All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 111
- Chapter 120
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Capítulo 111 - Manchas de obsessão
“O perigo não nasce do que se perde, mas do que alguém se convence de que ainda lhe pertence.”Cássio tentava se manter concentrado no trabalho, esforçando-se para conter o impulso de ligar para Renato. A ausência do amigo, somada às palavras duras da noite anterior, corroía-o por dentro. Renato sempre fora seu confidente, seu apoio silencioso. Mesmo diante das mentiras, omissões e distorções que ele próprio criara, o amigo permanecera ao seu lado. E agora… agora ele sentia que até aquela amizade estava escorrendo pelos dedos.Quando percebeu seu devaneio, já havia perdido completamente o fio de entendimento da planilha à sua frente.Esfregou o rosto com força, levantou-se da cadeira e decidiu ir até a sala da equipe de criação. Porém, assim que atravessou a porta, o telefone vibrou no bolso. Ele pegou o aparelho na esperança de que fosse o amigo, mas o que viu foi o nome do pai iluminando a tela.Durante a viagem, já tinha ignorado ligações demais da família. Resolveu atender.— Alô.
Capítulo 112 - Entre Pinceladas e Tremores
“Algumas sombras não retornam para nos assustar — retornam porque se recusam a aceitar que deixamos de pertencê-las.”No bairro antigo, a casa parecia respirar aconchego. Helena e Santiago se moviam na cozinha com uma naturalidade que só quem já encontrou um ritmo próprio ao lado do outro consegue ter. Ele cortava legumes enquanto ela mexia a panela, os ombros encostando de vez em quando, os sorrisos suaves escapando sem necessidade de palavras.Eles tinham decidido cozinhar juntos — um jeito de dar descanso aos talentos culinários de Marcelo.No sofá, Pedro revisava as câmeras no notebook, a expressão concentrada demais para um sábado. O cenho franzido era um contraste gritante com o aroma acolhedor que vinha da cozinha.— Por que essa cara feia, bombonzinho? — provocou Lívia, aproximando-se com uma taça de vinho.Pedro ergueu apenas os olhos, sem mexer a cabeça.— Não está cedo para você já estar bebendo?— Eu preciso comemorar a ascensão da minha amiga artista, bobinho. — Ela se jo
Capítulo 113 - Esboço de um Propósito
"Algumas batalhas não se vencem derrubando o inimigo, mas derrubando o medo que ele deixou em nós."Helena retornou à sala em um conjunto verde de bermuda e top, amarrando o cabelo em um rabo de cavalo firme. Pedro observou o movimento em silêncio, avaliando o estado emocional dela. Ele sabia que ela estava frágil, mas sabia também que era nesses momentos que ela mais se superava.— Vamos começar devagar — disse ele, posicionando as pernas. — Hoje eu quero trabalhar defesa contra imobilização. É útil… principalmente pra você.Ela entendeu o subtexto, mas apenas assentiu. Os olhos estavam mais focados do que antes. A respiração mais firme.— Certo. O que eu faço primeiro?Pedro respirou fundo.— Primeiro… você confia em mim? — perguntou ele, sério.Helena ergueu o olhar para o dele e respondeu sem hesitar:— Com a vida.Algo nos olhos dele suavizou — mas só por um segundo.— Então vamos lá.Ele se aproximou devagar, mostrando que nada ali seria surpresa. Segurou o braço dela com firmez
Capítulo 114 - Camadas de negação
A tarde já se despedia devagar, tingindo o quintal de tons dourados quando Marcelo cruzou a porta da cozinha, vindo do fundo da casa. Santiago e Lívia o seguiam logo atrás.— Vamos embora, bombonzinho! — anunciou Marcelo com um sorriso zombeteiro.Pedro ergueu uma sobrancelha, indignado.— Até você agora?— A revolução começou, acostume-se — Livia rebateu, estalando a língua.Helena franziu o cenho, confusa.— Vocês vão pra onde?Marcelo colocou as mãos nos bolsos, apoiando-se no batente.— Vamos dar a vocês dois um vale night. Acho que estão precisando — disse com naturalidade, como se aquilo fosse a ideia mais lógica do mundo.Santiago se aproximou de Helena, envolvendo o ombro dela com o braço.— Fica tranquila — murmurou. — É só por hoje.— Mas e…Antes que a continuasse, Marcelo ergueu uma mão.— No tempo em que ficamos aqui, fizeram boas melhorias no andar de cima do sobrado. Vamos ficar muito bem acomodados e vigiar tudo de lá. Não se preocupe.Helena percebeu que não tinha arg
Capítulo 115 - Díptico de Destinos
“O castigo de quem tenta prender o passado é assistir, impotente, enquanto o futuro do outro floresce sem pedir licença.”A casa estava silenciosa quando Silvia entrou, ainda com a bolsa pendurada no ombro. Fechou a porta devagar, quase sem som, e ficou por um instante encostada ali.A conversa que ouvira atrás da porta do escritório ecoava dentro dela como um sino desagradável.Não era amor o que movia Cássio. Era Helena. Sempre fora.Até quando ele a desprezava, Helena ainda ocupava mais espaço do que deveria. E agora, com aquele olhar distante, com aquela inquietação crescente… Silvia percebia algo que temia admitir: O bebê não seria suficiente para prendê-lo.E se ela não conseguisse o que queria por meio de afeto, atenção ou manipulação… teria que conseguir através de estratégia.Andou até a sala em passos lentos, quase felinos, e soltou a bolsa no sofá. Sentou-se devagar, entrelaçando os dedos sobre o ventre.Não havia mais espaço para ingenuidade. Enquanto aquela mulher existis
