All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 101
- Chapter 110
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Capítulo 101 - Traços atrasados
"Aquilo que é seu encontrará um caminho para chegar até você" Chico XavierSó quando chegou à empresa no meio da tarde e percebeu que Cássio não só não estava lá, como também não havia aparecido de manhã, foi que Silvia decidiu ligar para ele.Depois de diversos toques, quando ela já pensava que ele não atenderia, a voz dele veio quebrada do outro lado.— Oi, — ele disse simplesmente.— Oi. Onde você está? — perguntou ela, tentando parecer casual.— Precisei viajar para resolver algumas coisas.A voz dele parecia estranha, difícil... como se houvesse dor ao falar. “Será que Dante o havia ferido?”— E está tudo bem? — Ela sondou.Cássio pareceu se recompor o suficiente para que a provocação surgisse na voz, ainda assim sem a força de sempre.— Por que não estaria? E você? Onde esteve desde ontem? Não voltou para casa ontem e o Renato me disse que você sumiu da empresa hoje cedo. O que aconteceu?Silvia já tinha a desculpa pronta, construída às pressas, porém sem exageros.— Fui pro apa
Capítulo 102 - Um novo quadro
“Quando alguém tenta apagar a luz de outro, deixa a sua própria sombra maior. E sombras não vencem.”Na manhã seguinte, quinta-feira, a casa já estava acordada antes do dia realmente se acomodar. Santiago decidiu trabalhar dali com o notebook aberto sobre a mesa da copa. Como o ambiente era integrado, ele tinha o olhar livre para observar Helena e Pedro treinando na sala.Pedro a conduzia com uma postura e cuidado.— A primeira coisa que você precisa fazer é manter a calma, — disse Pedro, a voz firme, mas sem endurecer o ar do cômodo. — E adotar uma base estável. Afaste um pouco os pés. Isso te dá equilíbrio.Helena ouvia com atenção. Roupas simples e funcionais: legging e top pretos, o cabelo preso em um coque alto.Pedro segurou o braço dela, sem forçar. Apenas demonstração.— O instinto faz a pessoa tentar puxar o braço pra trás, — explicou ele. — Mas isso só ajuda quem está segurando. Principalmente se for mais forte. Tenta.Helena tentou recuar o braço, o impulso batendo no esper
Capítulo 103 - Retorno a tela
Depois de conversarem por mais um bom tempo, Orsini marcou uma reunião interna para segunda de manhã para apresentar Helena a equipe. Ela deixou a pasta com o projeto da coleção Prisma com ele, e junto com Santiago e Ricci, após se despedirem cordialmente do anfitrião, deixaram o prédio envidraçado.Pedro já os aguardava ao lado do carro, imóvel como uma sentinela. Despediram-se de Ricci, que seguiu para um compromisso próprio, e Helena acompanhou Santiago até a galeria. Ele ainda precisava revisar detalhes finais antes da exposição, marcada para o dia seguinte.Quando desceu do carro, a rua vibrou contra ela: buzinas, passos apressados, vozes misturadas. Mas o que realmente interrompeu seus pensamentos foi o passado recente. Flashes do quase atropelamento subiram gelados pela espinha. Não conseguiu deter a pergunta que vinha atormentando sua mente: “Quem a queria morta?”Santiago notou o olhar dela e segurou sua mão. O toque a resgatou do devaneio como um ponto final gentil. Atrás de
Capítulo 104 - Godê de preparos
Sentindo um desconforto raro chamado culpa, Cássio escreveu uma mensagem a Renato:“Você anda sensível demais. Não precisa levar tudo tão a sério. Que tal você e a Tânia nos acompanharem na exposição hoje à noite?”A mensagem foi enviada, mas a espera pela resposta caiu no vazio.Passou a mão na cabeça, mas o gesto não o acalmou. Retornara, mas sentia-se sem bússola interna. Passou os olhos pelo escritório como quem procura um ponto de partida. Estava, de fato, na cidade outra vez — mas crescia nele a sensação estranha de que aquela vida, agora, tinha outra moldura. E ele já não cabia nela.Puxou o ar para os pulmões com esforço silencioso e tomou uma decisão prática: iria até a delegacia antes que a polícia batesse outra vez à sua porta. Se antecipar ao confronto parecia mais sensato do que aguardar por ele.O motorista parou diante do prédio da Polícia Civil. A fachada era impessoal, cinza e funcional, sem o dramatismo ou luxo. Cássio desceu acompanhado de Riviera, que logo o aprese
Capítulo 105 - A gota de tinta
Os carros avançaram lentamente pela rua lateral da galeria, onde já havia um movimento contínuo de convidados descendo de veículos e fotógrafos independentes tentando capturar algum rosto conhecido. Luzes amareladas banhavam a fachada, que naquela noite parecia respirar um prestígio próprio.Assim que o carro estacionou, um assessor da galeria abriu a porta para Helena. Santiago desceu logo atrás dela, oferecendo o braço com naturalidade. Pedro, Livia e Marcelo saíram do carro de trás.A entrada principal estava ladeada por arranjos florais minimalistas e luminárias tubulares que projetavam sombras geométricas nas paredes externas. Dentro, o salão principal se abria como um organismo vivo — amplo, branco, elegante, com teto alto e iluminação cuidadosamente calculada para favorecer texturas, cores e volumes.Logo no início do corredor, obras de pintores emergentes dividiam espaço com peças de artesãos de cerâmica, algumas dispostas em pedestais de concreto aparado, outras protegidas so
