All Chapters of Vendida para o Don 2: Chapter 191
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A conversa
Capítulo 191 Manuela Strondda A tosse de João Miguel não saiu da minha cabeça. Não foi o som em si — foi o tempo errado, o jeito tenso, a mão subindo rápido demais para a boca, como se o corpo tivesse reagido antes da razão. João Miguel não se desconcerta. Não perde o eixo. Não se expõe. Sempre foi o tipo de homem que calcula três movimentos à frente, mesmo quando está em desvantagem. E, ainda assim, ali estava ele. Rígido. O olhar fixo demais em Astrid. O maxilar travado como se estivesse tentando segurar algo que não podia ser dito ali. Inclinei o corpo levemente para a frente, apoiando o antebraço na mesa, fingindo interesse no arranjo de flores. Por dentro, cada músculo meu entrou em alerta. — Vocês já se conhecem, primo? — perguntei num tom casual demais para quem já sentia que estava cutucando uma ferida antiga. O silêncio que se seguiu durou menos de um segundo, mas foi suficiente. João Miguel pigarreou. A mão cobriu a boca por tempo demais. Depois, como
O perigo
Capítulo 192 Manuela Strondda O sorriso de Don Anders veio rápido demais, tentando disfarçar. Aquele tipo de curva de boca que não nasce de humor — nasce de planejamento, estratégia. Ele deu um passo para trás, ajustou o paletó como se estivesse apenas alinhando o tecido, e soltou uma risada curta. — Brincadeira, Corvo. — disse. — Você não deveria levar tão a sério… já fiz isso outras vezes, como sabe. O ar mudou, e Hugo não riu. Não relaxou. Não piscou. A voz dele saiu baixa, controlada, sem um milímetro de ironia. — Fez com mulheres solteiras. Não com a esposa do seu capo. — o olhar se manteve firme em Anders. — Ainda bem que foi brincadeira. Eu poderia ter entendido errado e atirado. Não houve aumento de tom. Não houve ameaça explícita. Mas a frase caiu como uma lâmina sobre a mesa invisível entre eles. Don Anders assentiu uma única vez. Aquele movimento curto de quem aceita… mas não esquece. — Bom. — continuou, mudando de assunto rápido demais. — Já est
João Miguel
Capítulo 193 João Miguel Eu não acreditei quando vi a mesma mulher. Hoje, antes de vir pra esse jantar, e agora na casa da Manuela. Meu corpo reconheceu antes da cabeça. Foi um impacto silencioso, desses que não fazem barulho nenhum por fora, mas deslocam tudo por dentro. . Um mês atrás: . Eu estava saindo da casa de Vinícius, ajustando o relógio no pulso, a mente ainda presa em assuntos de negócios e protocolos… quando ele me enviou uma mensagem pra ir até o aeroporto. Fiz o que precisava, ia saindo quando levantei o olhar e ela estava ali. Astrid. Agora sei como se chama. Naquela noite, ela não tinha nome. Era só um par de olhos azuis molhados de álcool e desespero. Mas era ela. A mesma que eu procuro há um mês no aeroporto de Roma. O mesmo rosto que vinha aparecendo nas minhas manhãs cedo demais e nas noites que eu fingia não estar passando por lá de propósito. O mesmo olhar que eu dizia para mim mesmo que era coincidência, que eu estava apenas conferindo rotas, horários
Medo
Capítulo 194 João Miguel Mais cedo, no aeroporto, foi assim. Eu deixei o carro no estacionamento subterrâneo, como sempre. Mesma vaga de sempre. Mesmo trajeto até o elevador. Eu já sabia de cor quantos passos eram até a porta automática, quantas câmeras tinham no corredor, quantos seguranças trocavam turno naquele horário. Dizia para mim mesmo que era hábito profissional. Mentira. Eu estava procurando um fantasma de olhos azuis. Entrei no saguão principal e o cheiro de café forte misturado com perfume caro e ar condicionado frio bateu no rosto. O aeroporto sempre teve aquele som constante — malas rodando, vozes ecoando, anúncios em várias línguas. Um caos organizado que, para mim, sempre foi neutro. Mas depois que a conheci… nunca mais foi. Fui até o balcão de bebidas. Pedi algo simples. Nem lembro o que era. O copo gelado encostou na minha mão e eu me virei de lado, observando o movimento sem realmente ver ninguém. Até que vi alguém de costas. Uma mulher q
Caráter de Don
Capítulo 195 João Miguel — O que deve a ele? Precisa de dinheiro? Eu pago. Ela balançou a cabeça. — Não é isso. Quando meus pais morreram ele me adotou. Pelo que soube fiquei sem nada de herança, só que trabalhei anos pra ele praticamente de graça, e já cobriu os gastos. Mas agora estou com medo. Não sei o que ele realmente quer de mim. Disse pouco, eu não entendi. Aproximei um passo. — Posso te ajudar, mas terá que confiar em mim. Você é de maior, não precisa mais dele. Ela sustentou meu olhar. — Me deixe descobrir o que está acontecendo primeiro. — Pode ser perigoso. Se quiser eu consigo um lugar pra você ficar. — Eu sei me defender. Cruzei os braços, arqueando uma sobrancelha. — Igual hoje no aeroporto? Ela soltou o ar pelo nariz, irritada. — Eu só estava em choque, mas já passou. Agora vou até o fim com isso. O silêncio caiu pesado entre nós. — Então você não precisa de mim? Ela levantou os olhos devagar. — Eu não disse isso
Não encosta!
