All Chapters of Quadros de um divórcio: Chapter 81
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Capítulo 81 - Sobreposições de afeto
"Alguns encontros são sementes. O resto… é tempo, coragem e a delicadeza de saber esperar a estação certa." O quadriciclo desacelerou até parar diante do galpão, o motor vibrando como um ronronar preguiçoso antes de morrer por completo. Helena retirou o capacete, ainda sorrindo com a adrenalina, enquanto Santiago descia primeiro para abrir a grande porta de madeira. O barulho das dobradiças ecoou pelo espaço. O interior do galpão estava tomado pelo cheiro de óleo, madeira antiga e sol quente filtrado por frestas altas. Os dois quadriciclos que Pedro e Lívia tinham usado já estavam alinhados ali dentro — o que significava que eles haviam voltado antes. Helena franziu a testa. — Estranho… — murmurou. — Eles deviam estar aqui fora.Foi então que um pequeno ruído abafado veio de trás de prateleiras cheias de ferramentas e caixas antigas.Santiago ergueu uma sobrancelha. — Isso soa… suspeito.Helena deu um passo à frente, aprumando a voz: — Lívia?Silêncio. E então — passos rápidos
Capítulo 82 - Uma maleta de pintura
“Se a vida fosse um quadro, certamente teria umas pinceladas tortas e um casal tropeçando nas cores.”A tarde avançou preguiçosa, dourada, e todos decidiram passear juntos pela propriedade. Olívia foi à frente, conduzindo o grupo com a alegria de quem conhece cada centímetro daquela terra e faz questão de exibi-la.Passaram pelos estábulos, onde o cheiro de feno fresco se misturava ao sol quente. Santiago assobiou — um som curto, certeiro — e, poucos segundos depois, um alazão surgiu correndo, crina ao vento, como se tivesse reconhecido o dono no mesmo instante.Helena abriu um sorriso encantado. — Meu Deus… ele é lindo.Santiago meteu a mão no bolso, tirando um torrão de sal amarrado a uma fita com a naturalidade de quem faz aquilo todos os dias.— Você vai estragar esse cavalo — reclamou Olívia lá de trás. — Mima esse bicho mais do que muita gente mima filho.— Ele merece — Santiago retrucou, oferecendo o sal ao animal, que aceitava com a doçura de um gato gigante com corpo de cava
Capítulo 83 - Tons de proteção
"A prudência é a mais vigilante e a mais segura das virtudes." François de La RochefoucauldQuando retornaram, Olívia os esperava no alpendre, sentada em sua cadeira de madeira, balançando devagar como se estivesse embalando o final de um dia longo e perfeito. Mabe disparou entre eles, correndo em zigue-zague de pura animação.— Olha essa criatura! — riu Olívia. — Parece que tomou café com açúcar.Santiago abriu um sorriso cansado e feliz. — Ela amou o passeio. — comentou.Mabe correu direto até Olívia, deitando de barriga para cima, como quem exige carinho imediato. A senhora, rindo, se inclinou com dificuldade para coçar sua pança. — Você sim sabe aproveitar, menina — falou para a cadela, que abanou o rabo como resposta.Helena, observando a cena, sentiu o peito aquecer.— Já vão? — perguntou ela, com aquela voz doce que sempre parecia um convite para ficar só mais um pouquinho.Santiago se aproximou e se agachou ao lado dela, apoiando a mão no braço da cadeira. — Amanhã cedo te
Capítulo 84 - Traços em contraluz
“Nada pesa tanto quanto aquilo que tentamos esconder de nós mesmos.”A noite avançava, e não havendo mais motivo para permanecer ali, Lívia resolveu ir embora. Ela inspirou fundo e começou sua rodada de despedidas.Primeiro, apertou a mão de Marcelo.— Foi bom te ver aqui.Depois, envolveu Helena num abraço apertado. A amiga se sentiu pequena nos braços dela, mas estranhamente mais forte. — Se precisar de mim, eu venho correndo, entendeu? — disse, com a voz inesperadamente suave. Santiago se aproximou para a despedida e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Lívia apontou o dedo para o peito dele, com a postura de uma advogada prestes a destruir um réu no tribunal: — E você… trate de cuidar bem dela. Tô falando sério. Se fizer ela sofrer… eu te processo em todas as instâncias possíveis. Invento umas novas, se precisar.Santiago ergueu as mãos em rendição, bem humorado. — Eu prometo. — Promessa registrada. — murmurou ela, estreitando os olhos, mas o sorriso não conseguiu se
capítulo 85 - Falsificação emocional
“Existem noites em que somos apenas o molde onde alguém tenta encaixar o amor que sente por outra pessoa.”Silvia passou boa parte do dia circulando pela casa como um fantasma impaciente, abrindo portas, gavetas, caixas e armários com uma fome que ela mesma desconhecia. Não queria admitir, mas procurava por algo — qualquer coisa — que explicasse o apego quase patético de Cássio por aquela mulher.Algo que a ajudasse conquistá-lo de vez.Uma foto.Uma peça de roupa esquecida.Uma lembrança caída em algum canto.Mas não encontrou nada. Cada gaveta era um vazio. O banheiro tinha apenas seus próprios cosméticos — nenhum vestígio de outra presença.O closet, impecável, metade masculino, metade vazio.A sala… neutra. A cozinha… limpa.Silvia franziu o cenho, desconcertada.Ou Helena havia levado tudo quando foi embora… ou Cássio nunca permitiu que ela deixasse qualquer rastro ali.O que, de um jeito distorcido, dizia mais do que qualquer lembrança poderia dizer.Seja qual fosse a resposta,
