All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 51
- Chapter 60
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Capítulo 51 - Rompante de cores
“Antes de se tornar forma, o sentimento é apenas linha — traço tímido entre o desejo e o medo.” Autor desconhecido.Quando Santiago falou, a voz quase não saiu.— Helena… — foi só o que conseguiu dizer. O resto ficou preso entre o peito e a alma.Ela entrelaçou os dedos, levemente tensa. A opinião dele importava mais do que deveria — não só por ele ser um dos melhores avaliadores de arte que já conheceu, mas por um motivo que ela ainda não sabia nomear.— Você pintou isso… recentemente? — ele perguntou por fim, a voz baixa, mas já imaginando a resposta.A imagem do carro se aproximando dela — e do medo que a congelou — atravessou-lhe a lembrança. Mas sabia que a pintura ia além daquilo. Não era só sobre o quase-acidente… era sobre todas as vezes que ela se silenciou e se deixou apagar por causa do medo. Talvez fosse a justificativa para aquela mulher, tão incrível, ter desperdiçado mais de 5 anos ao lado daquele canalha.— No dia em que você me salvou. — respondeu ela baixinho.Ele as
Capítulo 52 - Pintando novos começos
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Clarice LispectorSantiago inclinou-se um pouco mais — devagar, dando tempo para que ela recusasse, se quisesse.Helena não recuou. Talvez tenha sido o vinho… talvez a noite… ou talvez o simples fato de sentir-se livre para fazer suas próprias escolhas. E naquele momento, ela o escolheu.A música Lose control na voz de Teddy Swims, tocava no celular que ele nem se lembrara de pegar na cozinha.Os olhos dela baixaram por um segundo para a boca dele — e isso bastou. Santiago sorriu de leve, quase imperceptível, como quem recebe uma permissão silenciosa.Então, finalmente, a distância desapareceu. Os lábios dele tocaram os dela devagar — não com pressa, mas com cuidado, como quem encosta pela primeira vez em algo precioso.Por um instante, Santiago esqueceu completamente como se respirava. O sabor dela se espalhou devagar — suave, com u
Capítulo 53 - O Homem Diante do Quadro
"Nenhum homem suporta ficar diante de sua própria verdade sem tremer" Albert Camus Na manhã seguinte, Renato já estava há horas no Studio, esperando por Cássio. Mandara mensagens, tentara ligar incontáveis vezes, mas todas as chamadas caíam direto na caixa postal. Andou de um lado para o outro, mãos na cintura, coração inquieto. Algo estava errado. Por fim, não suportou mais esperar. Pegou as chaves do carro e dirigiu até a casa do amigo. O dedo tocou o interfone repetidas vezes, impaciente. Nada. Mas o carro dele estava na garagem. A luz da sala acesa. Renato franziu o cenho, revirou a carteira e encontrou o cartão de acesso da casa. Passou pelo leitor e empurrou a porta. O cheiro pungente de álcool o atingiu como um soco. Olhou a volta, encontrou-o deitado no tapete aos pés de um cavalete. Garrafas de uísque vazias espalhadas no chão — uma delas caída, formando uma poça escura que se infiltrava pelas fibras do tecido. Do quadro à frente, uma mulher, dentre o fogo, parecia ob
Capítulo 54 - Retoques na mentira
"É extremamente fácil enganar-se a si mesmo; pois o homem geralmente acredita no que deseja" DemóstenesOs vidros escurecidos do carro impediram que os flashes dos repórteres captassem seu rosto, mas Cássio ainda assim sentiu o peso de cada câmera e pergunta não dita. Uma fila de jornalistas se amontoava na entrada da garagem e na porta frontal do edifício, esperando — como aves de rapina — que ele cometesse um deslize.— Parecem urubus em cima de carniça — resmungou, em voz baixa.Renato, ao lado, arqueou uma sobrancelha com ironia.— Você está famoso. Não era isso que queria?Cássio apenas bufou, sem ânimo para replicar.Quando o elevador se abriu no andar da diretoria, ele sentiu um alívio breve ao perceber a ausência de funcionários. Estava farto dos olhares de julgamento, da piedade silenciosa, do sussurro quando ele passava. Mas o alívio durou pouco.Ao abrir a porta de sua sala, encontrou sentados ali seus pais, Esther e Carlos, a irmã Viviane… e Silvia. A cena tinha algo quase
Capítulo 55 - Traços de coragem
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice LispectorHelena despertou com a luz suave da manhã atravessando as cortinas e se espalhando pelo quarto em tons dourados. Por um segundo não soube onde estava. Então sentiu — o peso morno de um braço sobre sua cintura, a respiração calma contra sua nuca… e lembrou. Santiago ainda dormia, o rosto tranquilo, os cabelos bagunçados e uma paz que ela nunca tinha visto nele antes.Ela sorriu sozinha. Mas o sorriso morreu rápido.— Merda… meus pais.Santiago abriu um olho, sonolento.— Bom dia pra você também. — Disse aumentando o aperto em sua cintura e puxando-a mais para si.Meus pais, Santiago. Eles disseram que vinham cedo pra me ver. Cedo tipo… agora.Ele piscou, e só então o pânico o alcançou. — Agora?!Os dois se levantaram num atropelo silencioso. Ela procurava uma roupa no armário, ele tentava com dificuldade fechar os botões da camisa ao contrário. Quando finalmente conseguiu ficar minimamente apresentável, ouviu-se
Capítulo 56 - A cor do instinto
"Nunca ignore seus instintos! O fato de você não ver o perigo não significa que ele não esteja lá." Autor desconhecidoAs portas da sala do conselho se fecharam atrás deles com um ruído seco. Cássio caminhava ao lado de Renato pelos corredores silenciosos da diretoria, o paletó nas mãos, a gravata afrouxada e o rosto pálido de exaustão. Duas horas — duas horas tentando conter sócios furiosos, convencer acionistas a esperarem mais três dias e, sobretudo, impedir os sócios de exigirem uma auditoria completa na empresa.Renato foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Você conseguiu segurar eles… mas por quanto tempo? — perguntou num tom baixo, como quem evita ecoar más notícias contra as paredes de vidro.Cássio soltou um suspiro resignado. — O suficiente… eu espero.— E agora? — insistiu Renato.— Agora seguimos com o plano — respondeu, firme, embora o olhar denunciasse o cansaço. — Sei que estou pedindo demais, mas… pode ver com o Sampaio se ele conseguiu fechar com a equipe criativa?
