All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 71
- Chapter 80
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Capítulo 71 - Paz diluída
“A paz exige uma luta contínua.”Após Lívia se acalmar, Helena terminou de contar o que havia acontecido. A voz soava controlada, mas havia um lado dela que estava quase aos berros de tanta frustração. Havia sido ingênua — achara que bastava ir embora, assinar papéis, fechar portas, para se ver livre de Cássio e da prisão que fora seu casamento. Mas finalmente teve que encarar o quão grande havia sido seu engano.Consuelo acariciou-lhe as costas num gesto maternal. A palma quente contrastava com o frio que ainda vibrava sob a pele da filha.— Filha... — começou, a voz mansa, hesitando entre firmeza e ternura. Pousou a outra mão sobre a de Helena, entrelaçando os dedos como quem tenta segurar o que ainda resta. — Você fez o que precisava ser feito. — Prosseguiu, encarando-a com aquele olhar que parecia atravessar as defesas. — E eu tenho orgulho de você, entendeu? Nenhuma mulher que escolhe recomeçar deve se envergonhar disso.Helena assentiu, sem conseguir responder. A garganta aperta
Capítulo 72 - Contornada de afeto
“Toda paz exige uma mão firme, um traço decidido e a recusa em ser apagada.” Ao voltarem para dentro da casa, encontraram o ambiente mais silencioso. Pedro já havia se retirado, voltando discretamente ao sobrado vizinho. Queria dar privacidade à família — e também verificar se não havia mais movimentação na rua.Na cozinha, Aurora terminava de guardar algumas louças e panelas novas, enquanto, na sala, Helena estava encolhida no sofá, a cabeça apoiada no ombro da mãe.Os olhos dela estavam distantes, frios, como Lívia nunca tinha visto — e aquilo a preocupou imediatamente. Santiago também percebeu; o peito dele apertou, uma sensação de alguém torcendo o próprio coração entre os dedos.Lívia se aproximou, ajoelhando-se à frente da amiga. Segurou-lhe as mãos com firmeza, como quem ancora um barco prestes a ser arrastado pela correnteza.— Não se preocupe — disse com suavidade. — Nós vamos dar um jeito em tudo isso.Helena assentiu, mas o rosto continuou inexpressivo, quase uma máscara.
Capítulo 73 - Miscelânea de enganos
“Pior do que perder alguém, é perder a si mesmo.” Jerley SoaresCássio piscou algumas vezes, tentando afastar o peso do sono. A visão estava turva, a cabeça latejava — como se tivesse acordado dentro de um corpo que não reconhecia.Levantou o olhar, ainda confuso, e deu de cara com o quadro de Helena encostado na parede, exatamente onde o deixara na noite anterior.A respiração dele travou.O coração deu um salto breve — um reflexo, um eco, um engano cruel.Sentiu o peso de um braço envolvendo sua cintura, quente e frouxo em torno dele, como tantas vezes havia sentido antes… quando era Helena quem dormia enroscada em suas costas, buscando-o mesmo nos dias em que mal se falavam.Virou-se rápido, o nome escapando num sussurro desorientado:— Helena?Mas a imagem que encontrou não foi a que sua mente desesperada ainda tentava chamar de volta.Era Silvia.Dormindo tranquila ao lado dele.No lugar dela.Na cama que ele dividira por anos com a mulher que jurava amar.Um suspiro baixo escapo
Capítulo 74 - Entre travessuras, travesseiros e pinceladas tortas
“Entre uma pincelada e outra, o destino adora meter um pincelzão no meio.”Helena acordou com um sopro quente batendo em seu rosto. Piscou algumas vezes, tentando entender de onde vinha aquele bafo morno, e quando virou a cabeça, quase levou um susto: o rosto de Lívia estava colado ao dela, a amiga esparramada sobre sua cama como um polvo emotivo — um braço e uma perna jogados por cima do seu corpo. Mabe, por sua vez, ocupava seu outro lado, olhando-a curiosa.Helena empurrou Livia com o cotovelo, rindo.— Ei! Vai babar pra lá!Lívia resmungou, ainda mergulhada no sono, e — como uma criança teimosa — voltou a abraçá-la, se enroscando toda de novo.— O que agora? Tá carente? — provocou Helena.— Não posso abraçar minha melhor amiga? — choramingou, a voz abafada pelo travesseiro.— Pode… mas você precisa urgentemente arrumar um namorado. Quem sabe assim me deixa respirar um pouco.— Ah, por favor. Eu estou te protegendo, esqueceu? — retrucou, dramática. — Sou oficialmente sua protetora
Capítulo 75 - Entre tons de loucura
"O ciúme é um monstro que se gera e se alimenta de si mesmo." William ShakespeareComo prometido, assim que Cássio saiu, Silvia tornou a ligar para Márcio. Ele atendeu com o humor curto de quem já previa o tom da conversa.— Está ligando pra desligar na minha cara de novo? — resmungou, seco.Silvia inspirou fundo, tentando domar a impaciência.— Eu preciso que você cuide dela.Ela não mencionou o nome. Não precisava. Márcio já sabia. Tinha visto a cena ridícula de Cássio no parque — o espetáculo patético transmitido para a cidade inteira. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, Silvia tocaria no assunto.— Pensei que tivéssemos combinado de esquecer isso. — disse ele, agora num tom mais denso, desconfiado.— Eu até estava disposta a deixar pra lá… — Silvia respondeu, apertando o celular entre os dedos. — Mas parece que ela está disposta a morrer.Silêncio momentâneo.Depois, a voz de Márcio veio carregada de ironia amarga:— Você sabe que foi ele quem foi atrás dela, não sabe?A mandíbula
