All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 21
- Chapter 30
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Capítulo 21 - Restauração
"Às vezes, é no silêncio depois da queda que a alma encontra o pincel certo para se pintar de novo." Helena estacionou seu Mini Cooper branco sob a sombra generosa das árvores. O motor ainda roncava baixinho quando percebeu algumas crianças brincando na rua quase deserta. Uma delas parou, curiosa com o carro pequeno, e Helena sorriu, afagando o cabelo cacheado de outra que se aproximou risonha. Sentiu, por um instante, o contágio daquela alegria leve que só a infância conhece — livre, ruidosa, inteira. Ficou observando-as correr, até que o eco das risadas se misturou ao som distante do vento.De repente, um arrepio percorreu-lhe a nuca. Uma sensação incômoda de estar sendo observada. Virou-se devagar, varrendo a rua com o olhar, mas não havia ninguém — apenas o silêncio e o farfalhar preguiçoso das folhas. Sacudiu a cabeça, tentando espantar a impressão, e seguiu em frente.Abriu o portão de ferro, e logo percebeu algumas caixas empilhadas ao lado da porta. Abaixou-se para verifica
Capítulo 22 - O primeiro traço
O banho quente lavou o cansaço do dia, deixando o corpo leve, quase flutuante. Helena vestiu um pijama longo, de tecido macio, e sentiu o conforto se espalhar como um abraço silencioso.Na cozinha, colocou o restante da comida que Lívia havia trazido para aquecer. Logo, o aroma do tempero espalhou-se no ar, misturando-se à quietude daquela noite que, enfim, trazia-lhe em paz.Enquanto esperava, deixou a mente vagar — imaginou cortinas claras dançando com o vento, uma poltrona antiga ao lado da janela... pequenas ideias que, como pinceladas, dariam forma ao lar que ela finalmente sentia como seu.O som breve de uma notificação interrompeu seu devaneio. Pegou o celular sobre a bancada. Outra mensagem de Cássio.“Vou precisar fazer uma viagem curta, mas depois de amanhã estarei de volta.”Helena soltou um riso curto, sem humor.“E quem se importa?”, pensou, balançando a cabeça. Não havia espaço para ele ali — nem nas paredes, nem dentro dela.Comeu devagar, aproveitando o som distante
Capítulo 23 - Entre o traço e o tempo
Helena se levantou, esticando o corpo dolorido. O cansaço que não a visitara enquanto pintava finalmente se fez presente. Olhou para seu companheiro, o relógio antigo que pendurou na parede da nova sala: quase seis horas da manhã.Arrastou-se até o quarto e se jogou na cama. Os lençóis enviados por seus pais a envolveram como um abraço silencioso, e, entregando-se ao sono, murmurou para si mesma: “Um dia… só falta um dia.”Dormiu por quase cinco horas — tempo suficiente para que a tinta do quadro secasse ao toque, e também para que a mente repousasse, aquietando-se um pouco.Ao acordar, escolheu um vestido entre os que havia pendurado no guarda-roupa. O tecido macio deslizou pela pele, moldando-se ao seu corpo com a naturalidade de algo feito para ela. As alcinhas finas se amarraram sobre os ombros num gesto distraído, e os botões, um a um, pareciam selar o começo de um dia simples, mas bonito. A cor quente de telha — entre cobre e outono — realçava a suavidade de sua pele e contra
Capítulo 24 - O poder das cores
Santiago acabara de encerrar uma reunião com um jovem e promissor escultor. A sala ainda guardava o cheiro de argila úmida trazido nas roupas do rapaz, que era um daqueles talentos raros que, mesmo na aspereza de uma obra imperfeita, deixa transparecer o potencial de algo grandioso.Ele tinha esse dom: reconhecer a arte ainda escondida no bruto. Foi assim que construiu seu nome e manteve vivos a honra e prestígio do sobrenome Villar, símbolo de excelência entre as galerias, artistas e colecionadores.Havia dias em que se esquecia do peso desse nome — mas, em outros, ele o sentia como uma sombra constante, lembrando-o de que perfeição e controle eram tudo o que lhe restava. Talvez por isso se encantasse tanto pelo espontâneo, pelo que escapava das formas previsíveis.Como já era hora do almoço, acompanhou o rapaz até a saída do prédio. Conversavam de modo leve e cordial enquanto cruzavam a porta de vidro que se abria para a rua ensolarada.Mas, assim que pisou na calçada, Santiago ergue
Capítulo 25 - Primeira camada
“Há momentos que parecem um erro de pincel, mas acabam se tornando o traço mais bonito da tela.” Helena mal conseguia respirar. O coração batia com força contra as costelas, o mundo girava devagar, como se ela ainda estivesse presa no instante anterior ao impacto.Ele estava ali — sob ela — os braços ainda a envolvendo com força, resistindo a soltá-la.Por um instante, nada fazia sentido. Aquele homem com o peito ofegante parecia ter surgido do nada, moldado pelo próprio destino para salvá-la.Ela o observou. Os cabelos desalinhados, o rosto sério, e aqueles olhos — estavam tão próximos que ela conseguia enxergar a cor levemente mais clara em torno da iris cor de mel — intensos e calmos ao mesmo tempo. Percebeu que o encarava por tempo demais, mas não conseguiu desviar o olhar. O tempo parecia se dobrar entre eles.— Você... — tentou dizer algo, mas a voz falhou. Havia um tremor nela, o som de quem quase se despede da vida, mas é trazido de volta por um milagre.A mão dele, ainda
