All Chapters of Uma noite, uma vida : Chapter 11
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CAPÍTULO 11
GISELE NARRANDO: Já faz dois meses que minha rotina se transformou em um turbilhão. Trabalho intenso, folga apenas às segundas, e aquela sensação constante de que o tempo nunca foi suficiente. Rodriguinho, meu pequeno, já se habituou ao horário maluco da mãe. Toda noite, enquanto eu estava no "Bar do Urso", dona Sueli cuidava dele como se fosse dela. Eu sabia que estava em boas mãos, mas isso não aliviava a saudade e a culpa de estar longe dele. Eu sempre chegava em casa por volta das quatro e meia da manhã, ou às vezes um pouco mais tarde, quando precisavam de mim para fechar o bar. Passava na casa de dona Sueli, que me esperava com Rodriguinho enrolado em sua coberta e sua pequena bolsa a tiracolo. Ela sempre me entregava aquele olhar compreensivo e um sorriso tranquilo. — Tá com tudo aqui, Gisele. Ele ficou bonzinho, cochilou a maior parte da noite, mas acordou esperando você — ela me disse, me passando meu pequeno embrulhado. — Obrigada, dona Sueli — eu sorria, agradecida,
CAPÍTULO 12
GISELE NARRANDO:Era uma terça-feira como qualquer outra, e o bar estava bem mais tranquilo do que o usual. Eu trabalhava com alguns rapazes que ficavam no atendimento das mesas, e Jéssica, a namorada do Afonso, o dono do bar, me ajudava no balcão. A gente se dava bem, e embora o trabalho fosse cansativo, com ela ao lado as noites passavam mais rápido. Mas naquele dia, o movimento estava tão fraco que Afonso me liberou mais cedo. Eu olhei para o relógio e sorri, onze horas. Isso era raro. Mandei uma mensagem para dona Sueli, avisando que chegaria mais cedo para buscar Rodriguinho. Ela respondeu com um “Que bom! Ele ainda está acordado.”, e eu só pensava em como seria bom chegar em casa um pouco mais cedo e ficar mais tempo com ele.Corri até o ponto de ônibus, e por sorte ele não demorou. Cheguei em casa por volta de onze e meia. Subi as escadas do prédio com pressa, já imaginando o rostinho dele. Quando bati na porta de dona Sueli, ela apareceu com Rodriguinho no colo, acordado co
CAPÍTULO 13
RODRIGO NARRANDO: O dia havia sido longo e cansativo. O mercado financeiro passava por uma instabilidade que exigia atenção total da minha equipe de operadores. Saí tarde do escritório, exausto, mas com a cabeça ainda cheia de gráficos e números, entretanto, mesmo depois de um dia estressante, havia algo que me animava: Micaela. Ela havia finalmente saído da casa do marido, e nossa situação estava prestes a mudar. Talvez a ideia de assumir algo mais sério com ela estivesse começando a fazer sentido, embora eu sempre tenha priorizado a minha liberdade. Micaela se tornou o caso mais longo que já tive, estávamos cada vez mais envolvidos um com o outro. Eu havia prometido a ela que dormiria em seu apartamento naquela noite. Era engraçado como ela havia comprado um apartamento no mesmo prédio que o meu. Eu sempre valorizei morar sozinho, mas ela facilitou tanto nossos encontros que mal me incomodava. Parei na farmácia que ficava no caminho para a minha cobertura, precisava repor o
CAPÍTULO 14
GISELE NARRANDO: Eu o observei por alguns segundos. Rodrigo estava calado, mas o olhar que ele lançava sobre o meu filho me fez estremecer por dentro. Havia desconfiança, quase uma análise clínica. Era como se ele tentasse buscar uma lógica que o convencesse do que eu já sabia há muito tempo: ele era o pai. Eu sentia meu coração bater acelerado, e ao ver os pacotes de camisinhas que ele colocou de volta na prateleira, o desconforto cresceu. "Claro... ele deve achar que estou tentando dar o golpe da barriga," pensei, com um nó se formando em minha garganta. Eu me senti pequena diante dele, como se estivesse sendo julgada por algo que jamais fiz, mas não ia abaixar a cabeça. Rodrigo precisava saber a verdade, e eu não estava pedindo nada além de que ele reconhecesse seu próprio filho. Respirei fundo, tentando reunir o pouco de força que ainda me restava. — Olha, eu não espero que você acredite nas minhas palavras. — minha voz saiu firme, ainda que meu coração estivesse despedaçado
CAPÍTULO 15
RODRIGO NARRANDO: Enquanto dirigia, cada palavra de Gisele ecoava na minha mente. O silêncio entre nós era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som suave da respiração de Rodriguinho, que dormia profundamente no colo dela. Eu a observava de soslaio enquanto ela cobria o menino com a blusa para protegê-lo do vento frio. Minha mente, por outro lado, estava uma tempestade. Micaela não parava de ligar, e tive que desligar o celular. Não conseguia pensar em mais nada agora além da realidade que Gisele me tinha revelado, uma realidade que parecia mudar tudo, eu era pai. Quando chegamos à comunidade afastada, o cenário à minha volta me fez sentir um nó na garganta. As ruas estavam movimentadas de um jeito que me incomodava. Vi os olhares das pessoas seguindo o carro enquanto passamos lentamente. Alguns rapazes, claramente do tráfico, faziam transações nas esquinas, mas mantive o foco no endereço. Finalmente parei em frente a um cortiço com as luzes fracas na fachada. Era ali. Desligue
