All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 61
- Chapter 70
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Capítulo 61 - Vigília Sobre a Moldura
"O silêncio da noite só é tranquilo para quem não sabe o que se esconde atrás dele."Santiago estacionou duas quadras adiante. Vestiu um casaco de moletom escuro, colocou um boné até quase cobrir os olhos e pegou uma mochila no banco de trás. Não queria chamar atenção. Voltou a pé, atento ao movimento da rua — poucos carros, janelas fechadas, luzes acesas atrás de cortinas antigas. Quando parou diante do sobrado, respirou fundo.Empurrou o portão de ferro com cuidado, mas o metal respondeu com um rangido agudo, como se protestasse por ser acordado depois de anos. A dobradiça cedeu, fazendo a parte inferior do portão descer torta e quase se soltar.— Merda… — resmungou, levantando o portão com as duas mãos para conseguir fechá-lo outra vez.O jardim da frente mal podia ser chamado de jardim. Pequenos canteiros, antes delimitados por pedras brancas, agora estavam cobertos por mato alto, terra rachada e umas três margaridas teimosas sobrevivendo entre o descuido. A garagem, logo ao lado,
Capítulo 62 – Nuances de uma teia
“A coisa nenhuma deveria ser dado um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme.” Virginia WoolfNa madrugada, de repente, Mabe ergueu a cabeça que estava apoiada nas pernas de Helena. As orelhas atentas, como se tivesse escutado algo.A mudança sutil de postura foi suficiente para despertar a mulher.— O que foi, menina? — murmurou, a voz arrastada de sono.A cadela não latiu. Apenas pulou da cama e caminhou devagar até a sala.Helena jogou, relutante, as pernas para fora da cama, se obrigou a levantar e segui-la. A pastora foi até a janela fechada e sentou-se, firme como uma sentinela. Olhava-a com os olhos concentrados, atentos a algo que Helena não conseguia ver.— Não tem nada lá, bobinha — tentou brincar, embora um arrepio frio lhe subiu pela espinha.A rua estava em silêncio, mas havia algo diferente nele. Não era barulho — era ausência. Ausência de som, de vento, de vida. Como se a noite inteira estivesse… ouvindo.Mabe continuava alerta, mas não em posição de ataque —
Capítulo 63 - Uma moldura vazia
“Existem casas impecáveis e corações inabitáveis.” Autor desconhecidoCássio acordou com o corpo pesado e a mente turva no quartinho do escritório. Embora não tivesse bebido novamente, a ressaca do dia anterior ainda latejava por dentro. Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu o primeiro terno limpo que encontrou.Por ser sábado, a empresa estava praticamente vazia. Já estava há quase três horas com a equipe de criação, acompanhando esboços, ouvindo ideias e tentando manter o controle da própria ansiedade, quando o celular vibrou sobre a mesa. Na tela: "Mãe".Atendeu.— Oi, mãe.— Meu filho… você vem almoçar com a gente hoje, não vem?Ele hesitou, massageando a testa.— Não sei se consigo. Estou bem ocupado aqui.— Mas você vai ter que parar pra comer de qualquer jeito — insistiu ela, com aquela doçura que não admitia recusas. —Venha. Estamos te esperando.Cássio suspirou.— Está bem.Desligou.Cerca de uma hora depois, estacionava em frente à casa dos pais. O portão estava entrea
Capítulo 64 - A tensão do pincel
“Há momentos em que não saber é a única forma de continuar pintando a vida em tons claros.” Autor desconhecido O sol da manhã começava a tocar o quintal com uma claridade branda. Helena ainda estava de pijama, os cabelos presos de qualquer jeito, e um echarpe de tricô caía preguiçosamente sobre os ombros. Sentada num toquinho de madeira, segurava uma xícara de café ainda fumegante, observando o jardim que começava a despertar.As poucas árvores do fundo da casa formavam copas generosas que balançavam ao vento, e ela imaginava o que poderia fazer com aquele espaço — talvez pendurar uma rede entre dois troncos para ler ao fim da tarde, colocar uma mesinha com cadeiras de ferro, ou quem sabe construir um pequeno pergolado coberto de flores trepadeiras. Era bom poder sonhar com o futuro.Mabe, já satisfeita depois de esvaziar o pote de ração, corria livre entre as folhas secas, farejando o chão e perseguindo uma borboleta teimosa. A cadela pulava, errava o alvo, voltava, tentava de novo
Capítulo 65 - Um quadro que respira
Helena continuava diante da tela, o pincel firme, o olhar concentrado. O som da porta da frente se abrindo e fechando várias vezes já era um eco distante; até o vento parecia conter a respiração.Mabe estava deitada ao lado, o focinho apoiado sobre as patas, observando-a em silêncio — como se também compreendesse o que nascia ali.A primeira forma surgiu devagar, como se Helena a arrancasse de dentro de si. Tons azulados dominavam o fundo — não o azul sereno do céu, mas o frio e profundo da água.No centro, começava a se formar o contorno de uma mulher. Indefinida. O rosto ainda oculto, como se emergisse de um outro mundo.Helena mergulhou o pincel em um tom prateado e o deslizou sobre a tela, fazendo a luz nascer em pinceladas marcadas propositalmente. A figura ascendia — depois de muito tempo submersa, rompia a superfície e respirava. Cada pincelada era um fôlego novo. Um recomeço. A tradução exata da mulher que, por tanto tempo, tentara não se afogar dentro de um amor que a
