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Author: DaysyEscritora
last update2025-11-10 06:39:13

Eles viviam no luxuoso apartamento de Eric em uma das torres mais exclusivas de Nova York, um espaço imenso e frio que parecia mais uma prisão do que um lar.

Seus encontros se limitavam aos cafés da manhã formais, onde Eric evitava sequer sentar perto dela, um fantasma impoluto que tomava o café da manhã em silêncio antes de desaparecer em direção ao auge de seu império.

Bianca passava as horas trancada, sua única companhia o eco de seus próprios passos pelos polidos pisos de mármore. Estava proibida de sair, uma ordem não dita, mas entendida. As janelas gigantes ofereciam vistas espetaculares da cidade, mas ela se sentia mais presa do que nunca.

Naquela manhã, o ritual se repetiu. Eric terminou seu café, levantou-se sem lhe dirigir um olhar e saiu da sala de jantar, o som de seus passos firmes se afastando até que a porta principal se fechasse com um suave "clic". Bianca ficou sozinha, com seu café da manhã intacto e um vazio opressivo no estômago. Sua cabeça começou a girar, e uma onda de náuseas a atingiu com força.

Tentou se levantar para ir ao banheiro, mas suas pernas fraquejaram. A visão ficou turva, e o mundo girou ao seu redor em um turbilhão vertiginoso. Um zumbido ensurdecedor encheu seus ouvidos. Seus joelhos cederam, e a última imagem que seus olhos captaram antes da escuridão total foi o chão reluzente.

O "clic" da porta se repetiu. Eric, que havia esquecido documentos cruciais para uma reunião matinal, voltou ao apartamento com uma impaciência incomum. Entrou na sala de jantar e parou abruptamente. Seu olhar pousou na figura desabada de Bianca no chão, pálida e aparentemente inerte. Por um instante, a máscara gélida de indiferença se quebrou, deixando transparecer uma faísca de alarme.

Ele se aproximou dela com rapidez incomum. Ajoelhou-se, e sua mão, que sempre a havia rejeitado, pousou em sua testa. Estava fria.

— Bianca! — chamou, sua voz mais alta do que o normal, com um tom de urgência que não lhe tinha ouvido desde o acidente.

Ele a pegou nos braços, sentindo sua leveza, e a levou às pressas para o elevador. Os guardas, surpresos, abriram caminho enquanto Eric a segurava com uma inquietude que desconhecia.

O trajeto até o hospital foi rápido.

O frio da maca do hospital despertou Bianca. A luz branca e estéril a cegou por um momento. Sentiu uma pontada no braço onde lhe tinham colocado uma via. Ao lado dela, um médico de rosto amável falava-lhe com voz tranquila.

— Senhora Harrington, a senhora está bem. Só precisa descansar e comer melhor. Tem tido náuseas matinais?

Bianca franziu a testa. Náuseas matinais? Não havia pensado nisso.

Foi então que a voz de Eric ressoou do fundo do quarto, cortante como um iceberg.

— Náuseas matinais, doutor? — a ironia gotejava de cada palavra. — Por acaso não é óbvio? Explique a ela de uma vez, já que ela parece ingênua demais para entender o que acontece com seu próprio corpo.

O médico, algo incomodado, olhou para Eric e depois para Bianca.

— Bem, senhor Harrington, a julgar pelos resultados dos exames preliminares e pelos sintomas, sua esposa está... grávida.

A palavra grávida pairou no ar como uma bomba. Os olhos de Bianca se arregalaram, e sua própria respiração parou. Grávida. Não podia ser.

Eric avançou um passo, seu olhar de iceberg cravado nela, agora tingido de fúria gelada.

— Você está vendo, Bianca? — sua voz era um sussurro letal que só ela podia ouvir. — Diga-me de uma vez. Quem é o pai? Com quem você dormiu? Por acaso não lhe bastou arruinar minha vida com a morte de Aitana, que agora você vem com a desfaçatez de me trazer um bastardo para esta casa?

O ar escapou de seus pulmões. Sentiu-se aprisionada, asfixiada pela acusação. Como ela ia dizer-lhe? Como ia confessar-lhe que o pai de seu bebê era ele, Eric Harrington?

