All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 131
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Capítulo 131 - Inércia
“Há perdas que não chegam com estrondo.Elas se instalam devagar, enquanto acreditamos ter tempo.Quando percebemos, não é mais sobre recuperar —é apenas sobre reconhecer o que foi deixado para trás.Algumas coisas não se perdem porque alguém as tomou,mas porque foram ignoradas até não restar nada para salvar.”Cássio não se sentiu aliviado quando os pais finalmente foram embora. O silêncio que ficou parecia ainda mais pesado. Usou o grande fluxo de trabalho como refúgio, escondendo-se atrás de planilhas, prazos e números para não encarar as próprias frustrações.Permaneceu fechado em sua sala o dia inteiro. Não queria chamar mais atenção do que já havia chamado ao chegar — o curativo no rosto, os olhares curiosos, os cochichos ainda ecoavam.De tempos em tempos, algum funcionário entrava para tratar de detalhes urgentes do lançamento da Coleção Inércia.Inércia.O nome da coleção lhe pareceu irônico demais naquele momento.Já no meio da tarde, enquanto revisava os custos da campanh
Capítulo 132 - Um pingo novo
“A vida não pede permissão para começar.Ela nasce mesmo quando o mundo ainda está em ruínas.E, às vezes, é exatamente isso que a torna inevitável.”O advogado pigarreou, a voz saindo mais baixa do que o habitual.— Cássio… o que acabou de acontecer aqui?Ele não respondeu. Apenas se recostou na cadeira, os olhos vazios, como alguém que já não tinha mais energia para lutar.Riviera respirou fundo, fechou a porta com cuidado e avançou alguns passos.Cássio desviou o olhar da passagem agora fechada.— Fala — disse, seco.Riviera hesitou por um segundo a mais do que o necessário.— Helena… bem… recebemos a notificação oficial da ação referente às coleções.— Nós já não esperávamos por isso? — Cássio respondeu, sem emoção.— Não… quer dizer, sim. Mas...— Anda — ele o interrompeu. — Arranca o curativo de uma vez. Não há nada que você possa dizer que possa deixar meu dia pior.Riviera inspirou fundo.— Eu já acessei o processo online. — Fez uma pausa curta, estratégica. — As provas aprese
Capítulo 133 - Retomando o traço
“Quando o amor já não é possível,as pessoas chamam de escolha aquilo que é apenas rendição.”Silvia estava sentada em sua sala, o computador ligado à sua frente, mas a atenção não estava ali. Carregava um vazio estranho no peito, oco, como uma casca de ovo sem nada dentro.Helena, ao que tudo indicava, havia saído definitivamente do jogo. Ainda assim, permanecia como uma ameaça constante. Mesmo sem possibilidade de retorno, continuava impregnada na mente e no coração de Cássio. O estado em que ele ficara na noite anterior — largado, ferido, quebrado — era prova disso.Silvia não suportou ficar mais tempo. Não preparou café, não encenou o papel de esposa dedicada naquela manhã. Estava cansada demais de repetir uma performance que já sabia não funcionar.Pegou o celular, desejando pela primeira vez que ele vibrasse com uma ligação de Dante.A batida na porta a arrancou da inércia.— Entre! — gritou, sem se levantar, já erguendo o rosto.Esther entrou, e o cansaço de Silvia se aprofundo
Capítulo 134 - Pigmento instável
“Toda tela tem um ponto em que a tinta ainda está fresca demais para suportar outra camada.”Cássio mal podia esperar para chegar em casa e deixar aquele dia para trás. A cabeça latejava; o analgésico da manhã já perdia o efeito. Riviera o informara que havia contatado a advogada de Helena e que aguardava resposta. O trabalho seguia dentro do prazo — não havia muito mais a fazer.Ao entrar no elevador para ir embora, uma mão surgiu entre as portas em movimento, impedindo que se fechassem. Quando se abriram novamente, Silvia estava do outro lado.Ela fingiu constrangimento pela interrupção, sorriu de leve e pediu desculpas antes de entrar. Permaneceu quieta ao lado dele enquanto as portas tornavam a se fechar.Para Cássio, ela parecia diferente — talvez triste. Provavelmente pelo modo como ele a vinha tratando nos últimos dias. Afinal, que mulher suportaria ficar ao lado de alguém enquanto ele corre atrás de outra?Uma pontada de culpa e vergonha o alcançou.— Sobre ontem… obrigada por
Capítulo 135 - Quando o perigo ganha contornos
“Quem escapa do perigo vive a vida com outra intensidade.” Machado de AssisQuando voltaram para dentro, Helena parecia um pouco mais calma.Desde o divórcio, vinha se mostrando cada vez mais forte. Ainda assim, nos últimos dias, aquela segurança inabalável dava sinais de cansaço. Talvez fossem os hormônios da gravidez. Talvez fosse apenas o peso de tudo o que havia vivido. E, mesmo que não fosse nada disso, quem poderia julgá-la?Helena atravessara um inferno. E, embora tivesse decidido se libertar dele, a sombra ainda insistia em segui-la.Lívia se ajoelhou à sua frente, pousando a cabeça em seu colo e envolvendo-a num abraço apertado.— Ô, minha amiga… vai ficar tudo bem. Você vai ver!Santiago se levantou para dar espaço às duas.Helena passou a mão pelos cabelos de Lívia num gesto quase maternal, como se fosse a amiga quem precisasse de amparo — e não ela.Lívia ergueu o rosto para encará-la.— Pensa pelo lado positivo. Pelo menos agora a polícia tem por onde começar a investigar