Capítulo 26 - Matizes de esperança
Helena se recompôs no banheiro enquanto Santiago vestia uma camisa limpa em sua sala. O reflexo no espelho revelava suas bochechas ainda coradas e o coração um pouco descompassado. Deveria estar abalada pelo susto, mas, curiosamente, sentia-se mais desperta do que nunca — como se algo dentro dela tivesse sido reanimado, como se o susto lhe tivesse dado mais do que tirado.Ao sair, o encontrou ajeitando os cabelos com as mãos, diante da janela aberta por onde entrava o ar morno do meio-dia. — Está pronta? — perguntou ele, ao vê-la se aproximar.— Sim. — respondeu com um sorriso contido, e, sem pensar, ergueu a mão para ajeitar uma mecha teimosa sobre a testa dele. O gesto saiu natural demais. Só percebeu a intimidade daquilo quando sentiu o olhar dele preso ao seu. O tempo pareceu suspenso por um breve instante — um fio invisível ligando os dois.— Vamos? — murmurou, tentando disfarçar o embaraço e retomar o controle da própria respiração.Ele assentiu com um sorriso breve, e descer
Capítulo 27 - O esboço de algo novo
O carro avançou pelas ruas banhadas de luz. O sol filtrava-se pelas copas das árvores, projetando sombras dançantes no painel.Helena dirigia tranquila, mas o coração insistia em acelerar — cada vez que o via pelo canto do olho, relaxado no banco ao lado, o braço apoiado na porta, a luz desenhando dourados nos fios de seu cabelo.— Onde vamos almoçar? — perguntou ele, num tom casual, tentando quebrar o silêncio que, apesar de leve, carregava tensão demais.— Há um restaurante perto da praça central — disse ela. — Pequeno, mas encantador. A comida é boa e o lugar tem uma varanda com vista para o jardim.— Parece perfeito. — comentou Santiago, sorrindo de canto. — Você parece ter um talento pra encontrar refúgios bonitos.Ela riu, virando a esquina. — Acho que sempre procurei lugares onde o tempo desacelera um pouco.— Entendo bem. — admirou-a discretamente, algo dentro dele o impelindo a dizer que gostaria de ser um desses refúgios para ela, mas se conteve. Queria ir com calma para nã
Capítulo 28 - Camada de Instinto
O sol já havia descido um pouco, derramando um brilho quente pelas calçadas quando eles saíram do restaurante. O ar tinha cheiro de flor e de rua aquecida.Helena dirigia de volta ao escritório, em silêncio, sentindo o vento brincar com seus cabelos. Santiago parecia distraído, mas havia algo pensativo em seu olhar — algo que se misturava entre preocupação e desejo contido.Ao chegarem, ele a fitou por um instante. O silêncio entre os dois pareceu ganhar corpo, denso e confortável ao mesmo tempo. Foi então que ele perguntou, com a voz baixa, quase hesitante: — Naquele dia... no hospital... — fez uma pausa breve, escolhendo as palavras. — você disse que já estava resolvendo as coisas. Conseguiu?Helena o olhou surpresa. Por um instante, o coração perdeu o compasso. Desviou o olhar, tamborilando o dedo no volante, como quem tenta disfarçar um rubor que teima em subir. — Ainda não completamente — respondeu com um sorriso curto, um tanto envergonhado. — Mas falta muito pouco.Santiago
Capítulo 29 – A cor do medo
Silvia entrava no restaurante de um hotel sofisticado ao lado de Cássio, uma das mãos descansando em seu braço em um gesto íntimo demais. Ao entrar todos os olhavam.Com um vestido tubinho vermelho que mostrava os contornos de seu corpo, ainda não aparentando sinais da gravidez, combinando com o batom em sua boca, e uma sandália alta cor de cobre que evidenciava ainda mais as suas pernas.Ela sabia que chamava atenção, o que não sabia é que a atenção que chamava naquele momento não era do tipo que ela apreciava.Cássio era um homem conhecido, e mesmo que ele tentasse a todo custo esconder Helena, os Duarte eram importantes demais, e todos sabiam que ele era casado com a filha deles.E vê-lo ali, exibindo outra mulher em público como se não fosse nada demais, causava certa repulsa nas pessoas.Mas ele aparentemente não notava aqueles olhares condenatórios, muito menos Silvia.Silvia estava se sentindo radiante, conseguirá fazer com que Cássio passasse os últimos dias com ela, ou seja,
Capítulo 30 - As sombras do ciúme
Após o almoço com Silvia, Cássio foi com ela para o aeroporto. Os protótipos da nova coleção de móveis já estavam prontos, mas ele ainda precisava fechar um contrato importante com um fornecedor que garantisse material suficiente para a produção em larga escala.Pouco mais de três horas após o embarque, chegaram ao destino e foram recebidos pelo motorista enviado pelo parceiro de negócios. A reunião se estendeu até bem depois do pôr do sol, mas terminou como ele esperava: com sucesso. Assinaram os contratos, selaram promessas e, satisfeito, Cássio seguiu para o hotel reservado com antecedência.Mal entrou no quarto, o celular vibrou em seu bolso. Ao abrir a mensagem de um número desconhecido, o sangue pareceu sumir-lhe do rosto. Na tela, uma foto de Helena e Santiago almoçando juntos — ela sorria, e aquele sorriso... era o mesmo que há muito tempo não se voltava para ele. A imagem o desestabilizou. Um nó se formou no estômago. Aquilo não podia ser verdade.— Aconteceu alguma cois