Aquela noite, a noite em que Aitana lhe pediu para fingir ser ela, para que pudesse ver seu verdadeiro amado, seu amor impossível, Steven, Aitana havia explicado que de todo modo sabia que Eric estava bêbado e não a reconheceria, a noite em que aquele homem em meio ao álcool a fez sua. Ele jamais acreditaria nela. Ele a consideraria uma mentirosa, uma manipuladora, uma impostora ainda maior do que já pensava.

O silêncio de Bianca foi sua condenação. As palavras de Eric continuaram, cada uma como um chicote.

— Está vendo? Silêncio. A verdade te corrói, não é? Você sempre foi uma mulher fácil, uma mosca morta que se fazia de santa. Enquanto eu estive trabalhando, você estava abrindo as pernas para o primeiro que passasse.

As lágrimas brotaram de seus olhos, quentes e dolorosas, mas ela não emitiu som algum. Qualquer defesa seria inútil. Ele já havia julgado e sentenciado. A crueldade em seus olhos era insuportável, um poço sem fundo de desprezo. Sentiu-se menor do que nunca, vulnerável, e completamente sozinha diante da fúria implacável de Eric Harrington.

— Eric... pare.

O doutor saiu, deixando-os a sós. Envergonhado pela mulher.

— Parar? Você quer que eu te aplauda? Que eu te dê um prêmio? Sabe o que eu vou te dar? O divórcio, parabéns Bianca.

Ela não o olhou e sim ficou com as mãos entrelaçadas. Aflita. Ela não se desculparia, não pediria perdão. Por que fazê-lo de novo se não era culpada de nada? Estava cansada de ser apontada, e era inocente.

— É o seu bebê, é o seu filho! — ela apontou. — Estivemos juntos, você não se lembra, mas passamos a noite juntos.

Uma gargalhada seca de Harrington lhe assegurou que, não importava o quanto tentasse, só receberia ódio da parte dele.

— Boa tentativa — ele se levantou da cadeira que ocupava. — Voltaremos para o apartamento, não há mais nada a falar, vamos terminar com este casamento absurdo, meus pais e os seus não se oporão, afinal você falhou. Seus pais deveriam ir pensando para onde ir, não creio que meus pais tenham compaixão pelo que a filha de seus compadres fez.

Mais do que uma ameaça, parecia ser um ditame.

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  • 160 Fim

    O tempo voou e, apesar das circunstâncias, Bianca e Eric estavam muito emocionados com as mudanças em suas vidas. A ideia de viverem juntos os enchia de uma felicidade que não se podia medir. Eles se sentiam prontos para começar de novo e planejar um futuro em família. Eric, com o coração cheio de esperanças, havia escolhido um novo lugar para eles. Um lugar para começar do zero, longe do que uma vez haviam deixado pela metade. Os gêmeos, Olivia e Henry, eram os mais animados. Ambos olhavam para os pais com os olhos brilhantes.— O lugar para onde vamos tem um pátio enorme para brincar? — perguntaram.Eric e Bianca se olharam com um sorriso. Eles explicaram que havia muito espaço, que eles poderiam correr e fazer muitas coisas em seu novo lar. Bianca também estava ansiosa para conhecer o local. Naquele dia, Eric dirigiu cerca de uma hora e meia até chegarem a uma grande propriedade. Os portões se abriram e, quando entraram, Bianca não podia acreditar no que estava vendo. A propriedade

  • 159

    Dias depois, Eric estava em seu escritório, absorto nos planos de seu novo projeto. O design do complexo de edifícios se desdobrava em sua tela, um quebra-cabeça de linhas e ângulos que o absorvia por completo. Era sua forma de canalizar a ansiedade e a dor em algo produtivo, construindo um futuro que parecia tão sólido quanto o cimento.A porta se abriu de repente e apareceu sua secretária, Daniela Montero. Ela parecia preocupada, seu rosto pálido e seus ombros tensos.— Senhor Harrington — disse, sua voz era apenas um sussurro —, estão solicitando o senhor ao telefone.A formalidade em seu tom, que costumava ser tão alegre, indicou a Eric que algo não estava bem. Ele deixou o lápis sobre a mesa e pegou o telefone que ela lhe oferecia.— Sou o detetive Smith — disse uma voz grave do outro lado da linha. — Ligo para informá-lo que, com as provas que o senhor nos forneceu e a confissão dos homens que sequestraram a senhorita Bianca, há cinco anos e meio, conseguimos reunir provas sufic

