All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 91
- Chapter 100
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Capítulo 91 - Matiz de desespero
“Nada amedronta mais o antigo opressor do que a liberdade recém-adquirida de sua vítima.”O barulho do elevador ecoou pelo corredor apenas como ruído distante; nada parecia real para Cássio naquele momento. Enquanto duas pessoas o erguiam do chão — braços fortes sob as axilas, murmúrios abafados tentando organizá-lo.Foi só então que algo, um estalo brutal, o puxou de volta. Ele arrancou os braços dos seguranças de cima de si com violência.— ME SOLTEM! — rugiu, a voz vibrando contra as paredes. — Eu estou bem!A frase saiu cortante, mas sua respiração estava longe de estável. A pele ainda estava fria, o suor escorria pela têmpora, e o terno impecável parecia sufocá-lo por dentro.Os dois seguranças recuaram imediatamente, trocando olhares apreensivos.Renato deu um passo à frente — cauteloso, como quem se aproxima de um animal ferido.— Cássio… — chamou, com voz baixa. — Você acabou de ter um surto de estresse. Não está bem.— Eu estou bem! — ele repetiu, com os olhos ardendo.Ele pa
Capítulo 92 - Grito em camadas
“A arte só existe quando rompe correntes.”Depois do embate com Helena, Viviane voltou para casa fervendo de raiva. Nem quis permanecer no hotel com as amigas — a irritação pulsava tão forte que tudo parecia insuportável. Jogou-se na cama, encarou o teto por alguns segundos e, depois, começou a rolar a tela do celular com a velocidade de quem precisava de uma distração imediata.Não demorou para encontrar o que não queria ver.Uma matéria havia acabado de ser publicada com a foto que ela mesma enviara — a mesma imagem que mandara para Cássio antes, sem pensar. O título estampado em letras garrafais era uma mistura de fofoca e veneno:“‘Emocionalmente incapaz’, segundo ex-marido — Helena Duarte é vista em restaurante com possível novo affair.”Viviane sentiu o estômago revirar. Pior do que o título eram os comentários — pipocando como pequenas faíscas incendiando a matéria.Alguns irônicos:“Pra mim ela parece perfeitamente equilibrada kkkkk.”“Isso aí é cara de quem tá melhor que ante
Capítulo 93 - Sombra oculta
"A segurança é quase uma superstição. Ela não existe na natureza, nem os filhos dos homens, como um todo, a experimentam." Helen KellerHelena se apressou em virar o cavalete contra a parede assim que ouviu os passos de Santiago se aproximando da porta. Mabe já abanava o rabo feliz esperando-o ansiosa do lado de dentro.Não queria que Santiago visse o quadro — não ainda. Queria revelar tudo de uma vez, como uma história completa, não pedaços soltos. Quando ele entrou na sala, encontrou-a ali, parada ao lado do cavalete virado, as mãos escondidas atrás do corpo como uma criança prestes a aprontar.Santiago estreitou os olhos, desconfiado.— O que você está escondendo de mim?— Nada! — respondeu rápido demais.Ele apontou com o queixo para o cavalete.— Então por que isso aí está virado?Helena ergueu o queixo com falsa inocência.— Porque você já viu as duas primeiras telas. Agora… só vai ver quando eu tiver todas prontas.Santiago colocou dramaticamente a mão no peito.— Ai, isso é cr
Capítulo 94 - Quadro doentio
“Uma pessoa possessiva não ama, faz reféns.”Seu corpo inteiro endureceu como se reconhecesse um predador antes mesmo de virar.Ela fechou os olhos por meio segundo — um reflexo antigo, quase apagado. Mas depois inspirou… e se virou devagar.Cássio estava ali. Apoiado contra a parede de pedra escura, como se estivesse esperando por ela havia horas.O rosto pálido. Os olhos vermelhos. A gravata solta. A camisa amassada.Ele parecia… quebrado.Mas havia outra coisa também. Algo torto. Algo obsessivo. Algo quase febril nos olhos.— Precisamos conversar. — disse ele, com a voz arranhada. — Agora.Helena piscou. A repulsa veio primeiro. A adrenalina veio em seguida.Ela cruzou os braços, o queixo erguido — o corpo inteiro comunicando o que sua voz ainda não tinha dito. — O que você está fazendo aqui?Ele deu um passo. O tipo de passo que não era agressivo. Era… possessivo. E isso era ainda pior.— Vim te buscar. — disse ele, como se fosse óbvio. Como se fosse direito dele. — Você não deve
Capítulo 95 - Quadro sombrio
“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no inferno do abismo, mas aquelas que decidem se libertar do abismo e circular silenciosamente entre nós.”Silvia voltou à empresa no final da tarde, quando o céu começava a perder o brilho e o prédio vibrava naquele silêncio apressado de fim de expediente. Sem passar em sua sala, ela seguiu direto para o escritório de Cássio. A porta, ao se abrir, deixou escapar um rangido baixo, como um pequeno aviso que ninguém além dela parecia ouvir.O ambiente estava vazio. O ar ali dentro ainda carregava o perfume amadeirado dele, um vestígio que doía como uma ausência recente. Ela já havia tentado ligar no celular, mas a chamada nem chegava a completar. Preferiu acreditar que a bateria havia acabado e que ele simplesmente não tinha notado.Tentando organizar o caos em sua mente, Silvia caminhou até o setor jurídico. No corredor, as luzes frias refletiam no piso polido, criando uma sequência de espelhos deformados que acompanhavam seus
