All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 31
- Chapter 40
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Capítulo 31 - Autorretrato em ruínas
Cássio ainda não conseguia se acalmar. O som abafado da cidade parecia zombar do turbilhão dentro dele. Tudo o que queria era voltar para casa, ver Helena — mas o destino o mantinha preso ali, num hotel caro, a quilômetros de distância, com a mulher errada.Suspirou pesado, o corpo cansado demais para pensar com clareza, e ainda assim, incapaz de descansar. A simples ideia de voltar para o quarto e encarar Sílvia o enojava. Precisava de ar.Seguiu para o bar do hotel. O ambiente era elegante e silencioso, pontuado apenas pelo tilintar dos copos e pela música de fundo. Escolheu o assento mais distante do balcão e pediu uma dose de uísque. Virou-a de uma vez, sentindo o calor queimar-lhe a garganta e, com um gesto seco, pediu outra.A imagem de Helena sorrindo — na foto, com Santiago — voltava como um soco. Não... ela não podia estar o traindo. Não Helena. Ela era doce demais, pura demais. Mas a dúvida era uma serpente — e ele sentia o veneno se espalhar.E então, de repente, ve
Capítulo 32 – Cores do perigo
“Mesmo na paleta mais calma, há tons que anunciam a ameaça.”Na manhã seguinte, o relógio marcava pouco mais que oito horas quando Santiago ouviu duas batidas leves na porta.Ele levantou o olhar do notebook e, ao reconhecer o rosto familiar, um sorriso cansado se formou.— Ei, Santi! — disse Marcelo, abrindo um sorriso largo ao entrar no escritório.— Fala, meu velho. — Santiago se levantou, e os dois se cumprimentaram com um abraço bruto com bons tapas nas costas, do tipo que só bons amigos dão.Marcelo jogou-se na poltrona à frente da mesa e soltou um suspiro.Santiago percebeu — o semblante do amigo estava diferente, mais sério do que o habitual.— E aí? — perguntou, voltando a se sentar. — O que tem pra mim?O detetive apoiou os cotovelos na mesa, respirou fundo e tirou uma pasta da bolsa que trazia consigo, entregando-a a Santiago.— Você estava certo — disse, com a voz baixa, entregando o material.Santiago pegou a pasta e a abriu, os dedos tensos.Dentro, havia algumas fotográ
Capítulo 33 - Uma vida borrada
A primeira coisa que Cássio sentiu foi o peso.O peso na cabeça, no corpo, no estômago — e o gosto amargo da ressaca, misturado ao vazio de algo que não lembrava direito.Abriu os olhos devagar. A claridade invadia o quarto, ferindo sua vista.Por alguns segundos, não reconheceu o lugar. O teto branco, o abajur moderno, o lençol amarrotado.Então, a lembrança veio em fragmentos: a foto de Helena com Santiago. O bar. O uísque. Depois — nada.Como se alguém houvesse cortado uma parte da sua linha do tempo.Virou-se. Silvia dormia esparramada do outro lado da cama, o lençol mal cobrindo o corpo. O cabelo curto, no ombro, deixando a mostra os contornos de suas costas nuas.Cássio se sentou apoiando os cotovelos nos joelhos, e esfregou o rosto. O quarto girava levemente. Mas logo algo o incomodou. Olhou pela janela, lá fora, o sol já estava alto demais. Algo estava errado.Levantou num salto, o coração disparando.— Droga! — exclamou, procurando o celular.Encontrou-o no bolso da calça, jo
Capítulo 34 - Retoques em falso
“Nem toda imagem pode ser restaurada.”Fragmento de um restaurador anônimoNo instante em que o carro da empresa estacionou na garagem, Cássio pulou do carro. — Preciso resolver umas coisas. Te vejo mais tarde.Sílvia o observou com doçura ensaiada, inclinando levemente a cabeça. — Claro, amor.Ele partiu apressado, os passos ecoando pelos corredores enquanto percebia burburinhos acompanhados de olhares estranhos e recriminatórios. O coração batia num compasso anormal — não sabia se era ressaca ou nervosismo.Ao abrir a porta do escritório, encontrou Renato à sua espera, de braços cruzados, o semblante grave. — Finalmente! — disse o amigo, sem esconder a tensão. — Cara... o que aconteceu com você? Parece acabado.Cássio jogou a pasta sobre a mesa. — Longa história. Bebi demais e perdi o voo. Fala logo o que houve.Renato hesitou. — Acho melhor você se sentar primeiro.— Vai direto ao ponto, Renato — respondeu, impaciente.O amigo soltou um suspiro e pegou o tablet sobre a mesa.
