All Chapters of Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário: Chapter 691
- Chapter 700
731 chapters
Capítulo 691
~ NICO ~A mochila da Bella parecia leve demais para o que eu estava fazendo.Eu fechei o zíper devagar, sentindo a resistência do tecido como se fosse a única coisa real numa manhã que tinha virado um labirinto jurídico. Dentro, eu escolhi coisas que ela reconhecia sem esforço: o estojo de lápis com a tampa rachada, o caderno de desenho, duas mudas de roupa, um pijama, o casaco preferido com capuz e uma meia de estrelas que ela insistia que dava “sorte”.Nada disso era “a vida dela”. Era só um recorte pequeno o suficiente para não parecer despedida.Eu ouvi passos na sala e a voz da Martina, baixa, conversando com ela como quem monta um ninho.— Você vai levar seu colar? — Martina perguntou.— O da amizade? — Bella respondeu, animada. — Vou!Eu parei por meio segundo com a mão na alça da mochila. O colar tinha virado prova de carinho e, ao mesmo tempo, munição possível. Eu odiava que as coisas se misturassem desse jeito.Bella apareceu na porta do corredor com o cabelo preso num elás
Capítulo 692
~ BIANCA ~Dois meses tem um jeito cruel de parecer curto no calendário e infinito no corpo.A rotina nova se instalou como poeira fina: você não vê na hora, mas sente na garganta. Eu aprendi os horários da visitação como quem decora um remédio. Aprendi a não fazer perguntas que parecessem interrogatório. Aprendi a sorrir para a Bella sem pedir nada de volta.E aprendi, principalmente, a reconhecer o som do carro do Nico na garagem.Naquela tarde, eu ouvi o som do elevador e fechei o notebook sem terminar o e-mail. Foi automático. Meu corpo já sabia.Nico entrou sem anunciar. Não porque estivesse tentando ser dramático. Nico só… economizava palavras quando as palavras custavam.Ele largou as chaves no aparador, tirou o casaco devagar e ficou um segundo parado na sala, como se a casa tivesse mudado de lugar nos últimos três dias.— Ela perguntou de novo — ele disse.Eu não perguntei “o quê”, porque eu sabia. Eu só me aproximei o suficiente para ele me ver sem eu invadir.— “Já posso vo
Capítulo 693
~ RENATA ~Dois meses.Era tempo suficiente para aprender onde o sol batia na sala no fim da tarde, quais brinquedos faziam barulho demais e quais faziam sujeira demais, quais desenhos Bella assistia quando estava cansada e quais ela assistia quando estava tentando não parecer cansada.Dois meses era tempo suficiente para eu decorar a rotina dela.E, ainda assim, não era tempo suficiente para eu conseguir o que eu queria.Eu caminhei pela sala com o celular no ouvido, pisando com cuidado para não espalhar as pecinhas do jogo que a Bella montava no tapete. Ela estava de pernas cruzadas, concentrada, conversando baixinho com os próprios bonecos como se o mundo inteiro coubesse naquela cena.O mundo inteiro, para mim, cabia em números.— Doutor, isso é ridículo — eu disse, mantendo a voz controlada, porque a porta da sala estava aberta e a vizinha do lado tinha uma audição inconveniente. — Eu estou com a minha filha há dois meses e continuo recebendo… aquela miséria.Do outro lado, a voz
Capítulo 694
~ BIANCA ~Aquela era só uma terça-feira em que eu tinha uma pasta com exames, uma garrafa de água na bolsa e a certeza prática de que, se eu mantivesse tudo organizado, o resto acompanharia.Nico apareceu na porta do quarto com a chave do carro na mão e a expressão de quem já tinha passado o itinerário mental três vezes.— Trinta minutos — ele disse, conferindo o relógio. — Se a gente sair agora, chega antes.Eu assenti como se isso fosse um plano invencível.Eu já estava pronta. O vestido preto de malha que não apertava a barriga e não parecia “grávida demais”, tênis confortável, cabelo preso e uma maquiagem mínima para que ninguém me perguntasse se eu estava bem.A garagem do prédio continuava exatamente igual. Mas aparentemente eu não estava. Porque eu vi o carro e… parei.Não foi uma decisão. Não foi um pensamento. Foi como se alguém tivesse puxado o freio de mão dentro de mim.— Bia? — Nico chamou meu nome com cuidado.Eu pisquei. A sensação era absurda, porque eu só… não conseg
Capítulo 695
~ BIANCA ~A pulseira de identificação no meu pulso era leve demais para o peso que eu estava trazendo comigo. Meu nome ali, impresso em preto, reduzia a minha vida a uma linha objetiva — como se a coisa mais difícil do mundo fosse só um cadastro bem-feito.Eu apertei a pasta contra o peito, conferi o horário no celular pela terceira vez e, por um reflexo automático, organizei mentalmente o que eu tinha que lembrar de dizer: semanas, sintomas, perguntas, próximos exames. Eu conseguia fazer isso. Eu sempre consegui.Se eu mantivesse tudo exatamente organizado, eu não sentiria nada além do necessário.Mentira.O que eu sentia era um ruído constante dentro do peito, como um motor ligado sem sair do ponto morto.Nico andava do meu lado com calma suficiente para nós dois. A mão dele encontrou a minha quando viu meus dedos apertando a pasta forte demais.— Estamos adiantados — ele comentou, como se tempo fosse um assunto leve.— Eu planejo ser adiantada — eu respondi.Ele soltou um riso bai
