All Chapters of Caminho Traçado - Uma babá na fazenda : Chapter 231
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Brincadeira sem graça
Quando foi para a sala, o coração ainda batia acelerado no peito, encontrou os pais e a irmã já à sua espera. Sentiu todos os olhares se voltarem para ela de uma vez, atentos demais, como se enxergassem algo que ela tentava esconder.— Bom dia — saudou, tentando sorrir com naturalidade.Mas ninguém respondeu nada.— O que foi, gente?Os três continuaram a encará-la por alguns segundos, como se estivessem decifrando algo.— Você não conseguiu dormir direito essa noite? — Denise perguntou, se aproximando com o olhar atento.— Por que está perguntando isso? — Ela retrucou, engolindo em seco.— Seus olhos, querida… estão vermelhos, fundos. Parecem cansados — disse a mãe, tocando levemente seu rosto.— Sério? — tentou rir, mas soou forçado.— Estão mesmo. — Elisa se aproximou, franzindo o cenho enquanto a observava com mais atenção. — E você está… diferente hoje.Começou a andar ao redor da irmã, como quem procurava pistas. O olhar curioso se misturava a uma pontinha de provocação.— Elisa
Hora de recomeçar
O veículo mergulhou num silêncio. Apenas o som da respiração descompassada de Eloá preencheu o espaço abafado.— Filha? — Denise quebrou o silêncio com cautela, um pouco hesitante, seus lábios ainda entreabertos revelavam a surpresa que sentia. — A gente estava só brincando.Sem conseguir encarar ninguém, Eloá manteve o olhar fixo na estrada.— Só… parem, por favor — pediu, agora com a voz mais baixa, quase sussurrando. — Eu só quero chegar logo no aeroporto.Saulo assentiu, encarando o retrovisor com uma expressão mais séria. Na cabeça dele, tudo aquilo era apenas resultado do estresse da viagem e da despedida iminente.— Tudo bem, querida, já estamos quase chegando — disse, tentando soar tranquilo.Ele retomou a direção e o carro voltou a seguir em frente.Nenhum outro som se ouviu além do ronco do motor. O silêncio voltou, agora ainda mais pesado. Enquanto Eloá fechou os olhos por alguns segundos, como se quisesse desaparecer ali mesmo.No banco de trás, Elisa continuava observando
Silêncio à mesa
Enquanto mastigava lentamente à mesa, Oliver não conseguia deixar de reparar no silêncio que pairava no ambiente. O barulho dos talheres batendo nos pratos era a única trilha sonora daquele almoço e isso o incomodava profundamente. Seus olhos alternavam entre os filhos, principalmente os gêmeos, que não haviam trocado uma única palavra desde que chegaram da rua.— Mas o que diabos está acontecendo? — questionou, com um tom mais ríspido do que gostaria, largando os talheres no prato com tanta força que o barulho metálico ecoou pela sala. Aurora se sobressaltou, tossindo de leve ao engasgar-se com um pedaço de carne.— Me perdoe, querida — disse Oliver, levando a mão ao braço dela, com expressão aflita. — Eu não queria te assustar.— Está tudo bem, amor — ela respondeu, esforçando-se para sorrir enquanto bebia um gole de suco. — Só me pegou de surpresa.Oliver assentiu e voltou o olhar para os filhos, agora mais firme.— É que os meninos estão tão quietos que estou começando a me preocu
É melhor assim
Enquanto caminhava em direção ao seu quarto, Henri passou em frente ao de Gael. Pensou em seguir reto, fingir que nada estava errado… mas os passos vacilaram. Respirou fundo, como se aquilo fosse lhe custar um esforço absurdo, e então bateu na porta.— Vai embora! — ouviu a voz abafada do irmão do outro lado.Ele cerrou os olhos por um segundo, ponderando se devia insistir ou não. No fundo, sabia que talvez devesse deixar para lá. Mas alguma coisa mais forte o empurrou. Girou a maçaneta devagar e empurrou a porta, entrando.Gael estava sentado diante da escrivaninha, mexendo no computador, com o olhar fixo na tela, embora não parecesse enxergar nada do que estava ali.— Você está bem, cara? — Henri perguntou, ficando de pé, encostado na porta semiaberta.— Já disse que sim — Gael respondeu, sem virar o rosto.— Se quiser conversar, sabe que pode contar comigo.— Valeu, mas eu não quero conversar, não.— Tudo bem… — murmurou, dando um passo mais para dentro. Ficou em silêncio por um in
Colega de quarto
A chegada aos Estados Unidos foi silenciosa. Depois de um voo cansativo, Saulo apenas quis encontrar o hotel e permitir que a filha descansasse. Ainda era difícil para ele entender o que se passava com Eloá. Desde que deixaram a casa dos avós, a menina parecia mais introspectiva do que nunca; não que isso fosse incomum antes das viagens longas, mas havia algo diferente agora. Ela sorria pouco, falava menos ainda. No fundo, ele suspeitava que algo havia ficado para trás, mas decidiu não forçar conversas. Cada um tinha seu tempo, pensou.No dia seguinte, após o café da manhã no saguão do hotel, seguiram para a universidade. O campus era amplo, moderno, com prédios envidraçados que refletiam o céu azul de outono. De mochila nos ombros e olhos um pouco cansados, Eloá observava tudo ao redor com um misto de receio e encantamento.Desceram do táxi, sendo recebidos por uma mulher simpática, de sorriso largo e cabelos presos em um coque despojado. Vestia jeans, tênis e um crachá pendurado no
