxou bem rápido para dentro.

Melia entrou, parando no meio da pequena sala que apesar de velha, tinha cheirinho de limpeza. No sofá, a menina percebeu uma lingerie e uma máscara de tigresa jogadas de lado.

— Eu preciso ir à Fera Dourada — disse de uma vez, firme, mesmo com o nó na garganta.

O nome da boate parecia pesar até o ar, e a outra arregalou os olhos, engolindo em seco.

— Você tá louca? Sua mãe sabe disso?

— Não. E não pode saber.

Juno passou a mão pelos cabelos lisos e escuros, andando de um lado para outro.

— Você tem noção do que tá falando? Nunca fez isso, Melia, não sabe como…

Sabia que a amiga estava certa, ela nunca nem encostou num homem na vida, mas estava disposta a se sacrificar por sua mãe.

— Eu preciso, Juno, não tem outro jeito!

— Por quê?

— Porque a minha mãe vai morrer se eu não fizer nada. Ela tá cada dia pior, ta morrendo, Juno, e eu vou salvar ela, nem que seja a última coisa que eu faça!

***

Em Noctgard, a escuridão vinha cedo: ruas estreitas, cheirando a lixo, iluminadas apenas por pilhas de lixo sendo queimadas.

Juno deixou seu irmão dormindo, coberto por um velho cobertor que tinham, então saiu com a amiga, trancou a porta e guardou a chave no sutiã.

— Pronta? — perguntou, segurando uma bolsinha preta.

— Pronta.

O vestido de Melia era leve, amarelo desbotado, quase inocente demais para onde ia. Do lado de fora, um carro preto esperava, chique demais para aquele lugar. As duas entraram sem pensar muito, encontrando as outras meninas que já estavam ali todas olhando para Melia com olhares tristes

— Sinto muito, menina — disse uma delas, e todas sentiam.

Era o sonho de qualquer renegada não precisar se render aquela vida, mas, no fim, acabavam sem opções. Todas a entendiam, elas partilhavam da mesma dor ali, naquele carro chique cheirando a perfume caro.

O carro avançou pela cidade. Dos becos pobres, passou-se às ruas limpas do centro, vitrines reluzentes exibindo roupas inalcançáveis. Até que parou diante de um castelo moderno: a boate Fera Dourada. Portões altos, fachada vermelha e dourada, com um grande brasão de uma garra de lobo e uma rosa vermelha.

Juno puxou Melia pelos fundos, entrando num corredor estreito e depois um vestiário imenso.

— Vem — disse Juno, levando-a até uma porta com uma placa escrito “Administração.”

Com apenas uma batida, a porta se abriu, revelando uma loira alta, de saltos e seios grandes, sorriso de predadora.

— Essa é a novata?

— É Melia, filha da Selene — respondeu Juno.

Os olhos da mulher brilharam com interesse.

— A filha da Selene… interessante. Entra, querida.

Corin se acomodou na poltrona vermelha atrás da mesa escura, cruzando as pernas, o olhar afiado percorreu Melia como quem avalia uma mercadoria rara, observando a cintura fina, as coxas grossas…

— Você tem um corpo perfeito pra isso. Os clientes vão enlouquecer!

Melia apertou o tecido do vestido, as pernas tremendo. O coração batia alto, mas ela se forçou a encarar.

— Eu… eu preciso do trabalho, mas só quero dançar.

Corin fechou a cara na mesma hora.

— Só dançar? Por quê? Vai ganhar muito mais se fizer programa.

— Porque eu nunca estive com homem nenhum — disse, a voz quase sumindo pela vergonha. — Quero me guardar para o meu companheiro.

Os olhos de Corin primeiro se arregalaram, depois estreitaram-se, faiscando interesse. Uma renegada virgem, bonita daquele jeito… aquilo era ouro.

— Que sonho bonito… — murmurou, agora com voz doce. — Tudo bem, querida. Você pode apenas dançar. — O sorriso voltou ao rosto de Corin, calculado. — Vai começar hoje mesmo.

Ela se ergueu com elegância teatral e foi até um armário espelhado. Abriu as portas revelando uma coleção de máscaras cravejadas de pedras, cada uma mais extravagante que a outra.

— Todas usam máscaras. Preservam a identidade, dão um ar de mistério. Aqui, todas as meninas viram algo novo!

Pegou uma máscara de couro branco, com detalhes em renda e orelhas longas.