Capítulo 696
~ NICO ~Eu dirigi sem pressa, sem bravata, sem aquela confiança automática de quem conhece a cidade de olhos fechados. Porque depois de todos esses meses, eu já podia dizer que conhecia Florença. Conhecia as ruas, os atalhos, o melhor caminho para escapar do trânsito. Mas naquele dia eu conhecia outra coisa: o medo da Bianca, recém saído do esconderijo, ainda quente.Bianca estava silenciosa no banco do passageiro, as duas mãos apoiadas no colo, como se segurar os próprios dedos fosse a maneira mais discreta de se manter inteira. Ela tinha chorado no exame. Nós dois choramos. O som do coração tinha enchido a sala, e por alguns minutos eu achei que aquilo bastava para calar o passado.Não bastava.Eu via pela tensão no maxilar dela, pela forma como ela olhava para fora sem realmente ver. O corpo dela ainda estava com um pé naquela estrada de anos atrás e eu queria arrancar a estrada do mapa.— Nico — ela disse, por fim, e o jeito como pronunciou meu nome me avisou que vinha uma tentat
Capítulo 697
~ NICO ~— Até onde eu sei, ela deveria estar com você.Eu não levantei a voz. Não que eu estivesse calmo, gritar com Renata é como jogar gasolina em fogo: melhor evitar quando eu conseguia.— Não venha com joguinhos — Renata disparou, o rosto vermelho de raiva. — Eu sei que você roubou ela.Eu pisquei confuso.— Do que você tá falando?Renata abriu a bolsa com um gesto brusco e, por um segundo, eu achei que ela ia tirar o celular para me filmar e se fazer de vítima de alguma coisa que eu ainda não entendia.Mas o que ela tirou foi um papel dobrado.Ela sacudiu na minha cara como se fosse um mandado.— “Vou voltar pro papai.” — ela leu, exagerando as palavras, cuspindo cada sílaba. — Isso aqui. Isso aqui estava no quarto dela. Você acha que eu sou idiota?O papel tinha letra infantil. Eu reconheci o jeito da Bella de escrever o “p” com a perninha grande demais. Eu reconheci até a tentativa de enfeitar a frase com um pontinho a mais.Eu respirei fundo.— Eu não sei qual joguinho você e
Capítulo 698
~ RENATA ~A porta do elevador estava quase se fechando quando eu me enfiei lá dentro com Nico.Nico aparentava como um homem que já tinha decidido tudo: mandíbula travada, olhos fixos no nada, a respiração curta de quem está tentando não explodir no lugar errado. Ele sequer me olhou.O bilhete ainda queimava na minha mão, amassado de tanto que eu tinha apertado.“Vou voltar pro papai.”Aquele papel não era prova de nada, e ainda assim era o único objeto concreto naquela história que começava a escapar do meu controle.O elevador desceu e o silêncio dentro daquela caixa de metal parecia um julgamento.Eu quebrei primeiro.— Quando você for fazer esse… boletim, — eu disse, escolhendo a palavra como se estivesse oferecendo algo razoável. — Não coloca meu nome.Nico soltou uma risada curta, sem humor.— Como é?— Você ouviu. — Eu mantive a voz baixa, prática. — Diz que ela estava com você. Diz que você… qualquer coisa.Ele finalmente virou o rosto.O olhar dele era o tipo de coisa que ho
Capítulo 699
~ BIANCA ~Quando a porta do elevador fechou, eu corri de volta para dentro do apartamento, peguei minha bolsa e puxei o celular com o mesmo reflexo com que eu puxo um contrato em crise.Eu precisa resolver, não sentir.A escola atendeu no primeiro toque.— Boa tarde, secretaria.— Aqui é Bianca Bellucci — eu disse, sem rodeios. — Eu preciso falar com a diretora. Agora.Houve uma pausa curta, aquela em que o mundo decide se você é importante o suficiente. E eu sabia que eu era.— Um momento.Eu ouvi o clique, ouvi o tempo, e me obriguei a respirar enquanto esperava. De fundo, vozes de crianças, passos, uma campainha distante. Vida normal.— Senhora Bellucci? — a diretora entrou na linha, voz controlada.— Eu preciso das imagens das câmeras de hoje — eu fui direto ao ponto. — Do portão e da área de entrada. Preciso do horário exato em que a Isabella Montesi normalmente chega e do horário exato em que vocês perceberam que ela não entrou.— Senhora, isso… — ela começou, no modo burocráti
Capítulo 700
~ BIANCA ~A estrada até Montepulciano nunca pareceu tão longa.Eu já tinha falado com a escola, com Conti, com a portaria, com quem podia. Agora era outra fase: sair do escritório invisível da minha cabeça e ir para o mundo real.Paola me esperava na entrada da cidade, de pé ao lado do carro, como se tivesse saído correndo sem terminar de colocar o casaco direito. Quando eu estacionei, ela abriu a porta antes mesmo de eu desligar o motor.— Bianca, meu Deus… — ela disse, e a voz dela tinha uma urgência honesta que me deu vontade de chorar.Mas eu não chorei.— Você conseguiu ver alguma coisa? — eu perguntei.Paola balançou a cabeça.— Eu fui na gelateria, na praça, na pizzaria, na rua da Tenuta… perguntei pra metade da cidade. Nada.Eu respirei pelo nariz. Segurei o volante um segundo a mais do que precisava.— Eu trouxe uma imagem — eu disse.Eu mostrei o celular para ela: o frame congelado da câmera da escola. A figura adulta, de lado, fora de foco. Não era “um homem perigoso”. Era