Capítulo 96 - Álibi em tinta fresca
“Nada mancha tanto quanto a tentativa de parecer limpo.” George Orwell Cássio serpenteava pelas ruas como alguém que recita um mantra de poder para si mesmo. Helena, finalmente, estava outra vez sob seu controle, apagada no banco de trás do carro, como um troféu silencioso que já não podia protestar.Ele acreditou, por um momento, que resolveria tudo, que a vida retornaria ao eixo que ele mesmo desenhara, perfeito como um quadro realista sem manchas. Mas seu corpo não parecia concordar. A cabeça dele pulsava com violência, fervendo contra o interior do crânio, quente como ressaca de uma noite que nunca foi bebida. Um latejar era bruto, confuso.Talvez fosse o efeito prolongado do tempo em que a observara no pub. O contraste ainda ardia na mente dele: ela rindo entre amigos, feliz, leve, luminosa, enquanto aquele idiota convencido ocupava espaço demais ao lado dela. A alegria dela parecia insulto pessoal. E justamente por isso, ele já imaginava o futuro como quem rascunha planos num g
Capítulo 97 - O contorno do medo
“A aflição não grita. Ela anda, desgasta e espera. A gente só percebe o tamanho do estrago quando o mundo já ficou perigoso demais para ficar em silêncio.”Duas horas. Foi aproximadamente o tempo que a angústia decidiu testar todos eles. Quando a médica retornou à sala de espera, a noite já tinha deslizado para um tom mais lento, de expectativa quase insuportável. Lívia havia chegado meia hora depois da entrada deles no hospital, encontrando um cenário dividido em silêncios diferentes: Pedro aguardava sentado, os braços cruzados, o corpo endurecido numa calma defensiva, como quem segura a respiração para não tremer. Santiago, por outro lado, parecia incapaz de negociar com a imobilidade. Ele andava de um lado para o outro, passos incansáveis abrindo crateras imaginárias no piso, como se cada volta pudesse aproximá-lo um pouco da resposta que ninguém tinha. Lívia alternava entre roer as unhas com força e lançar impropérios nada delicados em direção a Cássio, palavras que tinham a mesma
Capítulo 98 - Preparando a tela
"A resiliência é ter dentro de si um Sol que nunca se põe." O Pequeno MestreQuando os policiais finalmente deixaram a casa, Santiago conduziu Helena pelo corredor até o quarto.Atrás deles, Mabe os seguia em silêncio quente e fiel, as patinhas tocando o piso com um ruído suave, quase musical, um contraponto delicado à coreografia dura que a madrugada impunha lá fora.O quarto tinha outra atmosfera desde a última vez em que ele estivera ali. Embora as pequenas reformas, providenciadas por Marcelo, tenham sido no primeiro piso para que nenhum trabalhador visse o que faziam no andar de cima, o próprio Marcelo fizera melhorias discretas também no segundo andar.Agora o quarto parecia mais limpo arejado. Santiago pôde atestar que haviam dado um jeito na velha fiação ao abrir o registro do banheiro e encontrar a água aquecida fluindo.Quando ele retornou ao quarto, Helena o esperava, as mãos entrelaçadas em frente ao corpo, com uma postura um pouco desconfortável.— Eu sei que não é a tão
Capítulo 99 - Curva em sépia
“O perigo muda de forma, nunca de intenção. Às vezes, a maior ameaça é acreditar que já acabou.”Depois de tomarem o café, Santiago e Lívia acompanharam Helena até sua casa. A rua estava quase vazia, restando apenas uma viatura estacionada. Os policiais já saíam da casa quando os três se aproximaram.— E então? — perguntou Santiago, tentando conter a própria ansiedade.Um dos agentes respondeu enquanto ajustava a alça do colete:— Os peritos foram embora há poucos minutos. Confirmaram que a mangueira foi cortada de propósito. Sobre suspeitos, vamos depender da análise do laudo.Santiago apertou os lábios e assentiu, aceitando a falta de respostas imediatas.Logo, Helena emendou, ansiosa:— Já podemos entrar?— Sim, o local está liberado, — respondeu o policial, antes de caminhar de volta para a viatura.— Obrigada, — disse ela, vendo os agentes se afastarem.Assim que abriu a porta, Helena sentiu outra coisa que não veio em palavras, mas em impacto: a casa que antes era aconchego agor
Capítulo 100 - Tinta que queima
Silvia despertou. A noite quase inteira tinha sido vivida em estado de sítio: medo, raiva e uma angústia silenciosa por não saber o que viria de Dante. E essa dúvida a consumia em silêncio. Quando a porta abriu, pensou que fosse algum dos capangas. Mas se enganou.Dante estava parado no batente, vestido com seu terno preto e o colarinho da camisa pontiagudo emoldurando o rosto. Não disse nada. Apenas a observou. Por tempo demais.Instintivamente, Silvia sentou na cama e recolheu as pernas junto ao peito, apoiando as costas na cabeceira. Abraçou a própria forma como um mecanismo de defesa — não só contra o homem, mas contra tudo que ele representava. Dante então entrou, sem pressa. Aproximou-se, sentou na lateral do colchão como quem assume território, e, com um gesto mínimo, deixou a mão caminhar. Primeiro pelo braço dela, depois descendo pela perna coberta pela camisola longa. Não era um toque apressado. Era um reconhecimento silencioso de posse.Silvia sentiu a repulsa subindo à pel