Capítulo 196 Hugo Monteiro Lindström Quando atravessei a sala ao lado de João Miguel, senti o olhar de Manuela antes mesmo de vê-la. Ela estava encostada no encosto do sofá, braços cruzados, postura ereta demais para alguém que “só estava esperando”. Ela nunca esperava. Ela avaliava. — Vou sair com João Miguel. Fique e cuide de Astrid e Karl. — falei direto. Os olhos dela estreitaram na mesma hora. — Está louco? Eu ainda não tenho filhos. E seus convidados já foram deitar. Se vai sair, eu vou com você. O que está me escondendo? João Miguel fingiu observar um quadro na parede. Covarde inteligente. — Seu irmão prendeu Don Anders. Acho melhor você ficar. — Hugo Monteiro Lindström! — ela deu um passo à frente. — Você esqueceu o que combinamos no dia do casamento? Onde ficou a parte que eu trabalharia com você por igual? Aquela frase sempre me acertava. Porque não estava errada. Aceitei essa merda. Passei a mão pelo queixo, respirando curto. — Você está certa.
Ficar
Capítulo 197 Manuela Strondda Lindström Eu estava furiosa. Uma raiva silenciosa, concentrada, que fica presa no peito e pesa mais a cada respiração. A raiva de quem foi deixada de fora. A raiva de quem percebe que foi protegida quando não pediu proteção. A raiva de saber que, mesmo assim, não conseguiu se afastar. Hugo tinha esse poder absurdo sobre mim e isso me revoltava. Quando senti o corpo dele atrás do meu, firme, quente, ocupando o espaço como se fosse natural, minha primeira reação foi endurecer os ombros. Eu não ia facilitar. Não depois daquela noite. Não depois de Anders, do reduto, das mentiras por omissão. Mas meu corpo… Meu corpo nunca seguia a mesma lógica da minha cabeça. Que inferno! A mão dele subiu até minha cintura, segura, possessiva, sem pedir permissão. O gesto não era violento. Era pior. Era familiar. Como se ele soubesse exatamente onde me tocar para me lembrar que eu estava ali — com ele. — Você é minha. Não pode me negar sexo. O que quer que
Seu gosto
Capítulo 198 Manuela Strondda Lindström Hugo veio. A água da banheira já estava morna quando ele entrou. O vapor subia lento, espalhando o cheiro do sabonete pelo banheiro grande demais para duas pessoas que fingiam não ter intimidade quando não havia sexo. Ele sentou atrás de mim, mas não me abraçou. Pegou a esponja e começou a se ensaboar sozinho, como se eu não estivesse ali. Frio outra vez. O mesmo homem que minutos antes parecia feito de fogo agora era pedra. Eu observava o reflexo dele no espelho embaçado. Ombros largos, postura reta, expressão neutra. Hugo conseguia desligar o mundo interno com uma facilidade irritante. — Hugo… — chamei baixo. Ele ergueu os olhos no reflexo, mas não virou o corpo. — Sei que combinamos em ter um casamento sem sentimentos, mas às vezes acho que tem algo que te incomoda. Respirei fundo antes de continuar. — Você não é próximo de ninguém. Não é do tipo que abraça sua família, que olha nos olhos só por olhar. E pra mim você
Buscar Capone
Capítulo 199 Manuela Strondda Lindström Eu acabei levantando. Não consegui voltar a dormir depois que Hugo saiu. O quarto ainda tinha o cheiro dele, a cama estava quente do lado onde ele deitou por poucas horas… e, mesmo assim, parecia vazia. Irritante como alguém podia ocupar tanto espaço e, ao mesmo tempo, deixar silêncio. Coloquei o robe por cima da camisola e caminhei até a janela. O céu ainda estava meio escuro, aquele azul frio de madrugada quase manhã. Respirei fundo algumas vezes. Não dependo dele pra nada. Repeti mentalmente enquanto prendia o cabelo. Meu celular vibrou em cima da cômoda. Olhei a tela. Era Vinícius. Atendi ainda caminhando para o banheiro. — Fala, Vini. — Pode cobrir a Giulia essa semana? Abri a torneira e lavei o rosto, despertando de vez. — Dá sim. — Ela precisa fazer um curso. Vai ficar fora uns dias. — Não, tudo bem. Eu cubro. Vou tomar um café e pegar um dos carros do Hugo. Do outro lado da linha, ele soltou um meio
Ameaçada
Capítulo 200 Manuela Strondda Lindström A casa dos meus pais ainda cheirava a lar. Não no sentido ingênuo da palavra, mas naquele cheiro específico de algo que já foi seu antes de virar obrigação. Cheiro de café forte, o perfume discreto da minha mãe que nunca some completamente. Parei o carro em frente ao portão e, por um segundo, fiquei só observando a fachada iluminada. Silenciosa. Segura. Capone ouviu antes de mim. Quando abri a porta, ele veio correndo pelo corredor, unhas batendo no piso, corpo inteiro vibrando como se eu tivesse ficado fora por anos — e não por dias. Ajoelhei e ele praticamente se jogou contra mim, lambendo meu rosto, rodando, choramingando baixo. — Ei, ei… calma. — ri, afundando os dedos no pelo dele. — Agora você vem comigo. Minha mãe apareceu na porta da sala, braços cruzados, um sorriso pequeno e cansado. — Vai levar mesmo? — Vou. — respondi, firme. — Ele precisa se acostumar com a casa nova. Ela assentiu. Conversamos um pouco sobre a