Capítulo 106 - Quando a tela registra a verdade
“Força não é gritar mais alto; é permanecer de pé quando o outro tenta te derrubar.”O desprezo de Silvia crescia a cada gesto patético que Cássio fazia. Ver um homem como ele — orgulhoso, meticuloso, sempre acima de todos — se humilhar daquela forma por Helena era um espetáculo que ela odiava presenciar… e que detestava profundamente. Sentia-se humilhada. Traída.Quando ele a convidara para a exposição, Silvia realmente acreditou que, enfim, ele havia deixado o passado para trás. Mas bastou ver Helena ali — ao lado de Santiago, na galeria dele — para tudo fazer sentido.Cássio não viera por arte. Não viera por ela. Não viera pela exposição.Viera por Helena.E perceber isso foi como ver o próprio holofote se apagando diante dela, deixando-a na sombra enquanto outra mulher tomava o centro da cena que ela sempre acreditou lhe pertencer.Quando Cássio pediu que o aguardassem onde estavam, Silvia foi obrigada a assistir de longe enquanto ele seguia até Helena, chamando a atenção de todos
Capítulo 107 - A primeira obra exposta
“Às vezes, tudo que precisamos é que alguém nos enxergue como realmente somos.”Os convidados começaram a se reunir naturalmente no centro do salão quando as luzes diminuíram apenas um grau — o suficiente para indicar que algo estava prestes a acontecer. O murmúrio elegante se tornou silêncio respeitoso, e um leve foco de luz se abriu sobre um pequeno espaço elevado na instalação principal. Não chegava a ser um palco, era apenas um platô redondo no mesmo tom do piso, com pouco mais de um metro de largura e uns trinta centímetros de altura, com um microfone.Santiago avançou até lá, discreto e seguro, cumprimentando alguns artistas pelo caminho. Quando subiu, ele procurou Helena entre os presentes — não por necessidade, mas por instinto. E quando a encontrou, parada próxima a uma escultura de porcelana, o olhar dele ganhou um brilho quente, como se aquele fosse o único rosto que importasse.Ele pegou o microfone, respirou com calma e começou:— Boa noite, a todos.O timbre dele era fir
Capítulo 108 - Retoques de um recomeço
Os flashes registraram cada detalhe — o beijo, o toque suave, o brilho nos olhos dela — e, mais do que a imagem, captaram a ternura palpável que existia entre ambos. Quando se afastaram, ainda havia um fio invisível que os mantinha conectados, como se o ar entre eles carregasse algo próprio.Santiago deslizou a mão até o bolso interno do paletó e retirou uma caixinha pequena, num gesto discreto que somente os amigos mais próximos perceberam.O coração de Helena perdeu o ritmo por um instante.— Você aceitou namorar comigo… agora não pode voltar atrás — disse ele baixinho, com humor e devoção misturados.Ele abriu a caixinha, revelando um par de alianças de compromisso em prata.Helena levou a mão à boca, o espanto suavizado por um sorriso incrédulo que iluminou o rosto inteiro.Lívia observava tudo com os olhos marejados, a mão pressionada contra o peito como quem tenta segurar o próprio coração no lugar.Com cuidado, Santiago retirou a aliança feminina e entregou a caixinha a Lívia.
Capítulo 109 - Camadas de pertencimento
“Às vezes, o milagre não é recomeçar do zero, mas finalmente se sentir em casa dentro da própria vida.”Rogério permaneceu sentado por mais alguns segundos, imóvel, como se estivesse reorganizando cada informação dentro da própria cabeça. Então, levantou-se.— Santiago… — chamou, com a voz grave.O galerista entendeu de imediato. Houve uma troca silenciosa entre eles: precisamos conversar a sós.Caminharam até a varanda dos fundos.Rogério apoiou as mãos no corrimão de madeira e ficou alguns instantes olhando para o jardim, respirando fundo antes de falar.— Eu sei que minha filha é adulta — começou, sem rodeios. — Sei que ela toma suas próprias decisões. Mas isso que vocês nos contaram… — ele balançou a cabeça, tenso — ultrapassa qualquer coisa que um pai consegue digerir facilmente.Santiago permaneceu ao lado dele, postura reta, expressão respeitosa. Não tentou interromper.— Eu passei anos acreditando que o maior problema do casamento dela era infelicidade — continuou Rogério. — M
Capítulo 110 - Traços de ruptura
“Nada assusta mais do que ver alguém que você acreditava conhecer se transformar diante dos seus olhos.”O vento frio da noite bateu no rosto de Cássio assim que eles dobraram a esquina da galeria. Ele caminhava rápido, respirando como um touro prestes a investir, enquanto Silvia choramingava ao seu lado e Tânia resmungava atrás.Renato fechou a porta do carro com mais força do que pretendia. A raiva dele não era igual à de Cássio — era um tipo de irritação cansada, saturada.Ele olhou para o amigo por um momento longo demais, analisando-o. Cássio mantinha o maxilar travado, os olhos vermelhos, ainda tomado por uma mistura de humilhação e fúria que beirava o irracional.— Cássio… — Renato começou, controlando o tom para não acender mais o pavio — você precisa parar.O outro se virou bruscamente.— Parar o quê, exatamente?! — rosnou. — Viu o que ela fez? Ela me provocou. Aquilo ali foi um ataque, um teatrinho barato pra me humilhar!Renato respirou fundo, passando a mão pelo rosto. —