Capítulo 35 - Respingos sob a água
“O recomeço não vem em cores novas, mas na coragem de voltar a misturá-las.”Clarice LispectorO silêncio da manhã tinha um som próprio — o sussurro leve das folhas e o eco distante de um mundo que despertava devagar.Deitada de lado na cama, Helena observava o balançar dos galhos do grande angico-branco do pátio dos fundos. As flores alvas lembravam dentes-de-leão fartos, e suas sombras desenhavam formas móveis nas paredes do quarto.O ar trazia o perfume doce das flores e, de longe, o cheiro familiar de café fresco se espalhava.Finalmente, havia chegado o dia.Um misto de libertação e ansiedade pulsava em seu peito.Ainda restavam boas horas até o evento — horas que ela precisava preencher, antes que a mente voltasse a repassar tudo o que estava por vir.Levantou-se, vestiu uma legging preta, um top discreto e um tênis confortável. Prendeu o cabelo em um rabo alto e respirou fundo diante do espelho. Havia muito tempo que não corria, embora sempre tivesse amado a sensação do corpo e
Capítulo 36 - Pausa entre telas
“Depois do medo, vem o mundo.” Clarice Lispector. Helena pegou o celular que havia deixado no chão e começou a caminhar de volta para casa.O frio que se espalhava pelo corpo contrastava com o calor que ainda ardia no peito. Nunca se imaginou capaz de agir sem pensar. Durante os últimos anos, o medo a havia paralisado: medo de errar, de perder, de ser julgada. Mas, naquela manhã, ela se lançou na água antes que o medo tivesse tempo de falar mais alto. E ali, no meio do caos, compreendeu algo simples e poderoso: a coragem não é a ausência do medo — é o impulso de seguir, apesar dele.Quando chegou em casa, tirou as roupas molhadas e foi direto para o chuveiro. A água quente caiu como um alento. Vestiu uma calça de moletom cinza e uma blusa branca simples, o cabelo ainda úmido preso num coque frouxo. A simplicidade a confortava. Havia beleza em estar à vontade consigo mesma.Ao sair do banheiro, o celular vibrou sobre a
Capítulo 37 - Nuances de zelo
“Cuidar é o gesto mais silencioso do amor — a pincelada que o mundo não vê, mas que sustenta o quadro inteiro.” Santiago estava imerso na rotina do trabalho.A tarde se arrastava entre reuniões, e-mails e a curadoria da nova exposição — uma mostra mista que reuniria jovens artistas promissores.Almoçara ali mesmo, uma refeição simples providenciada por sua secretária. Mal havia terminado quando o celular vibrou sobre a mesa.Era Marcelo. Limpou a boca com um guardanapo e atendeu.— E aí, meu velho? — disse, ajeitando-se na cadeira. — Alguma boa notícia?A voz do amigo veio firme do outro lado da linha:— Boas, sim. Consegui o segurança que me pediu. O nome dele é Pedro. É um militar da reserva das Forças Armadas.— Isso é bom — responde
Capítulo 38 - O Reflexo do caráter
“O espelho mostra o rosto; o desejo, o abismo.” autor anônimo Silvia encarava o celular com um sorriso que beirava o perverso. A manchete brilhava na tela como um troféu. Por mais que Cássio tivesse ordenado ao jurídico que removesse as matérias, o conteúdo já se espalhara feito pólvora.Ampliou a foto, analisando cada detalhe — o ângulo favorecido, o brilho de sua pele, o toque teatral do olhar. Ali estava ela: esguia, elegante, imponente.A mulher que o mundo agora via era tudo o que sempre quis ser — e o fato de Cássio tentar reduzir aquilo a um erro, a uma “interpretação equivocada”, fazia seu sangue ferver.Mordeu o lábio inferior, a voz saindo num sussurro venenoso: — Como pode ele... preferir ela?O nome de Helena pesava como fel em sua língua. “Uma mulher sem graça, sem cor. Frágil. Tão... comum.”A risada que escapou de seus lábios soou mais como o estalo de um vidro rachando. — Não, Cássio
Capítulo 39 - Pinceladas de aparência
“Toda máscara é uma pincelada mal seca sobre o rosto.” Jean CocteauCarlos e Esther já estavam no salão, acompanhados por Viviane. Assim que viram o filho atravessar as portas de vidro, os três se apressaram em sua direção.— Meu filho — disse Esther, os olhos marejados de orgulho. — Está tudo tão lindo... Eu sempre soube que você ganharia o mundo.Cássio sorriu, beijando-lhe a mão. — Obrigado, mãe.Carlos, mais contido, lançou um olhar de aprovação. — Está mesmo impecável, Cássio. Um evento digno da história da empresa. — fez uma pausa breve, medindo as palavras. — Mas... onde está Helena?A pergunta pairou entre eles, cortando o brilho do momento. Cássio hesitou por um instante antes de responder, a voz firme, mas o olhar fugidio: — Ela não estava se sentindo muito bem. Preferiu não vir.O pai trocou um olhar rápido com a esposa — ambos haviam lido as manchetes, sabiam que algo não estava bem. Carlos
Capítulo 40 - Verniz de mentiras
"Nós mentimos para nos proteger. Mentimos para evitar o sofrimento, ou para o causar. Mentimos porque a verdade é um fardo pesado demais para carregar." Patrick Ness Os dois homens estavam lado a lado, cercados por um pequeno grupo de empresários menores, cada um tentando uma fração de atenção.Lorenzo Ricci, de terno branco e lenço escarlate no bolso, gesticulava com elegância natural. O italiano tinha o magnetismo de quem domina o próprio espaço. Ao lado, James Windsor, com o porte firme e olhar analítico, observava tudo em silêncio — o tipo de homem que mede o valor de alguém antes mesmo do aperto de mão.Cássio se aproximou com um sorriso calculado. — Senhores, que honra tê-los aqui. Espero que o evento esteja à altura das expectativas.Lorenzo Ricci foi o primeiro a responder, abrindo um sorriso largo que revelava dentes impecáveis. — “À altura” é pouco, senhor Amaral. — disse, o sotaque italiano tornando ca