— Essa é perfeita pra você. — Aproximou-se, erguendo a peça diante da garota. — A partir de hoje, será a Bunny.

Melia engoliu em seco e murmurou:

— Tá bem…

— Ótimo. Agora vá ao camarim, escolha uma lingerie bonita e se prepare. — O sorriso de Corin era pura malicia. — Hoje à noite, você vai ser a estrela, coelhinha.

***

Enquanto isso, no saguão da Fera Dourada, o som das risadas desapareceu quando cinco lobos atravessaram a entrada. Ternos caros, correntes de prata discretas, mas todos marcados com a mesma tatuagem no braço esquerdo: a cabeça de um lobo de presas prateadas, envolto em traços tribais.

No centro, ele.

O alfa Killer Knight.

Passos firmes, corpo musculoso, pele bronzeada e um olhar que parecia desprezar tudo ao redor..

— Boa noite, senhor Knight — murmurou o segurança, curvando-se.

Killer apenas assentiu, não precisava falar ou ser gentil. A boate era sua, mais uma joia do seu império.

Atrás dele, Trash, seu beta, analisava cada canto. O ar cheirava a cigarro, suor e o perfume doce das ômegas, nada fora do normal.

O alfa parou, seu corpo ficou tenso e ele inclinou a cabeça oara cima, inspirando com força..

Havia algo ali… Um cheiro doce quase sumindo entre todos os outros mas ao mesmo tempo marcante para ele.

— Tudo bem, alfa? — Trash perguntou em voz baixa.

O alfa fechou os olhos, respirou fundo, mas o cheiro pareceu sumir num piscar de olhos engolido por todos os outros.

— Tudo — respondeu frio, retomando o passo até a mesa mais próxima do palco.

Trash não questionou, sabia que, quando Killer decidia se fechar nada o fazia mudar de ideia.

Mas Killer sentia que algo não estava certo… Como se os fios invisíveis do destino, ou da movimentação da deusa da lua, finalmente tivessem voltado a se mover, tecendo e unindo os caminhos de seus escolhidos.

Continue to read this book for free
Scan the code to download the app

Latest Chapter

  • Capítulo 187: Nos vamos resolver isso

    A madrugada se espalhava pela mansão como um manto pesado, abafando sons, distorcendo sombras, tornando tudo mais perigoso do que durante o dia. O quarto de Ilana estava mergulhado numa penumbra quase completa, iluminado apenas pela luz pálida da lua que entrava pela janela alta. O silêncio ali dentro não era tranquilo, era tenso, carregado, impregnado de medo.Misty dormia no chão.O corpo estava encolhido sobre um cobertor fino demais para proteger do frio, ao lado de Paola e Elia, que respiravam de forma irregular, exaustas demais para manter qualquer postura de alerta. Nenhuma das três ousara sequer sugerir ocupar a cama, o lugar delas estava claro desde o momento em que a porta daquele quarto se fechara horas antes.O rosto de Misty ainda ardia.Cada batida do coração fazia o lábio inchado pulsar, o maxilar doer, e os pequenos cortes internos lembravam, a cada movimento da língua, o gosto metálico que insistia em não desaparecer. O corpo inteiro doía, mas o cansaço venceu o medo

  • Capítulo 186: Vocês são lixo

    A porta do quarto se fechou com violência assim que entraram.O impacto foi seco, alto, fazendo as três estremecerem ao mesmo tempo, as mãos apertando umas às outras. Sabiam o que viria, apesar de torcerem para ser diferente naquela noite. — De joelhos — ordenou Ilana, sem elevar a voz, o tom frio demais para permitir qualquer esperança de piedade.As pernas de Misty falharam primeiro, Paola e Elia desceram quase ao mesmo tempo, os joelhos batendo no tapete macio com um som abafado que contrastava cruelmente com a dureza da ordem. O medo agora não era mais contido. Estava escancarado, tremendo nos corpos, no choro preso, na respiração curta.Ilana começou a andar pelo quarto.Os passos eram lentos, calculados, o salto batendo no chão como um marcador de tempo. Caminhava em círculos ao redor das três, observando-as de cima, como quem avalia algo quebrado, algo que precisa ser corrigido. Passou pela porta trancando-a para que ninguém a atrapalhasse, então voltou para as três garotas.—