Capítulo 136 - Camada de luz
“Mesmo cercada de sombras, a vida encontra um jeito de crescer em direção à luz.”Já deitados, Helena se aninhou contra o peito de Santiago. A mão desenhava círculos lentos sobre a barriga ainda lisa, como se tentasse assimilar aquela novidade.— É surpreendente pensar que tem um serzinho crescendo aqui — murmurou.Santiago beijou-lhe a testa, demorando um pouco mais do que o necessário.— Uma pena não termos conseguido comemorar isso direito.Helena suspirou, o ar saindo pesado.— Será que tudo isso vai acabar algum dia?— Vai, sim — respondeu ele, com a calma de quem precisa acreditar no que diz. — Não existe tempestade que dure para sempre.Ela ficou em silêncio por alguns segundos, depois deixou escapar o que realmente a inquietava.— Eu só não consigo entender… quem poderia querer me fazer mal assim? E por quê?Santiago perdeu o olhar em algum ponto qualquer. Não fazia muito tempo que era parte da vida dela, mas já a conhecia o suficiente para saber: Helena não era alguém que pro
Capítulo 137 - Ajuste de Foco
“Há momentos em que não se trata de vencer — mas de saber onde parar o traço.”Cássio acordou com o corpo pesado, como se tivesse dormido sob concreto. Cada movimento exigia esforço. Abriu os olhos devagar, sentindo o latejar familiar no nariz e uma pressão incômoda atrás dos olhos.Pegou o celular sobre o criado-mudo. Uma notificação piscava na tela.Riviera: “Reunião confirmada para hoje à tarde. Helena e a Dra. Lívia aceitaram conversar.”Ele fechou os olhos por um instante mais longo do que o necessário. Levantou-se e seguiu até o banheiro, caminhando como quem atravessa um terreno instável. Diante do espelho, parou. Os hematomas sob os olhos estavam ainda mais evidentes — um degradê feio de roxo, verde e amarelo denunciando a violência recente. Tocou o curativo no nariz com cuidado; a dor respondeu imediata, viva.Engoliu um analgésico a seco, sem água, como se merecesse o desconforto. Tomou banho rápido, vestiu-se mecanicamente, sem se reconhecer nos próprios gestos. Tudo nele p
Capítulo 138 - Traço de acerto
“Quando a vida cobra, ela não pergunta se você está pronto. Ela só apresenta a conta e chama isso de justiça.”Riviera estava visivelmente tenso enquanto ajustava o notebook ao lado de Cássio, na sala ampla e silenciosa. O chefe havia exigido discrição — e ele entendia o motivo. Aquela reunião teria impacto direto na empresa. Ainda assim, Riviera sabia que insistir num julgamento poderia ser devastador, talvez irreversível. Não era correto esconder nada de acionistas e investidores, mas, no fim, a hierarquia falava mais alto. Mandava quem podia; obedecia quem tinha juízo.Quando puxou a cadeira para mais perto, Cássio o interrompeu, seco:— Não quero aparecer na transmissão.Riviera ergueu os olhos. Ao notar novamente os hematomas ainda marcados no rosto do chefe, compreendeu sem precisar perguntar.— Tudo bem. Acredito que não será um problema — respondeu.Reposicionou o computador, ajustando o enquadramento para que apenas ele aparecesse na tela. Em seguida, revisou seus arquivos.D
Capítulo 139 - Tela em colapso
"Adoro ver a colheita alheia. Principalmente quando sei que a pessoa plantou veneno e agora quer reclamar do sabor."Quando Helena ergueu o olhar, reconheceu Júlia, uma das colaboradoras do setor de criação, parada à porta com a expressão levemente apreensiva.— Desculpe, não queria atrapalhar.Como a chamada já havia sido encerrada e ainda teriam uma hora de espera, Helena levantou-se sem hesitar.— Não tem problema. Vamos ver do que precisam— disse com naturalidade, seguindo a jovem.Lívia caminhou atrás das duas, em silêncio. Observava a cena com um contentamento quase orgulhoso. Helena se movia naquele espaço com uma segurança tranquila, ouvindo, opinando, sugerindo ajustes como alguém que pertencia ali — e pertencia de verdade. Não havia esforço, nem pose. Apenas competência reconhecida.As pessoas a escutavam. Concordavam. Anotavam. Respondiam com respeito.Lívia sempre soubera da capacidade da amiga, mas testemunhar aquilo — ver outros olhos enxergando o que ela sempre enxergar
Capítulo 140 - Mudança de enquadramento
"O segredo da mudança não é focar na luta contra o velho, mas na construção do novo".O tempo avançava sem qualquer piedade. Minutos que pareciam segundos até que Cássio estivesse novamente sentado ao lado de Riviera, encarando a tela vazia à espera da chamada.Quando a imagem finalmente se iluminou, Helena surgiu do outro lado tão tranquila quanto antes.Tantas vezes fora ele quem se mantivera impassível enquanto ela chorava, implorava, se explicava. Agora, com os papéis invertidos, havia algo dentro dele que não encontrava repouso.Daria tudo para voltar ao que tinham antes. Mas aquela mulher não era mais a mesma — e isso o aterrava. A Helena que estivera em suas mãos não existia mais. A que estava diante dele agora parecia fora de alcance.Ele soltou um suspiro contido, cuidando para que o microfone não denunciasse o caos interno.Lívia não perdeu tempo. O tom era preciso, profissional, quase clínico. — Então? — perguntou. — Qual foi a decisão do seu cliente, doutor Riviera?Rivie