Capítulo 66 - Cor e ausência
“Algumas cores continuam a brilhar mesmo quando o pintor abandona o quadro.” Autor desconhecido Assim que o almoço terminou, Cássio se levantou com a urgência de quem precisa escapar — ou talvez apenas respirar longe de tudo aquilo.Olhou para o Rolex no pulso, um gesto automático, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça: — Eu preciso voltar.Silvia levantou-se quase no mesmo instante, ajeitando o vestido. — Eu vou com você. Quem sabe posso ajudar em alguma coisa.Ele parou por um breve segundo, antes de responder com uma calma cortante: — É melhor não. Você não entende de design… e, sinceramente, seria mais uma distração do que uma ajuda.O sorriso dela não se desfez, mas o brilho nos olhos mudou. — Você tem razão — respondeu, doce e controlada.Mas, por dentro, o ressentimento se transformava em chama. Cada migalha de frieza que recebia dele era mais um galão de combustível sobre o rancor que ela cultivava em silêncio. Helena já era carta fora do baralho, então o que ai
Capítulo 67 - Rasgo na superfície
“Toda pincelada que sobrevive ao caos torna-se traço de força — é na desordem que o artista encontra a própria essência.”Pedro observava de longe, à sombra de uma amendoeira.Usava um boné surrado e óculos escuros que o deixavam com o ar de mais um frequentador qualquer do parque. O celular vibrava discretamente em sua mão — ele já o segurava antes mesmo da tela acender.Santiago: “Está tudo bem?”A mesma mensagem, pela terceira vez.Pedro respirou fundo antes de digitar.Pedro: “Acho que ela foi reconhecida. Ainda não tenho certeza, mas alguns começaram a filmar.”Segundos depois, a resposta.Santiago: “Estão se aproximando?”Estreitou os olhos, observando a distância.Pedro: “Ainda não. Mas o movimento está aumentando. Estou de olho.”Ela, alheia a tudo, atirava pedrinhas no lago, rindo de Mabe que parecia tentada a pular na água para pegá-las. A cena era serena demais — e justamente por isso, perigosa.Pedro respirou fundo.O som do vento nas árvores abafava o murmúrio da multidão
Capítulo 68 - Pigmentos sombrios
“A escuridão não chega de repente. Ela se acumula, camada por camada, até que nada mais seja visível.”Cássio dirigia como quem despenca em uma montanha-russa sem freios. As ruas passavam em borrões disformes, os semáforos se misturavam a fachadas e reflexos, e o som do motor era o único fio que o prendia à realidade. Quando se deu conta, uma fileira de carros parados surgiu diante dele. Pisou no freio com força — os pneus gritaram contra o asfalto. O carro parou a centímetros do para-choque à frente.Arfou, o coração em desordem, as mãos suadas coladas ao volante. Por um instante, olhou ao redor sem reconhecer o próprio trajeto. Havia se desligado de si — não sabia por quanto tempo, nem para onde o instinto o guiara. Só sabia de que não perderia Helena. Ela não podia simplesmente sair de sua vida como se ele não significasse mais nada.Pegou o celular com mãos trêmulas e procurou um nome na lista de contatos, Gustavo Riviera, advogado e chefe do setor jurídico da empresa. E, mais
Capítulo 69 - A paz escapa do pincel
Lívia se levantou da cadeira, esticando as costas com as mãos apoiadas na lombar, tentando aliviar a tensão de ficar tanto tempo sentada. Mantivera-se ocupada desde cedo atendendo a clientes sem nem mesmo parar para almoçar.A mesa à sua frente estava coberta de pastas, contratos e canetas abertas — um retrato perfeito de quase um dia inteiro de trabalho.Suspirou, caminhando até a janela. A vista verde agraciava-lhe — o extremo oposto do parque, em direção à casa de Helena. E foi o bastante para o nome dela atravessar-lhe o pensamento como uma brisa morna.Helena.Um sorriso pequeno e nostálgico se formou em seus lábios. Um aperto suave no peito acompanhou a lembrança. Devia muito àquela mulher.Quando a conheceu, anos atrás, Lívia era apenas uma advogada júnior dividindo uma sala abafada com vários colegas em uma firma barulhenta.Trabalhara como uma louca, movida por ambição e justiça em igual medida, mas o reconhecimento parecia sempre reservado aos homens — os “promissores”, os “
Capítulo 70 - Camadas de descontrole
“A loucura, às vezes, é apenas a insistência em corrigir o que já foi concluído.” NietzscheCássio seguia rumo ao Grupo Ferreira, o volante firme entre as mãos, o corpo rígido, o olhar fixo em nada. O telefone vibrava sem parar no banco ao lado — a cada segundo um nome diferente piscava na tela: mãe, irmã, pai.Ele apenas estendeu a mão e desligou o aparelho. Não queria falar. Não queria ouvir cobranças, nem sermões, nem a velha ladainha sobre imagem, reputação e controle. Controle. A palavra soava quase como uma ironia agora.Algum tempo depois, o prédio surgiu à frente, impassível, com suas linhas retas e vidros refletindo o entardecer — sólido e frio, como se o mundo lá dentro seguisse indiferente ao caos que se desenrolava dentro dele.Quando empurrou a porta do escritório de Renato, o amigo estava sentado à mesa, o celular na mão, o rosto indecifrável. O som do vídeo escapava do aparelho — as vozes do parque, os gritos, o nome dele repetido por curiosos. Cada eco era uma punhala