Preciso seguir em frente
— Eu não deixei ninguém especial — respondeu, afastando o olhar do celular, com um leve suspiro, tentando não demonstrar o quanto aquilo a afetava.— Ah, isso é bom, de certa forma. Assim, você não fica remoendo o que deixou para trás — comentou Tess, com um sorriso.— É... você tem razão.— Quando eu vim para cá, fiquei por semanas me perguntando se estava fazendo a coisa certa. Mas o meu namorado me apoiou tanto, sabe? Foi por ele também que vim. Ele me disse: “Vai, brilha. Eu espero.” — Tess sorriu, com os olhos cheios de brilho e orgulho.— Que sorte a sua ter alguém que te impulsione assim.— Sim, é muito bom — respondeu, com sinceridade.Eloá apenas assentiu, mas dentro de si, as palavras da colega pareciam reverberar como um eco incômodo. Ela não havia deixado para trás um amor que a esperava com flores nas mãos. Pelo contrário. Deixou seu lado vulnerável e cicatrizes mal curadas, que não cabiam na mala.Terminou de guardar as roupas dobradas com cuidado e, junto com Tess, saiu
A mãe conhece seus filhos
Alguns dias depois…A ausência da filha mais nova já começava a ecoar pela casa. A saudade se intensificava durante a semana, especialmente quando a mais velha também estava fora, estudando na capital. O silêncio da casa, antes preenchido pelas vozes e risadas das meninas, era quase ensurdecedor.Denise, tentando ocupar a mente, organizava o guarda-roupa do quarto quase pronto para os bebês. Dobrava cuidadosamente algumas fraldas bordadas com os nomes Erik e Eduardo, escolhidos com carinho ao lado do marido.Foi então que o celular vibrou com uma notificação.“Podemos conversar agora?” — era uma mensagem de Aurora.Ela respondeu que sim e, sem pensar muito, pegou as chaves do carro. A casa da amiga ficava bem perto, mas planejava sair um pouco depois da conversa que teria com Aurora.Ao chegar, encontrou Aurora na varanda. Ela sorria com um brilho no olhar difícil de disfarçar, como se estivesse prestes a transbordar uma novidade.— O que aconteceu? — Denise perguntou, se aproximando,
No fundo, já sei
Enquanto isso, nos Estados Unidos, Eloá se afundava nos estudos como se aquela fosse sua única missão no mundo. Toda vez que sua mente insistia em voltar para a Vila São Caetano — ou pior, para Henri — ela pegava mais um livro de economia. Era assim que ela lidava: ocupando a mente até esvaziar o coração. E, entre leituras e anotações, os meses começaram a passar.Toda semana, separava um tempinho para falar com a família. Conversava com o pai, com a mãe e claro, com Elisa, a quem já havia deixado claro que o nome de Henri estava proibido de ser citado.— Essa semana a faculdade foi um saco — reclamava Elisa durante uma chamada de vídeo pelo WhatsApp. — Estou em semana de provas e nem consegui ver o Noah.— Por aqui não tem sido diferente. Eu sempre me achei inteligente, mas tem coisa que parece impossível de entender — desabafou Eloá, ajeitando os livros sobre a cama.— Você vai dar conta, eu sei que vai.— E por aí? A mamãe já está reclamando da barriga enorme?— Ainda não. Ela e a
Um nova responsabilidade
Após mais uma aula densa sobre macroeconomia internacional, Eloá deixou a sala com passos incertos. Sentia-se estranhamente fraca, como se o chão não estivesse firme sob seus pés. Procurava um lugar mais tranquilo para sentar e recuperar o fôlego, longe do burburinho dos corredores. Mas, ao dobrar um dos corredores, deu de cara com Brook.— Eloá, está se sentindo bem? — a orientadora perguntou, preocupada ao notar o quanto a jovem estava pálida.— Sim, claro — respondeu, forçando um sorriso. Mas sua voz não convenceu. No instante seguinte, sentiu o mundo girar mais uma vez e precisou se apoiar na parede.— Meu Deus, você não parece nada bem — disse Brook, já se aproximando para ampará-la.— Só estou me sentindo um pouco enjoada — confessou, respirando com dificuldade.— E isso tem acontecido com frequência?— Já tem alguns meses… — revelou, hesitante.— Vamos agora mesmo para a enfermaria.Antes que Eloá pudesse protestar, foi praticamente conduzida por Brook pelos corredores, tentand
Revelação
Na região da fazenda São Caetano, o clima era de festa. O primeiro dia da tradicional feira agropecuária havia chegado, trazendo consigo uma onda de visitantes. Os hotéis recém-construídos na vila estavam lotados, e a movimentação na feirinha artesanal era intensa. A cada ano, o evento ganhava mais notoriedade, atraindo olhares de diversas partes do país.— Eu ainda não acredito que o Oliver me convenceu a cancelar o chá revelação para fazê-lo na abertura dos festejos — reclamava Aurora, nervosa, enquanto tentava vestir um corpete comprado meses antes.— Por que não escolhe outro? Esse aí já não cabe mais — sugeriu Denise, observando a luta da amiga com o zíper do corpete jeans.— Mas esse é tão lindo… — murmurou, ainda insistindo, até que o zíper estourou de vez. — Ah, não! — exclamou, bufando de frustração.— Quem diria, hein? Aquela moça magrelinha que chegou aqui há alguns anos agora não cabe mais num corpete! — provocou Denise, caindo na risada.— Não vem falar de mim, não, viu,