  • 158

    Os dias no hospital tinham sido os mais longos na vida de Bianca. Ela sentia que o tempo havia parado, cada minuto uma eternidade longe dos seus filhos. Mas agora, finalmente, o momento da partida havia chegado. Eric empurrava a cadeira de rodas em que ela estava sentada, um gesto de amor e proteção. O ar fresco do exterior lhe deu as boas-vindas. A luz do sol pareceu um bálsamo em sua pele. O aroma de liberdade, de vida, encheu seus pulmões.No entanto, o rosto de Eric mudou drasticamente quando ele viu duas mulheres em seu caminho. Ali, ao lado de sua chefe Elara, estava Clara. Eric cumprimentou Elara, que, aliás, já estava ciente do seu relacionamento com Bianca. A mulher ainda estava surpresa, mais ainda ao saber que eles tinham filhos em comum. Por outro lado, Clara tinha os olhos cheios de lágrimas. Ela segurava um buquê de flores, que estendeu a Bianca.— Estou tão feliz em ver você recuperada — disse Clara, com a voz embargada pela emoção. — Estou tão contente que você possa v

  • 157

    Tatiana se sentou na cadeira de metal, a luz da lâmpada do teto refletindo na mesa de aço. A sala, com suas paredes cinzas e o ar frio, era um mundo distante do luxo e do conforto a que estava acostumada. Em frente a ela, dois detetives a observavam, seus rostos sérios e seus olhos avaliadores.— Senhorita Tatiana Russo, nós a prendemos sob suspeita de sequestro, agressão e tentativa de assassinato. Os homens que a ajudaram já confessaram. É melhor para a senhorita cooperar — disse o detetive, sua voz era tranquila, quase monótona.Tatiana soltou uma risada seca, um som tão frio quanto o quarto.— Não sei do que o senhor está falando. Eu não conheço esses homens. Eu não fiz nada. Isso deve ser um erro.O outro detetive se inclinou para frente, com os cotovelos sobre a mesa. Sua voz era mais dura.— Pare o show. Sabemos que a senhorita ordenou que levassem a senhorita Bianca. Que deu a ordem para torturá-la e depois a deixassem lá para morrer.Tatiana, inabalável, cruzou uma perna sobr

  • 156

    Eric arrastou uma cadeira e a colocou perto da cama, um ruído surdo que não lhe importou. Ele se jogou sobre ela, sem se importar com a hora, que já era madrugada, nem com o cansaço que sentia. O corredor do hospital, com sua luz fria e seu silêncio opressivo, era um mundo distante. Ali, na penumbra do quarto, só existia ela. A dor física que o havia consumido ao lutar parecia insignificante ao lado da dor emocional que lhe roía a alma.Ele pegou a mão de Bianca, sentindo sua pele fria e frágil. Apenas esse contato lhe dava força para continuar. Ele se sentia um fracasso. Havia chegado a tempo de salvá-la, sim, mas não para evitar que a ferissem. E muito menos para salvar seu filho, um filho que ele não soube que existia até que ele se fora para sempre. As lágrimas, que ele havia contido desde que o médico lhe deu a notícia, rolaram por suas bochechas.— Eu sinto muito, Bianca — sussurrou, com a voz embargada pela emoção. — Eu devia ter te protegido, eu devia ter feito melhor.Ele bei

  • 155

    Uma hora antes...Ele pegou o celular e, com as mãos firmes, discou o número da polícia.— Preciso que enviem uma patrulha e uma ambulância para a rua... Acho que há um sequestro em um armazém abandonado.Ele deu seu nome e desligou. Só então ele desceu do carro. Abriu o porta-luvas do carro e pegou sua arma de defesa pessoal. Sua mente estava clara. A porta do armazém estava entreaberta. Uma voz grave e um grito abafado se infiltraram. Era ela.A porta se abriu de repente com seu empurrão. O ar rançoso do interior, carregado de poeira e umidade, atingiu seu rosto. Seu olhar se fixou imediatamente em duas figuras corpulentas que se inclinavam sobre Bianca, caída no chão. Um medo frio e paralisante o atravessou.— Afastem-se dela! — gritou, sua voz era um trovão de pura ira.Os homens se viraram, surpresos. Um deles soltou uma risada zombeteira.— Ora, ora. Olhem quem temos aqui. O namorado da senhorita — disse, o escárnio em sua voz era palpável.Eric não respondeu. Não ia perder temp

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