Capítulo 76 - Dois esboços, uma tela
“Dois caminhos podem ser distintos… até que o artista decide pintá-los na mesma tela.”Santiago deu partida no carro, indo na frente por conhecer bem o caminho. No retrovisor, Pedro seguia logo atrás — com Lívia provavelmente falando sem parar ao lado dele.No banco de trás, Mabe parecia excessivamente confortável, sentada como uma princesa canina, a cabeça erguida e o rabo abanando como se fosse a melhor manhã da vida.Helena olhou para a cachorra com a sobrancelha arqueada, depois voltou-se para Santiago, cruzando os braços de forma suspeita.— Então… essa mocinha aqui atrás passa mal? — perguntou, com um tom de deboche doce.Santiago tentou manter a expressão séria. Falhou em dois segundos. A risada escapou, leve, deliciosa, arejada como um sopro fresco em meio ao verão.Aquela risada…Helena sentiu o peito travar um instante. Era indecente uma pessoa ser tão bonita rindo daquele jeito.Ele virou o rosto rapidamente para olhar pra ela — e voltou os olhos à estrada como quem tenta
Capítulo 77 - Pincelada de horizonte
“Alguns lugares são mais que terra: são camadas de quem fomos e de quem podemos ser.”A mudança na paisagem aconteceu devagar, como se o mundo se abrisse passo a passo para ela. Primeiro, os prédios foram rareando; depois, deram lugar a casas pequenas, espaçadas, cada vez mais distantes umas das outras. E então, de repente, tudo se dissolveu numa imensidão verde que parecia não ter fim.Helena encostou-se à janela, sentindo o vento brincar com os fios de cabelo que escapavam do lenço. O pano amarrado à nuca balançava suavemente; alguns fios soltos chicoteavam seu rosto de leve, provocando cócegas que a faziam sorrir sem perceber.Santiago dividia sua atenção entre a estrada e ela — e perdia, sempre, para ela. Havia algo no jeito como ela observava tudo do lado de fora, tão entregue, tão maravilhada, que mexia com ele em lugares que não tinha coragem de confessar. O sorriso dela parecia carregado de luz, sem nenhum vestígio da tensão do dia anterior.Alívio. Não completo. Nunca compl
Capítulo 78 – Esboço de um nós
“Zelar é a forma mais antiga do amor.”Pedro e Lívia avançavam lado a lado — ou melhor, lado a trancos — enquanto ela resmungava indignada, ele caminhava com a calma irritantemente impassível de quem estava conduzindo uma diplomata explosiva prestes a declarar guerra ao país errado.Quando chegaram ao alpendre, Olívia abriu um sorriso tão largo que parecia abraçar os dois ao mesmo tempo.— AH! — exclamou ela, batendo palmas. — Os reforços chegaram!Lívia tentou abrir um sorriso educado, mas parecia mais alguém prestes a morder um cabo elétrico.— Reforços é uma palavra ótima — murmurou, lançando um olhar de morte para Pedro.— Bom dia, senhora. — Pedro cumprimentou com uma reverência respeitosa.Olívia o analisou de cima a baixo com o olhar clínico de quem avalia cavalos de raça. — Santo Deus… — disse, piscando os olhos. — Você é grande. Meu neto quase parece um frango perto de você.Santiago, a alguns passos atrás, gargalhou alto.Pedro soltou apenas um “sim, senhora”, com expressão
Capítulo 79 – A linha do que se sente
“Alguns corações protegem antes mesmo de admitir que pertencem.”Helena o encarava com apreensão — os olhos grandes, tensos.Então Santiago tomou sua mão na dele. A voz saiu baixa, firme, mas tremendo nas bordas.— Primeiro… eu quero que você entenda uma coisa. — Ele respirou fundo. — Nada do que eu fiz foi com a intenção de esconder algo de você. Eu só… não queria que você se preocupasse ainda mais.A expressão dela não mudou de imediato. Mas ela assentiu devagar, incentivando-o a continuar. E ele continuou. Falou tudo. Tudo de uma vez. Quase sem respirar.Quando terminou, soltou o ar como se tivesse carregado o peso do mundo por semanas. — E é isso. — murmurou, observando cada nuance do rosto dela, desesperado para adivinhar o que se formava ali.Helena, porém, não falou. Nem se mexeu. Apenas desviou o olhar para o horizonte — a testa levemente franzida, o semblante fechado. Ele sentiu o coração se partir um pouco, como se estivesse rachando no ritmo lento da respiração dela.Ma
Capítulo 80 - Uma tela preservada
"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira." Cecília MeirelesHelena repousou a cabeça no peito dele, e Santiago a envolveu com os braços como se aquele gesto fosse tão natural quanto respirar. Uma das mãos dele deslizava devagar pelo braço dela — para cima, para baixo — num afago lento, constante, quase hipnótico. O ritmo era tranquilo, sem pressa, e transmitia uma paz antiga… como se aquele abraço fosse algo que tivessem praticado a vida inteira, mesmo que só existisse há poucos dias.Havia um conforto ali. Um pertencimento suave, silencioso, perigoso.E talvez fosse exatamente essa sensação — tão boa, tão plena — que fazia o medo latejar no peito de Helena. Ela já tinha acreditado demais no passado. Já tinha se enganado demais. A ideia de se entregar outra vez, de abrir o coração e sangrar, a apavorava mais do que qualquer outra coisa naquele momento.Santiago sabia disso. Sentia isso. Ele percebeu a hesitação dela desde o primeiro dia. E, dentro dele,