Capítulo 116 - Folha em branco
“Toda vida tem um ponto em que dois caminhos deixam de correr paralelos — e um deles aprende a florescer sem olhar para trás.”Santiago se recostou no batente da porta que dava acesso ao quintal, segurando um copo de suco que Aurora havia preparado. Seus olhos, porém, não estavam no copo — estavam em Helena.Ela caminhava de grupo em grupo como se tivesse nascido ali, rindo com as mulheres mais velhas, se curvando para escutar as histórias das crianças, admirando as receitas caseiras como se fossem obras de arte. O sol atravessava as folhas das árvores do quintal e iluminava os cabelos dela, trazendo um reflexo dourado que deixava Santiago momentaneamente sem ar.Helena tinha uma presença que preenchia espaços. E ali, entre vizinhos e aroma de comida boa, ela parecia… inteira.Ele observou quando dona Clarice ofereceu a ela um pedaço exagerado de bolo de fubá, e Helena aceitou com a fome quase infantil que ele adorava.Santiago sorriu sozinho.Aquela mulher, tão machucada meses antes,
Capítulo 117 - Traços Partidos
Silvia permaneceu estacada na cozinha. O novo plano latejava em sua mente, pronto para ser executado. Mas havia um problema que a corroía: ninguém contatava Dante. Era ele quem decidia quando, como e quem podia falar com ele. Um fantasma com regras próprias.Ele tinha um número que usava apenas quando queria falar com ela. Mas ligar para ele era inútil, ficava sempre desligado.Se Márcio não tivesse “sumido”, ela ainda poderia usar aquele idiota para se aproximar dos capangas. Mas agora? Agora estava só. E precisava pensar. Rápido.Ela girava o celular entre os dedos, o gesto inquieto traindo seu desespero silencioso.Precisava apressar as coisas. Mas como?Se aproximou da porta do escritório na ponta dos pés. Tentou ouvir algo — qualquer barulho que denunciasse o que Cássio estava fazendo. Nada. Silêncio absoluto.Imaginou, com repulsa, se o cheiro dela — daquela mulher ridícula — ainda pairava naquele cômodo. Até pensar nisso faiscou raiva dentro dela.Silvia bufou, espreitando como
Capítulo 118 - A moldura do amor
“O amor começa assim: um contorno tímido… e um coração disposto a preencher.”Quando Helena voltou ao quarto apenas em um roupão, a pele ainda quente do banho, encontrou Santiago sentado na cama, encostado na cabeceira usando apenas uma calça fina de moletom. Ele deslisava o dedo na tela do celular apreciativo demais. A luz azul da tela iluminava seu rosto e deixava seus olhos ainda mais bonitos.— No que você está tão concentrado? — ela perguntou, curiosa.Santiago sorriu sem desviar o olhar.— Por que você não vem aqui ver?Ela se aproximou e se acomodou ao lado dele, encaixando-se perfeitamente em seu ombro. Quando olhou para a tela, soltou um riso suave. A galeria estava lotada de fotos dela. Deles. Momentos roubados, espontâneos, muitos que ela nem percebera que ele tinha registrado.— Senhor Villar… quando você tirou a maioria dessas fotos que eu nem vi?Ele deu de ombros com aquele charme natural e irresistível.— Você não pode me culpar pela câmera do meu celular te amar tanto
Capítulo 119 - Um quadro na parede certa
“É justo que muito custe o que muito vale.” Santa Teresa D'ÁvilaHelena finalizava os últimos detalhes em frente ao espelho de chão que sua mãe havia escolhido para seu quarto. A imagem refletida mostrava uma mulher que, meses antes, jamais imaginaria ocupar aquele espaço com tanta firmeza.O vestido preto estilo blazer dress abraçava seu corpo com precisão: ombros levemente estruturados que lhe davam uma postura quase imponente; lapelas elegantes que deixavam parte do colo à mostra com sofisticação; a cintura marcada pelo cinto do próprio tecido, desenhando suas curvas com equilíbrio; e o comprimento midi, finalizado por uma fenda frontal discreta, que revelava apenas o suficiente para sugerir confiança sem perder a sobriedade.A maquiagem leve realçava sua beleza natural, enquanto o coque baixo deixava seu rosto completamente à mostra — sem sombras, sem proteção. Apenas ela, transparente e segura.Quando estava terminando de prender seus brincos dourados, sentiu a presença dele atrá
Capítulo 120 - A paleta certa
“É preciso aprender a lidar com os próprios demônios, em vez de esperar que o outro os amanse.”Cássio acordou mais descansado. Ficar em casa, isolado do mundo, tivera um efeito inesperadamente reparador.Arrumou-se de forma automática, quase mecânica, e desceu.Silvia estava sentada ao balcão da cozinha, tomando um suco. Já vestida para o trabalho, impecável como sempre.— Já acordou? — perguntou, levantando-se de imediato e enchendo um copo. — Fiz a vitamina que você gosta.— Obrigado — respondeu Cássio, aceitando a bebida sem pensar muito.— Podemos ir juntos para a empresa?— Hoje não — disse ele, após um gole. — Vou passar no Grupo Ferreira agora cedo. Você pode ir com o motorista.Silvia assentiu, escondendo bem a decepção por trás de um sorriso controlado.— Tudo bem.A diarista, que ia à casa três vezes por semana, surgiu na porta da cozinha com passos cautelosos.— Senhor Cássio… posso falar um instante?— Fale.Ela hesitou, visivelmente constrangida.— Estou ficando sem mate