Capítulo 57 - Camadas obscuras
“Nem toda camada revela. Algumas apenas encobrem — até que a verdade transborde pelas rachaduras.”Renato caminhava pelo corredor principal do Studio, o blazer pendurado no antebraço, a na mente a imagem de Cássio se afundando mais um pouco a cada decisão. Quando chegou à sala de reuniões menor — a que costumavam usar para entrevistas e contratações — viu que a equipe recém-chegada já aguardava.Eram quatro profissionais — designers externos, freelancers conceituados no meio criativo. Trazidos às pressas por Sampaio, como ordenara Cássio. Portfólios sob o braço, olhares atentos, curiosos… e desconfiados.— Bom dia — Renato cumprimentou, abrindo a pasta sobre a mesa. — Obrigado por aceitarem vir com tão pouco tempo de aviso. Estou ciente de que todos têm compromissos importantes. Mas… a situação exige urgência.Uma das designers, de cabelos grisalhos modernos e postura firme, cruzou os braços. — Sabemos que querem uma nova coleção em tempo recorde — disse. — Mas o briefing veio… incom
Capítulo 58 - Tons de confidências
“Amigos são irmãos que a vida nos dá de presente.”O final da tarde trouxe um silêncio acolhedor à casa de Helena. Depois de despedirem-se, restaram apenas Helena e Lívia. O sol que se punha lançava feixes de luz alaranjados no quarto.Lívia estava esparramada na cama, de barriga para cima, com um pote de pipoca apoiado sobre o abdômen. Jogava alguns grãos para o alto sem muita precisão, só para matraquear os nervos. Do outro lado da cama, Helena, recém-saída do banho, sentava-se com as pernas cruzadas. Vestia um vestido branco de algodão leve, de alcinhas finas e botões de madrepérola na frente. O tecido marcava de leve as curvas e deixava os ombros úmidos à mostra. Enquanto desembaraçava os cabelos ainda molhados com os dedos, evitava deliberadamente encarar a amiga.— Para de me enrolar — resmungou Lívia, jogando duas pipocas em direção a Helena. — Desembucha logo!— Eu não sei do que você está falando… — respondeu Helena, tentando manter a serenidade.— Não se faça de sonsa! — Lív
Capítulo 59 - O esboço da lealdade I
“A lealdade como crença, A disciplina como valor. A coragem como hábito. A missão como destino.” C. Op. Esp.Santiago estacionou o carro em frente à casa de Helena. As luzes amareladas dos postes recortavam a rua de paralelepípedos, projetando sombras alongadas e ressaltando as imperfeições do calçamento. Um pouco adiante, na pequena praça do bairro, alguns senhores jogavam cartas enquanto senhoras conversavam distraidamente. Duas crianças ainda corriam pela rua, insistindo em prolongar a brincadeira, enquanto outras obedeciam ao chamado das mães que ecoava das janelas: era hora do jantar. Aquele lugar tinha algo de antigo, quase suspenso no tempo — um recanto acolhedor em meio ao caos barulhento da cidade.No banco do carona, Mabe observava atentamente.— Vai ser difícil ficar longe de você… — sua voz saiu baixa, quase um segredo. — Mas eu preciso que cuide dela por mim. Consegue fazer isso?Os olhos dela brilharam em aprovação.Eles desceram do carro. Antes de abrir o portão de fer
Capítulo 60 - Quadro inerte
"Na inércia é o único lugar que não há movimento. Lá, nem os mortos descansam." - Isabel MirandaA noite já dava seus sinais quando Cássio retornou da fábrica. Não passou pela sua sala, seguiu direto para o antigo depósito reformado às pressas — agora, a sala da nova equipe de design.A porta se abriu com um ruído baixo. Lá dentro, quatro profissionais trabalhavam em silêncio: lápis riscavam papéis, telas de computador exibiam estruturas metálicas e amostras de metal. Nenhum sorriu; profissionalismo frio, quase clínico. Ao perceberem sua presença, todos se levantaram.— Boa tarde — cumprimentou Cássio, a voz contida. — Antes de começarmos, poderiam se apresentar?A primeira a falar foi a mulher de cabelos grisalhos. O rosto firme, sem maquiagem excessiva, e a postura de quem já comandou salas inteiras.— Joana Fletcher. Pós-graduada em design mobiliário e direção criativa pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Trabalhei anos com renovações de marcas tradicionais que perderam identid