All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 1
- Chapter 10
218 chapters
Capítulo 2 - A tela rasgada
Na manhã seguinte, o telefone de Cássio vibrou sobre o balcão da cozinha, interrompendo o silêncio da casa. Helena, já vestida, mexia distraidamente a colher no café, enquanto ele se apressava para sair, ajustando a gravata diante do espelho.— Quem era? — perguntou ela, sem tirar os olhos do líquido escuro e quente à sua frente, a voz calma escondendo a curiosidade.— O pessoal do escritório. Temos uma reunião cedo — respondeu ele rapidamente, sem parar de mexer na agenda do celular, o tom carregado de pressa e impaciência.Ele olhou para ela por um instante, o olhar distante, e continuou: — Falando nisso, preciso do projeto da nova coleção. O evento de cinco anos da empresa está chegando, e precisamos ter os protótipos prontos para o showroom. Já está pronto?Helena apenas assentiu, sem uma palavra. Seus dedos empurraram levemente uma pasta de couro azul que repousava sobre a bancada, com o logotipo do Studio Cassiani, em baixo relevo dourado, refletindo a luz que passava pela Jan
Capítulo 3 - Quando a tinta seca
Os dias seguintes pareceram se arrastar em um compasso estranho — nem lentos, nem rápidos demais, apenas vazios.Com o projeto da coleção concluído, não havia mais nada urgente a fazer. Mesmo assim, Helena não conseguia se desligar por completo. Cada peça daquela coleção era como um fragmento de si mesma, e deixá-la seguir o curso sem vê-la nascer seria como abandonar um filho no meio do caminho.Então, decidiu ir até o Grupo Ferreira, empresa subsidiária do Studio Cassiani, responsável pela produção dos protótipos dos móveis.Não era a primeira vez que ia até lá, mas, ultimamente, Cássio evitava que ela participasse de qualquer etapa fora do escritório em casa."Deixe essa parte técnica para os engenheiros, amor”, dizia sempre com um sorriso doce demais para não demonstrar controle.Mas Helena não se importava mais com as proibições veladas.Ao chegar na empresa, passou pela recepção e entrou no elevador. Vestia-se com simplicidade elegante: uma calça de linho verde, camisa branca
Capítulo 4 - Tão solúvel quanto aquarela
Helena atravessou a porta da casa dos sogros com um vestido preto discreto, de corte simples, mas impecável. Sem decotes provocativos ou detalhes exagerados, a peça delineava sua silhueta com uma elegância silenciosa, permitindo que a verdadeira atenção recaísse sobre a confiança e o magnetismo natural que emanava dela.Até mesmo os acessórios mais sutis — um par de brincos delicados e uma pulseira fina — pareciam apenas acompanhar a presença dela, como notas de fundo que realçam uma melodia já perfeita. Era uma elegância que não precisava de artifícios para ser notada; a força estava na própria Helena, e não naquilo que a adornava.A empregada a conduziu até a sala de jantar, de onde vinham conversas animadas e risadas forçadas demais, como se a alegria tivesse sido ensaiada.Ao atravessar o batente, Helena parou levemente, chocada. Silvia estava ali. Ela reconheceria aquela mulher em qualquer lugar.Não imaginou que Cássio fosse descarado ao ponto de trazer a amante para um jantar n
Capítulo 5 - Camadas de verniz
Cássio ficou por um longo tempo olhando para a porta por onde Helena havia saído. O som das vozes ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo houvesse se recolhido. Não se lembrava de já ter se sentido tão exposto — não diante de um público, mas diante de si mesmo.O que o assustava não era a vergonha, e sim aquele aperto inexplicável no peito, um desconforto que ele não sabia nomear.O castelo de aparências que construiu com tanto zelo tremia por dentro. A fachada de sucesso, o respeito, os olhares admirados — tudo o que sempre quis, de repente, parecia um pouco sem cor.E o que o desarmou não foi as acusações veladas de Helena, foi a indiferença. Aquela frieza calma no olhar de dela, como se ela tivesse, enfim, deixando de sentir...Durante os últimos anos, o amor dela fora seu vício mais intenso — mais embriagante que qualquer conquista, mais doce que qualquer vitória. E agora, imaginar vê-lo sequer estremecer era como perder a própria gravidade.Mas Cássio não estava p
Capítulo 6 - Esboços de justiça