CAPÍTULO 16
RODRIGO NARRANDO:A noite passou como um borrão, e o sono? Esse parecia uma ilusão. Virei na cama, olhei para o teto, fechei os olhos, mas minha mente não dava trégua. Eu tinha um filho... como? Quanto tempo eu perdi? Nunca imaginei que teria um filho, mas agora, só de saber que ele existe, algo despertou dentro de mim. Um instinto estranho, uma vontade de fazer tudo certo, mas... como? Por onde começo?Quando finalmente apaguei, já eram quase quatro da manhã, e o alarme tocou às sete. Sentei na cama com o corpo pesado, o quarto mergulhado em silêncio. Levantei devagar, tentando organizar os pensamentos, mas só conseguia pensar no pequeno, Rodriguinho. Após minha rotina de higiene matinal, fui até o terraço, para minha academia particular. Coloquei um pouco de peso nas barras e comecei a puxar. O suor logo começou a escorrer, como se cada repetição fosse um grito de alívio para a minha mente. Precisava canalizar aquela ansiedade de alguma forma, precisava de clareza.Depois de uma ho
CAPÍTULO 17
RODRIGO NARRANDO:Ela abriu. Estava com o cabelo preso em um coque bagunçado, um shorts simples e uma camiseta que caía pelo ombro, descalça. Havia algo nela, uma simplicidade que contrastava com o caos do meu mundo, mesmo assim os traços de seu rosto delicado, eram lindos.Antes que eu pudesse dizer algo, vi Rodriguinho engatinhando em direção aos meus pés, usando fraldas com a pequena camiseta azul clara balançando enquanto ele batia as palminhas. Aquele sorriso e a inocência pura daquela criança, fez meu coração tremer de uma forma que eu não sabia que era possível.— Eu não sabia se já tinham tomado café... — murmurei, oferecendo as sacolas para Gisele. — Comprei algumas coisas.Ela sorriu, pegando as sacolas e levando-as até a pia. Enquanto isso, me abaixei e peguei Rodriguinho no colo. Ele bateu mais palminhas e riu para mim, um som que parecia dissolver todas as minhas dúvidas. Quando eu estava com ele, não havia incerteza de que era meu menino.— Entre, por favor — Gisele dis
CAPÍTULO 18
RODRIGO NARRANDO:Ela suspirou antes de responder, como se estivesse revivendo aqueles momentos difíceis.— Foi uma grande surpresa para mim também. Eu estava trabalhando em dois turnos no resort, então nem percebi que minha menstruação estava atrasada. Só descobri dois meses depois, quando comecei a passar mal. Foi um momento de desespero porque eu não sabia nada sobre você. Nunca... nunca me relacionei de forma íntima com ninguém antes ou depois daquela noite de furacão. Não tinha dúvidas de que você era o pai, então pedi a uma colega que trabalhava na recepção do resort para me ajudar a procurar seu nome entre os hóspedes naquele dia. Mas não havia nenhum 'Rodrigo ou alguém com a primeira letra R'. Foi aí que pensei que você tinha mentido sobre seu nome verdadeiro, e pensei que nunca mais fosse te encontrar de novo — explicou ela, enquanto Rodriguinho empurrava a mamadeira para longe, sinalizando que estava satisfeito. Ela o colocou no chão novamente, e ele foi correndo em direção
CAPÍTULO 19
GISELE NARRANDO:A presença de Rodrigo no meu pequeno apartamento me deixava completamente desconfortável. Era impossível não notar como ele observava cada detalhe, analisando tudo, como se estivesse tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça invisível. O olhar dele parecia querer atravessar minha fachada, mas o que mais me incomodava era a pergunta constante na minha cabeça: o que ele está pensando?Eu não tinha nada a esconder, nada a mentir. Rodrigo não era alguém de quem eu precisasse para sobreviver ou para criar meu filho. Era como um estranho curioso demais no meu espaço, mas fui o mais sincera que consegui.Guardei o lenço novamente na caixinha de recordações. Ele não sabia, mas me sentia uma completa idiota por ainda ter sentimentos por aquele pedaço de tecido que, de alguma forma, ainda representava algo para mim. Suspirei, desviando o olhar. Comecei a contar mais alguns detalhes sobre os primeiros meses de vida de Rodriguinho. Rodrigo fazia perguntas, parecia genuiname
CAPÍTULO 20
GISELE NARRANDO:Enquanto eu me concentrava no banho de Rodriguinho, Rodrigo, sem que eu pedisse, começou a arrumar a mesa do café, juntar as coisas e guardar na geladeira. Fiquei um pouco envergonhada, imaginando que ele estivesse analisando cada detalhe, mas me senti aliviada por ter feito as compras no dia anterior. Não tinha fartura, mas sempre dei prioridade para a alimentação do meu filho.Rodriguinho estava especialmente agitado naquela manhã. Ele sempre foi hiperativo, nunca parava quieto por muito tempo. Enquanto eu o banhava, ele ria, jogava água para todos os lados, e minha camiseta já estava completamente molhada. Quando finalmente o tirei do banho, o deitei na cama e comecei a vesti-lo. Era um dia quente, então escolhi uma bermuda leve e uma camiseta azul, penteei seus cabelos molhados e coloquei um sapatinho confortável, passando um pouquinho de perfume, deixando-o bem arrumado.Rodriguinho engatinhou direto para a sala, indo na direção de Rodrigo, que estava sentado no