6 - Seduzido e abandonado
Author: Aya Lins
last update2025-06-24 22:34:37

Na cozinha, o cheiro de café fresco se misturava ao barulho de panelas e conversas abafadas.

Malu entrou carregando a bandeja vazia e deu de cara com Francine bocejando, encostada no balcão com a cara de quem nem lembrava o próprio nome.

Malu largou a bandeja com força desnecessária só pra causar impacto.

— Sua sorte é que sou muito sua amiga. Sabe que era você quem devia estar servindo o café hoje, né?

Francine levantou a cabeça com um sorriso cínico e fez um coraçãozinho com as mãos.

— E é por isso que eu te amo. Se eu aparecesse lá bocejando do jeito que tô, com certeza seria demitida.

Malu cruzou os braços, encarando ela como uma mãe que sabe exatamente o que a filha aprontou.

— Mas pelo menos você teria visto o que eu vi.

Francine endireitou o corpo na mesma hora.

— O quê? Conta agora!

O sono sumiu como mágica.

Ela chegou mais perto, quase tropeçando no avental, os olhos arregalados de curiosidade.

Malu olhou pros lados, como se o próprio Dorian pudesse surgir do chão.

— Ele... tava sorrindo.

Francine piscou. Depois piscou de novo.

— Sorrindo? O Dorian?

Malu fez que sim, com um ar de escândalo controlado.

— Enquanto tomava café. Sozinho. Nem tinha croissant envolvido. Só ele... e um sorrisinho besta de canto de boca.

Francine segurou o riso com a mão na frente da boca, mas os olhos brilhavam.

— Não... Não pode ser.

— Eu vi. Com esses dois olhos que a terra há de comer.

Francine tentou manter a pose.

— Talvez ele só tenha dormido bem.

— Aham. Pra estar sorrindo daquele jeito, tenho certeza que dormir foi o que ele menos fez essa noite.

Francine não respondeu.

Só pegou uma xícara, encheu de café e escondeu o sorriso atrás do vapor quente.

[…]

O elevador parou no último andar da Villeneuve Corporation, e as portas se abriram com aquele som sutil que já era parte da rotina.

Dorian saiu com passos firmes, impecável como sempre.

Mas tinha algo estranho naquele dia.

Uma leveza no andar. Um brilho discreto no olhar. E... quase imperceptível... uma dobra de sorriso nos lábios.

Cássio, seu vice-presidente e amigo de longa data, já o esperava na sala de reuniões com uma xícara de café na mão e a cara de quem sabia exatamente quando alguém não estava sendo 100% CEO de si mesmo.

— Que cara é essa, Dorian? Acho que nunca te vi de tão bom humor logo cedo.

Dorian pousou a pasta na mesa e afrouxou a gravata com um leve movimento, sem olhar diretamente para ele.

— Digamos que tive uma boa noite.

Cássio arqueou as sobrancelhas, rindo.

— Imagino que sim. Nunca vi você sumir tão rápido da sua própria festa.

Dorian puxou uma cadeira, sentou com calma.

— Eu já tinha visto tudo o que precisava.

— Aham... claro. Incluindo aquela mulher misteriosa que apareceu do nada, dançou com você por horas e desapareceu como um truque de mágica?

Dorian o encarou, sem disfarçar o interesse.

— Você a viu?

— Todo mundo viu. Mas ninguém sabe quem é. Chegou do nada, sumiu do nada... O vestido escarlate foi o assunto da madrugada no grupo da diretoria.

Dorian recostou-se na cadeira, olhando para a parede de vidro à frente.

— Ela não devia estar ali.

— E ainda assim... foi a única que te fez dançar. E te fez sorrir, aparentemente.

Silêncio.

Cássio, curioso como sempre, se inclinou um pouco pra frente.

— Vai me dizer que não pegou nome, nem número, nem nada?

Dorian virou o rosto pra ele, finalmente soltando um meio sorriso.

— Ela me deixou... uma máscara. E um bilhete.

— Você foi seduzido e abandonado, é isso?

— Eu fui... provocado. E deixado num jogo que agora é pessoal.

Cássio deu uma gargalhada curta, mas genuína.

— Pronto. Agora ferrou. Dorian Villeneuve, caçador de máscaras.

— Não se preocupe, Cássio. Eu vou encontrá-la.

— E o que você pretende fazer quando encontrar?

Dorian encarou o próprio reflexo no vidro. Depois respondeu, com a voz baixa e perigosa:

— Descobrir o que mais ela consegue me fazer sentir...

Cássio girou a xícara de café nas mãos, olhando Dorian com um meio sorriso malicioso.

— Você já deu uma olhada nas câmeras? Pra ver se ela veio com alguém, ou se foi embora sozinha?

Dorian deu uma risada curta pelo nariz, sem tirar os olhos do skyline da cidade à frente.

— Ainda não.

— Uau. Você realmente está levando isso no peito. Normalmente já teria feito uma triagem dos convidados e cruzado com as imagens em menos de vinte minutos.

— Justamente por isso não fiz ainda. Se eu tratar como um problema a ser resolvido, vou perder a parte mais interessante.

— Que é?

— O mistério. A provocação. Ela entrou na minha casa como se estivesse no próprio palco... E sumiu como fumaça. Não é o tipo de coisa que se desfaz com um replay de segurança.

Cássio riu, batendo com leveza os dedos na mesa.

— Desde quando você virou poético?

— Desde ontem à noite, aparentemente.

— Certo... e se ela for casada? Se for filha de um investidor, ou sei lá, uma infiltrada industrial mandada por alguma concorrente?

Dorian olhou de lado, impassível.

— Nesse caso, o risco só torna tudo mais... interessante.

— Ok. Então temos um novo Dorian na praça. Um CEO seduzido por uma mulher mascarada.

— E desaparecida. Não esqueça dessa parte.

Cássio já estava quase na porta quando se virou mais uma vez, os olhos ainda curiosos.

— Mas falando sério... Se fosse eu, já teria visto todas as câmeras da casa. Pelo menos pra saber se ela chegou sozinha. