All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 11
- Chapter 20
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Capítulo 11 - Camadas de arrependimento
Cássio nunca havia levantado a mão para Helena. Foi rude, sim. Frio, distante, cruel nas palavras e nos silêncios. Mas jamais imaginara ser capaz de cruzar essa linha. E, no entanto, ali estava ela — caída ao chão, o sangue escorrendo lentamente por sua têmpora, e aquele olhar… aquele olhar que ele nunca havia visto antes.Helena sempre fora como uma pintura viva — uma tela vibrante, cheia de luz e movimento. Quando a conheceu, era uma jovem artista quase formada, com o brilho do mundo refletido nos olhos e a alma transbordando sonhos.Ele, ao contrário, estava perdido. Havia estudado, planejado, tentado — mas nada parecia suficiente. Sabia apenas que queria ser grande. Queria ser admirado, respeitado, uma presença que não pudesse ser ignorada.Ao olhar para o trabalho de Helena, enxergou tudo o que lhe faltava: cor, vida, genialidade. E, ao olhar nos olhos dela, viu a chama que poderia acender o próprio destino.Encantou-se. Declarou-se. E ela acreditou. Ele precisava dela — e ela
Capítulo 12 - Entre o fogo e a tinta
Helena saiu pelas portas do hospital, o sol refletia em sua pele como se quisesse lembrá-la de que o mundo ainda existia — e que havia vida além da dor. O céu estava de um azul quase insolente, e o vento que soprava leve parecia acariciar-lhe o rosto como um consolo silencioso.Fechou os olhos e respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu o ar preencher-lhe os pulmões completamente, sem as amarras de uma vida que já não era sua. Seria aquele o primeiro sopro da liberdade?O celular vibrou em sua mão. A tela acendeu com uma notificação. Silvia. “Está vendo? Mesmo com você ferida, ele preferiu a mim. Ele sempre vai preferir a mim!”Helena encarou a mensagem por alguns segundos. Nenhuma lágrima, nenhum tremor. Apenas um riso breve escapou, leve e quase doce — o riso de quem finalmente entendeu. Bloqueou a tela sem hesitar, guardou o telefone na bolsa e ergueu a mão para chamar um táxi.O caminho até em casa pareceu mais longo do que nunca, e ao mesmo tempo, curto demais.
Capítulo 13 - Avarias irreparáveis
Quando Cássio desceu as escadas naquela manhã, Helena estava na cozinha preparando um café bem forte. Vestia a mesma camisola branca, os cabelos ondulados caíam sobre os ombros e cobriam levemente o pequeno decote.Embora não tivesse dormido um minuto sequer naquela noite, há muito tempo não se sentia tão viva — e aquilo brilhava nela, de um jeito sereno e atraente.Cássio parou no batente da porta enquanto ajustava o punho da camisa. Por um instante, pareceu hipnotizado pela visão daquela mulher. — O que temos para o café? — perguntou com um tom leve, quase cordial.— Faz tanto tempo que você não toma café em casa, aliás... faz tempo que nem aqui você fica, que não imaginei que iria querer café hoje — respondeu ela calmamente, sem olhá-lo. — Mas se quiser, pode passar um na cafeteira... ou tomar o seu café no escritório, como acredito ter feito nas últimas semanas.Ela sabia muito bem com quem ele vinha tomando o café ultimamente. Silvia se certificara de informá-la disso diariament
Capítulo 14 - Entre luzes e sombras
Um nome conhecido em todas as rodas de arte e colecionismo, galerista e mecenas de renome, Santiago Villar era um homem cuja presença sempre impunha respeito. Helena não era uma estranha para ele. Bons anos antes, quando ainda estudavam na mesma faculdade, Santiago já havia notado aquela linda jovem de olhar atento e mãos que pareciam compreender o mundo através das cores.Ela era alguns anos mais nova, mas havia nela uma força criativa rara, dessas que iluminam até mesmo os trabalhos mais simples. E, embora tivesse vontade de se aproximar, conteve-se: havia em Helena uma reserva serena, uma muralha discreta que ele jamais ousou ultrapassar. E ele se arrependeu amargamente disso.O tempo passou, e a vida o levou para longe — para a frente das Galerias Villar, um império de arte e talento que herdara da família. Ainda assim, Helena nunca lhe saiu da memória.Acompanhou de longe seus passos, o sucesso do Studio Cassiani, e, principalmente, o homem com quem ela se casara: Cássio Amar
Capítulo 15 - O reflexo do respeito
Lá fora, o ar noturno trouxe o cheiro da breve chuva que caíra. As luzes da rua refletiam nas poças da calçada como pequenas manchas de tinta espalhadas em um quadro inacabado. Helena perdeu-se por alguns instantes olhando para elas.Até que Santiago tirou o casaco e colocou sobre seus ombros, trazendo-a de volta aquele momento. Depois abriu a porta do carro para ela, e a olhou pacientemente.— Eu agradeço por ter me ajudado lá dentro, mas não precisa me levar ao hospital. Posso ir sozinha — disse ela, tentando afastar o rubor que os gestos dele lhe causavam.— Que tipo de homem eu seria se deixasse você aqui, sozinha e ferida? — respondeu Santiago, sua voz calma, mas carregada de firmeza. Afinal, passara anos sem vê-la e agora que o destino o havia presenteado com esse reencontro, não perderia a oportunidade de se aproximar dela.Sem jeito para recusar, Helena entrou no carro. O trajeto foi feito em um silêncio confortável, quase natural, como se aquela fosse a situação mais certa
Capítulo 16 - Nuances de desespero
Ao sair do Scarlet Bar, Cássio conduziu Silvia até o apartamento dela em completo silêncio.Não queria falar. Mal conseguia respirar. Sentia-se à beira de um colapso — transbordando emoções conflitantes, desejando apenas um vazio sereno onde pudesse reencontrar algum vestígio de sanidade.Silvia nunca o vira assim. Ela pensava que grávida dele, seria apenas questão de tempo para que ele expulsasse Helena de sua vida. Então... por que não dar uma ajudinha? Mas ao ver o olhar duro e silencioso dele, percebeu — pela primeira vez — o quanto havia ultrapassado os limites. E temeu o homem ao seu lado.Quando o carro parou diante do prédio, ele permaneceu imóvel, encarando o nada à frente. O peito subia e descia num ritmo lento, contido, perigoso. Sem se virar, perguntou num tom calmo demais para ser inofensivo: — Eu te avisei pra não se meter com a Helena... não avisei?Silvia engoliu em seco, a mente girando, procurando desesperadamente uma saída, uma desculpa.Ele prosseguiu, com a voz
Capítulo 17 - Deixe a luz entrar
Na manhã seguinte, Helena acordou tarde sentindo-se revigorada. Não havia o som estridente do despertador lembrando-a de que precisava servir um homem que, agora, ela via com clareza, jamais a amara de verdade.Um leve sorriso escapou de seus lábios ao perceber a liberdade que se aproximava. Três dias, apenas três dias separavam-na da vida que escolheria viver para si mesma. Levantou-se lentamente, ainda sentindo o peso da noite anterior se dissipar, e foi direto para o banheiro. O banho quente acariciou sua pele, levando embora não só a fadiga, mas a sensação de anos de subjugação.Vestiu um vestido de linho verde escuro que realçava a o brilho de seus olhos, e calçou sandálias baixas, delicadas, que batiam suavemente no piso frio do apartamento.Enquanto tomava café e aplicava a compressa na mão machucada, Helena não pôde deixar de refletir sobre a ironia cruel da vida: a mesma mão que impulsionara o sucesso de Cássio agora estava ali, machucada por ele. Um símbolo perfeito de ingra
Capítulo 18 - Reencontro com o reflexo
O sol já atingia seu ponto alto no céu quando Helena estacionou em frente a um pequeno bistrô de comida caseira, escondido entre árvores floridas e fachadas coloridas.O letreiro pintado à mão e o aroma de manjericão fresco no ar davam ao lugar um charme quase bucólico. No interior, mesas para dois com cadeiras estofadas e jarras com flores do campo criavam uma atmosfera acolhedora.Lívia já a esperava, sorridente, acenando de longe.— Hmm... alguém parece especialmente feliz hoje! — brincou a amiga, arqueando uma sobrancelha. — Seria por um certo cavalheiro de beleza arrasadora que vi ao seu lado ontem?Helena riu, meneando a cabeça. — Deixa disso... é por um motivo ainda melhor.— Ah, não! Não me mata de curiosidade, conta logo!Helena fez um pequeno suspense, sustentando o olhar divertido da amiga. — Comprei uma casa.O silêncio que seguiu durou apenas o tempo de Lívia assimilar a frase antes de soltar um gritinho de felicidade. — Não acredito! Jura?— Juro! Ela é pequena, mas pe
Capítulo 19 - Nuances de Manipulação
Cássio forçou os olhos a se abrirem. A cabeça girava como um cata-vento impulsionado por um vento impiedoso. O gosto viscoso de uísque ainda impregnava sua boca.Por um instante ficou ali, confuso, tentando entender onde estava. Então o espaço vazio ao seu lado o atingiu com força — e as lembranças da noite anterior voltaram, uma a uma, como cacos cortando a consciência.Era a primeira vez que acordava naquela cama sem Helena. E o vazio ao seu lado parecia ecoar o mesmo buraco que se abria dentro dele.Buscando algum fio de vitalidade, obrigou-se a levantar.No banheiro, diante do espelho, massageou as têmporas, tentando afastar a dor latejante que o atormentava tanto quanto suas lembranças. Lembrou-se de todas as vezes em que acordara de ressaca — e, mesmo sem pedir, Helena sempre aparecia com um analgésico e um copo d’água morna. Agora, ela não estava ali. Nem mesmo sabia onde guardavam os remédios.Bufou, vencido. Optou pelo chuveiro, esperando que a água levasse embora um pouc
Capítulo 20 - Tons de recomeço
Na manhã seguinte, Helena acordou cedo com o som do despertador. Mais do que um aviso de que era hora de levantar, aquele sinal a lembrava que faltavam apenas dois dias para que finalmente pudesse ser ela mesma, livre para seguir seus próprios passos.Vestiu uma calça wide de jeans, uma camiseta cinza de algodão e um par de tênis baixos. Prendeu os cachos em um rabo alto com um lenço de seda, compondo um visual prático e confortável — exatamente o que precisava para enfrentar as tarefas que planejara para o dia.Estendeu aquela cama pela última vez e desceu as escadas, observando o vazio da casa, que já não guardava muitos vestígios de que um dia ela já estivera ali.Tirou seu relógio antigo da parede e, com um último olhar, fechou a porta atrás de si, arrastando consigo as duas malas que havia arrumado com os poucos pertences que levaria.Dirigiu até o bairro antigo, parando em frente a um antiquário que tinha notado na caminhada com Aurora no dia anterior.Ao abrir a porta, um pequen