All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 121
- Chapter 130
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Capítulo 121 - Quando o traço se sustenta
“Chega um momento em que o passado fala… e a gente percebe que não deve mais respostas.”Santiago logo se enturmou, participando da conversa com a mesma naturalidade e energia que Helena irradiava. Não demorou para que todos percebessem o quanto aqueles dois combinavam — como se um completasse as pausas do outro, como se falassem a mesma língua mesmo quando estavam em silêncio. Era impossível não admirar… e, para alguns, não sentir uma pontinha discreta de inveja daquilo que compartilhavam.E havia ainda o detalhe que não passava despercebido: um dos maiores galeristas do país não apenas aparecera ali carregando sacolas de comida, como também se sentara à mesa, rindo, ouvindo ideias, comendo ao lado deles. Aquilo não era só gentileza — era um privilégio. E todos sabiam.Quando terminou de comer, Santiago tocou de leve a perna de Helena sob a mesa, chamando sua atenção.— Preciso voltar. — disse baixo. — Vim mesmo só para ver como você estava… e alimentar o seu monstrinho interior — so
Capítulo 122 - Nem manchou
"Deixar o passado para trás não é esquecer — é escolher não viver mais lá. Daqui pra frente, eu escolho caminhar com o que me fortalece." Edna de Andrade.Antes de voltarem para casa, Santiago sugeriu que comessem alguma coisa. A frase nem chegou ao fim e Helena já se animou como se tivesse sido chamada para uma festa.— Pizza, por favor — ela pediu num choramingo. — Eu sobrevivi a um dia inteiro sendo adulta responsável, eu mereço.— Argumento irrefutável — ele riu, concordando enquanto bagunçava o cabelo dela, que já tinha perdido completamente o coque após experimentar algumas das peças.Santiago assumiu o volante, enquanto Pedro seguiu no outro carro em que ele havia chegado. Lívia, rápida como um raio, abriu a porta do banco do passageiro do segurança e se jogou para dentro. Pedro ergueu uma sobrancelha questionador.— O que foi? — ela se defendeu de imediato. — Eu só não quero ser a vela do casal meloso.— Sei… — ele respondeu seco. — Contanto que você não fale o trajeto inteiro
Capítulo 123 - Impressionismo
“Nem todo silêncio é rendição; às vezes, é apenas a cor sendo preparada.”Silvia desviava o olhar, depois voltava. Sentia-se diminuída, deslocada.Cássio observava tudo sem conseguir evitar. Cada gesto de Helena parecia confirmar algo que ele relutava em aceitar: ela estava bem. Inteira. Viva.O que mais o corroía não era vê-la feliz — era perceber que aquela felicidade não precisava mais dele para existir. Ela ria sem olhar em sua direção, comia com prazer, tocava e era tocada com uma intimidade tranquila. Santiago, ao seu lado, a observava com pertencimento.Mas, no fundo, uma ideia doentia insistia: “Ela era dele. Como Santiago ousava?”Cássio sentiu o maxilar endurecer, os dedos se fecharem involuntariamente sobre a mesa. O orgulho tentou reagir, mas foi abafado por um incômodo surdo e persistente, que crescia a cada gargalhada vinda da mesa à frente.Quando Helena se levantou e passou por ele, não conseguiu mais se conter. As palavras escaparam antes mesmo que ele pudesse pensar.
Capítulo 124 - Traço Imparcial
“A liberdade é o quadro mais caro que uma mulher pode pintar.”Pedro estacionou o carro no estacionamento público ao lado do edifício e seguiu ao lado de Helena até a entrada do fórum. Santiago ocupava o outro lado dela, a mão firmemente entrelaçada à dela, como um apoio silencioso.Lívia já os aguardava à porta. Pastas organizadas sob o braço, um terno impecável, exalando profissionalismo — diferente da mulher expansiva, cheia de piadas e comentários afiados, que costumava ser fora dali. Ainda assim, a essência permanecia.Ela abraçou Helena com força e segurança. — Vai dar tudo certo. Hoje a gente encerra, pelo menos, essa etapa.Helena encarou a amiga com tranquilidade. — Eu sei.Lívia voltou-se então para Pedro e Santiago e avisou: — Vocês vão ter que esperar aqui na recepção.— Tudo bem — respondeu Santiago prontamente, antes de se aproximar de Helena.Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Vou te esperar bem aqui.Inclinou-se e lhe deu um beijo rápido nos lábios. Helen
Capítulo 125 - A Última Camada
“A máscara sempre cai. O tempo se encarrega disso. O que é superficial se desfaz — e sobra apenas a essência: aquilo que você realmente é.”Riviera pigarreou, recompôs-se e pediu a palavra novamente. — Excelência, a parte autora ainda possui um elemento probatório relevante.Laura ergueu o olhar, impassível. — Prossiga.— Temos um vídeo — disse ele, medindo cada palavra — que demonstra a requerida conduzindo meu cliente a assinar o documento sem a devida leitura, sob pretexto de se tratar de um contrato de prestação de serviço para um evento. A assinatura ocorreu de forma precipitada, induzida e dolosa.Cássio endireitou-se na cadeira. Aquela era a carta. A última. A que, em sua cabeça, encerraria a discussão.— Exibição autorizada — determinou a juíza. — Que conste em ata.O advogado virou o notebook em direção à mesa e deu play no vídeo.A imagem tremida mostrava Cássio sentado à mesa, com uma mulher ao seu lado, quando Helena entrava na sala. Aproximava-se com um papel nas mãos,