O dia seguinte amanheceu silencioso. O sol atravessava as frestas da cortina, desenhando traços de luz e sombra no chão — um quadro quase sereno, se não fosse o peso invisível que pairava no ar.Helena acordou antes do despertador, como de costume. Por alguns instantes, ficou apenas observando o teto, deixando que a lembrança da noite anterior se infiltrasse lentamente, como tinta dissolvendo-se na água.Virou o rosto. Cássio dormia ao seu lado. Ela o observou por um tempo, em silêncio, como quem contempla um quadro antigo — belo, mas já sem a mesma cor. Os cabelos, um pouco desalinhados, caíam sobre a testa; o queixo, firme sob a luz tênue da manhã, era delineado pela sombra suave da barba, traçando uma linha que antes a convidava ao toque.Por anos, aquele rosto fora seu abrigo, o lar onde repousavam suas certezas. Agora, parecia o retrato de um estranho. Talvez ainda houvesse amor — ou o eco distante de algo que já foi. Ou, quem sabe, o que ela amara de verdade tivesse sido ap
Capítulo 7 - Contrastes
Lívia observou a amiga em silêncio por alguns instantes, lendo em suas feições tudo o que ela não dizia. Então, inclinou-se sobre a mesa, os olhos firmes, a voz serena, mas carregada de propósito: — Helena, eu vou cuidar disso pra você. Começando com a preparação os papéis do divórcio. — fez uma pausa breve, como quem dá tempo para a decisão pousar suavemente entre as duas. — Você só vai precisar entregar pra ele assinar, e faremos tudo de um jeito que ele nem desconfie o que está assinando.O olhar de Lívia era decidido, quase protetor. — Chegou a hora de parar de sobreviver por alguém que já não te enxerga, e começar a viver por você mesma.Helena suspirou e estava prestes a responder, quando a porta da cafeteria se abriu e o som do sino anunciou uma presença que gelou o ambiente. Cássio.Ele entrou acompanhado de Sílvia, que se pendurava em seu braço como quem exibe um troféu. O vestido dela era justo demais, o riso alto demais, o perfume doce invadia o ar. Atrás deles, Renato e
Capítulo 8 - A moldura do engano
Cássio chegou ao apartamento de Silvia com o peito ainda queimando de frustração. Nunca imaginou que Helena um dia tivesse a ousadia de confrontá-lo daquela forma, e muito menos de usar a amiga para fazer insinuações.Ele sabia exatamente como seria. Helena não suportava ficar sozinha — nunca suportou. Quando brigavam, bastava desaparecer por alguns dias e deixá-la remoendo o vazio. No começo, ela fingia força, mas era só questão de tempo até o orgulho ceder. As ligações vinham em sequência, as mensagens cheias de arrependimento... e no fim, ela sempre cedia — mesmo quando ele era o único culpado.Cássio sorriu com um canto da boca com o pensamento.Silvia abriu a porta com aquele sorriso ensaiado. O corpo dela exalava feminilidade e confiança, a blusa de seda com os botões do colo abertos mostrando propositalmente as curvas do seio e a saia lápis marcando seus quadris. Ela sabia exatamente o efeito que tinha sobre ele.Ele a ignorou por um momento, mas a proximidade já fazia o sangu
Capítulo 9 - Sangue sobre a tela
Nos dias que se seguiram ao incidente na cafeteria, Cássio não voltou para casa. Apenas enviava mensagens curtas pelo celular, justificando a ausência com compromissos intermináveis de trabalho, reuniões de última hora e viagens repentinas.Em compensação, Silvia não economizava esforços, mantinha um ataque constante de mensagens venenosas. Fotos deles almoçando em restaurantes sofisticados, beijos apaixonados e até fotos íntimas deles entrelaçados nus na cama. Sempre acompanhadas de comentários sarcásticos:“Estou exausta, Cássio não consegue desgrudar as mãos de mim.”“Cassio disse que você é fria e que não desperta mais desejo nele. Ele só te mantém pois você é uma boa dona de casa.”“Como você consegue ficar ao lado de um homem que não te ama? Não cansa de se humilhar?”“Cássio se declarou pra mim, disse que sou a única que ele ama. Por que não evita passar mais vergonha e vai embora de vez?”Cada imagem, cada palavra escolhida a dedo como se quisesse que Helena sentisse a humilhaç
Capítulo 10 - O último traço de amor
O som ecoava dentro da cabeça de Helena como uma sirene distante. O golpe ainda ardia — não apenas na pele, mas na alma. Tocou o local ferido, e quando seus dedos voltaram cobertos de sangue, a intensidade do vermelho pareceu lhe gritar tudo o que ela precisava ouvir: "bastava". Se antes tudo que ela queria era justiça, agora ela não teria piedade.O sangue escorrendo por entre seus dedos era o retrato cru de tudo o que ela havia ignorado por amor. Cada gota parecia uma lembrança — das promessas de Cássio, dos sorrisos cúmplices, dos sonhos que ela mesma pintou para os dois. Tudo uma farsa.Ergueu-se devagar, a respiração entrecortada. As pernas tremiam, mas ela segurava firme a pasta contra o peito — como se aquele monte de papéis fosse o último fio de dignidade que lhe restava. Passou por entre os corredores da empresa, enquanto olhares chocados e cochichos se erguiam ao redor. Alguns funcionários baixaram os olhos, constrangidos; outros a olharam com pena.Mas Helena não olhou p