  • O jantar - parte 2

    As três se entreolharam rapidamente, olhos arregalados, confusas demais para reagir de imediato. Paola chegou a abrir a boca, mas o som morreu antes dela falar qualquer coisa, Elia apertou os dedos com força no tecido do vestido e Misty sentiu o estômago se contrair.Ilana sorriu antes que qualquer uma pudesse responder.— Não é necessário — disse com um tom leve, quase risonho. — Elas comem depois sempre, estão só um pouco tímidas.Melia ergueu o olhar devagar, encontrando o de Ilana com calma calculada.— Na minha alcateia — respondeu, sem elevar a voz — todos se sentam à mesa. Não existe “depois” quando se trata de uma refeição compartilhada.As três jovens tentaram negar ao mesmo tempo, as vozes baixas, inseguras, quase um sussurro atropelado.— Não precisa… — A gente está bem assim… — Podemos esperar…— Não — interrompeu Melia, agora com um tom que não deixava espaço para discussão, afinal, ela era a luna ali. — Sentem-se.O comando da Luna ecoou pelo salão com um peso impossív

  • Capítulo 185: O jantar - parte 1

    A noite caiu lentamente sobre a alcateia, trazendo consigo um silêncio diferente, denso, carregado de expectativa. As luzes da mansão principal foram acesas uma a uma, iluminando corredores largos e salões que testemunharam gerações de alfas, lutas, pactos e decisões que moldaram o destino da Dentes de Prata. O jantar daquela noite não era apenas uma refeição, era um gesto político, um ritual social, uma forma de mostrar união diante dos visitantes.Noah passou o dia inteiro inquieto.Desde o momento em que deixara Ilana sozinha no meio da manhã, a imagem de Misty não saíra da cabeça. Procurou discretamente pelos corredores, pelos jardins, pelas áreas de serviço, perguntando a guardas e empregados se tinham visto alguma das meninas que acompanhavam a comitiva. Recebeu apenas respostas vagas, ninguém havia visto nenhuma das três empregadas, nem no almoço, nem em nenhum momento do dia, era como se elas estivessem se escondendo.Quando o chamado para o jantar ecoou pela mansão, Noah já e

  • Capítulo 184: Sua verdadeira face

    Enquanto isso, Ilana continuava caminhando ao lado de Noah pela alcateia, insistindo em comentários leves e toques sutis no braço dele, aproximando-se sempre que encontrava oportunidade. Falava sobre como sempre imaginara o futuro alfa da Dentes de Prata como alguém forte, imponente, o tom era claramente sedutor.Mas Noah mal ouvia.A mente estava presa na imagem de Misty, no medo dela, na frase dita por Ilana: “as meninas estão aqui para me servir”.Algo não fazia sentido.Seu lobo estava agitado e ele precisava descobrir o porquê.— Você está me ouvindo? — perguntou Ilana, forçando um sorriso.— Claro — respondeu Noah, mas a resposta soou vazia.Ela parou de andar por um instante, cruzando os braços.— Parece distante, tem algo errado? Fiz algo que você não gostou?Noah respirou fundo.— Preciso resolver algo — disse. — Podemos continuar depois, certo? Tenho que ir. Ilana franziu o cenho.— Agora? Achei que passaríamos o dia juntos, não pode deixar pra resolver seja lá o que for de

  • Capítulo 183: Algo está errado

    — Noah, você poderia me mostrar a alcateia? — Ilana perguntou, com voz doce, e só então Noah voltou a si. — Claro, seria um prazer — respondeu quase no automático, e Ilana enrolou o braço no dele sem pedir permissão, começando a andar como se fossem um casal apaixonado. O sorriso de Ilana era perfeito demais para ser inocente, ele conhecia aquele tipo de sorriso.Ela caminhava ao lado de Noah com passos calculados, o vestido elegante se movendo com graça ensaiada, os cabelos brilhando sob a luz suave da manhã enquanto fazia comentários leves sobre a arquitetura da mansão e a imponência do território. A voz saía doce, modulada, treinada para seduzir e impressionar, mas os olhos avaliavam tudo ao redor como alguém que avalia algo que está prestes a possuir.— Sua alcateia é linda, sabia? — disse, aproximando-se um pouco mais, o ombro quase colado ao dele. — Sempre ouvi falar da força da Dentes de Prata… mas nunca imaginei que fosse tão… imponente.A palavra veio carregada de intenção.

More Chapter
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on MegaNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
Scan code to read on App