Capítulo 126 - Linha de defesa
“Há momentos em que não se vence fugindo, mas ficando. E dizendo não sem pedir desculpas.”Helena levantou-se e, acompanhada de Lívia, deixou a sala sem olhar para trás. Deu alguns passos pelo corredor, sentindo um alívio quase físico — até que, de repente, alguém segurou seu punho com força excessiva.Virou-se no susto.Deu de cara com Cássio, os olhos vermelhos, inflamados de ódio puro.Riviera surgiu correndo logo atrás, tentando contê-lo pelos braços, mas Cássio o empurrou com brutalidade, fazendo o advogado cambalear e quase cair.— Me deixa! — ele gritou.O corredor estava vazio. Só os quatro.Lívia estreitou os olhos, fria, calculando instintivamente a distância. O notebook firme na mão — pronta para usá-lo como arma se fosse preciso.— Me solta — Helena ordenou, a voz baixa, controlada.— Me diz por quê… — começou Cássio, a voz oscilando entre fúria e desespero. — Por que você não pode voltar? Você me ama! Eu sei disso!Era inimaginável para Helena estar vivendo aquilo. À sua
Capítulo 127 - Pigmento Negro
“O pior tipo de perda é quando ninguém te tira nada — você só percebe tarde demais o que jogou fora.”Cássio deixou o fórum escoltado. Assim que cruzaram a porta, os seguranças o empurraram sem qualquer delicadeza.Os olhares curiosos se voltaram para ele sem pudor — alguns de espanto, outros de reconhecimento silencioso. Com as mãos ainda trêmulas, puxou um lenço do bolso interno do paletó e tentou estancar o sangue que escorria do nariz, ao mesmo tempo em que escondia o rosto.— Me tire daqui — ordenou a Riviera, a voz carregada de raiva e humilhação.O advogado o acompanhou até o carro e o acomodou no banco traseiro. O simples ato de se sentar arrancou-lhe um gemido baixo; a respiração veio irregular. As costas protestavam pela queda, e bastou lembrar do que Helena fizera para algo ferver dentro dele.“Como ela pôde fazer isso comigo?E quando foi que aprendeu a se defender assim?”O corpo inteiro se tensionou. Ao afastar o lenço do rosto, o sangue fresco lhe trouxe outra imagem —
Capítulo 128 - O começo de outra obra?
"Às vezes, tudo que precisamos é uma frase certa, no momento certo.”Assim que deixaram o fórum, seguiram direto para o bairro antigo. Marcelo os aguardava ansioso por notícias.Mal atravessaram a porta e Helena foi direto para o sofá, largando o corpo como quem finalmente se permite cair. Santiago sentou-se ao seu lado no mesmo instante. Mabe correu até ela, apoiou uma pata em sua perna e recebeu um carinho automático, quase distraído.Lívia começou a relatar tudo, sem poupar detalhes: o andamento da audiência, a troca de argumentos, a postura da juíza, as implicações jurídicas, o momento em que Helena se defendeu — tudo.Marcelo foi o primeiro a se manifestar. — Essa medida protetiva é uma coisa boa — disse, aliviado. — Ele não pode mais se aproximar dela.Pedro, no entanto, permanecia pensativo, a mão apoiada no queixo. — Talvez — ponderou. — Mas e se isso o deixar ainda mais descontrolado? Ele não respeitou a ordem nem dentro do próprio fórum.Santiago ouvia tudo em silêncio, at
Capítulo 129 - Claros e Escuros
“A dor não nos define. Mas a forma como escolhemos atravessá-la, sim.”Depois do banho, o cheiro de grelhado capturou a atenção de Helena. O apetite começava a dar sinais de retorno. Quando se sentaram à mesa — agora com uma cadeira a mais para que coubessem os cinco — encontraram, além de uma travessa de peixe perfeitamente dourado, outra generosa de salada, colorida e convidativa.— Preparei algo leve, pensando em você — disse Marcelo, lançando-lhe um olhar atento.Helena sorriu, sincera.— Está com uma cara ótima.Começaram a comer, mas não demorou para que Helena percebesse algo fora do lugar. Lívia estava quieta demais.— Desembucha — ordenou, sem rodeios.Lívia engasgou com a comida, tossindo enquanto Marcelo lhe estendia um copo d’água.— Por que você acha que eu tenho algo pra falar? — perguntou, fingindo inocência.— Talvez porque eu te conheça?— Essa sua mania de ler a gente às vezes é irritante, sabia?— Anda logo.Lívia suspirou, vencida.— Tá. Eu só não queria te estress
Capítulo 130 - Natureza morta
"A única coisa que controlamos é a ilusão de achar que controlamos tudo."Na manhã seguinte, depois do café, Marcelo seguiu para a agência com Mabe, enquanto Pedro levou Helena e Santiago até o laboratório.Helena era um emaranhado de sensações: a ansiedade e o medo disputavam espaço com a expectativa e a esperança. Santiago permanecia firme ao seu lado, segurando-lhe a mão com constância, como um ponto de ancoragem.No laboratório, o profissional colocou o garrote em seu braço, interrompendo o fluxo sanguíneo. As veias logo se tornaram mais salientes. Ele então fez a punção com precisão, retirando um pequeno tubo de sangue.Helena desviou o olhar no instante da agulha, respirando fundo. Aquilo era rápido, técnico — mas o peso do que aquele exame poderia significar tornava tudo maior do que o gesto simples.Santiago apertou de leve sua mão.O futuro parecia suspenso em alguns mililitros de sangue.Pedro os aguardava do lado de fora, encostado no carro, atento como sempre. Seu senso de