Capítulo 86 - Entre luz e pele
“A verdadeira pintura é sentir.” Paul CézannePela segunda vez, Santiago despertou descobrindo que a realidade podia ser melhor que qualquer sonho. Helena estava ali, aninhada ao seu lado, usando o braço dele como travesseiro, o rosto encaixado na curva do seu pescoço como se aquele fosse o lugar exato onde ela pertencia.A respiração quente que roçava sua pele era a prova mais doce e incontestável de que nada daquilo era ilusão — era real, vivo, presente. Assim como o peso leve do corpo dela colado ao seu, encaixado como se tivesse sido moldado para estar ali.Santiago permaneceu completamente imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar o encanto e despertá-la. Tudo o que ele mais queria era prolongar aquele instante — aquela quietude rara, aquele calor tranquilo — por mais alguns minutos.Inspirou devagar, captando o cheiro dela, e imediatamente as lembranças da noite anterior percorreram seu corpo como um arrepio lento, reacendendo cada detalhe gravado em sua pele. ...Quan
Capítulo 87 - Paleta de tons frios
"Quem tenta moldar a vida do outro a força, termina rachando a própria tela." Cássio despertou devagar. O outro lado da cama estava vazio. Diferente da noite no hotel, ele lembrava com clareza cada detalhe da noite anterior. Não havia confusão, nem dúvida. Apenas constatação. Se não fosse pelo bebê, seria fácil se livrar de Silvia. Mas nessa situação, ainda que ela fosse um empecilho, um filho ainda era um filho.Por outro lado… tê-la por perto até que era conveniente — pelo menos por enquanto. Ela era compreensiva, maleável, disposta. Contando que não causasse problemas, poderia permanecer ali por enquanto.E quando chegasse o momento de Helena voltar, ele simplesmente a mandaria embora. Poderia até encaixar a abertura da filial nesse processo — um presente de despedida que a colocaria bem longe dali.Porque, na cabeça dele, era só questão de tempo. Helena voltaria.E ele tinha absoluta certeza de que ela ainda o amava — aquilo não mudava do dia para a noite.Aquela resistência… a
Capítulo 88 - Cores obscuras
"Não há pincelada inocente quando a mão que pinta está manchada."Enquanto Cássio falava à imprensa, Silvia assistia de longe, ao lado da equipe de assessoria — braços cruzados, o olhar fixo nele.Quando ele desceu naquela manhã, tão arrumado, tão seguro de si, ela havia acreditado — ainda que por um segundo — que tudo daria certo.Quando ele começou a falar, ela até sentiu um impulso infantil de vibrar ao ouvi-lo responsabilizar Helena, de chamá-la de instável, frágil, emocionalmente desequilibrada.Mas então ele soltou a palavra “esposa.”Silvia piscou devagar, incrédula. “Que merda esse imbecil estava fazendo?” O pensamento veio afiado, quente, sem espaço para suavidade.Mas ele continuou. Repetiu a mesma insanidade — a mesma maldita ideia que tinha dito no parque — sobre pedir a anulação do divórcio. Sobre “acolher” Helena. Sobre “cuidar” dela.Depois de tudo que havia feito, sentiu-se uma piada. Cássio ainda se agarrava à outra. Ainda era nela que ele pensava — e Silvia sabia di
Capítulo 89 - A tela agora é minha
“O maior erro é deixar que outros definam seus contornos.” Henri MatisseQuando Santiago estacionou diante da casa de Helena, lançou um olhar rápido para a fachada do sobrado ao lado e, com um gesto discreto, avisou Pedro — que aparecera na janela — para descer e juntar-se a ele. O segurança assentiu.Marcelo não estava por ali; tinha ido à agência resolver pendências.Provavelmente, quem quer que estivesse atrás de Helena já havia percebido que a casa ao lado estava ocupada. Se sabiam que era para sua proteção ou não — já era outra história. Ainda assim, para despistar suspeitas e evitar especulações entre os vizinhos, Santiago providenciara uma reforma discreta no sobrado, usando apenas pessoas de confiança de Marcelo.Ele apertou a campainha apenas como aviso e entrou em seguida.Helena e Lívia estavam sentadas à mesa, inclinadas sobre um celular. Ambas levantaram o olhar assim que o notaram chegar. Santiago se aproximou, agachando-se ao lado de Helena com a preocupação evidente no
Capítulo 90 – Quando o quadro trinca
"Amor possessivo: Imponho-te limites; ignoro tuas necessidades; anulo tua liberdade; alimento teu sentimento de culpa e promovo a doentia codependência entre nós. Amo-te? Não! Satisfaço os meus caprichos...” Maria Ap. Giacomini DóroAssim que a porta se fechou atrás de Lívia, o celular de Santiago vibrou. Ele olhou a tela, suspirou — era da galeria.Helena percebeu o conflito na expressão dele: o dever puxando por um lado, o desejo de ficar ali com ela puxando mais forte.— Pode ir. — disse ela com doçura tranquila. — Eu vou ficar bem. Aliás… meus pais também me ligaram preocupados com a coletiva. Combinei de almoçar com eles no hotel.Santiago ergueu os olhos para ela, como se tivesse acabado de tomar sua própria decisão.— Eu poderia ir com você? — perguntou, praticamente se convidando, sem cerimônia. — Provavelmente não é nada tão urgente que eu não possa resolver à tarde.Helena sorriu, surpresa com o calor que aquela iniciativa trouxe ao peito.— Claro que sim.Ele então ajeitou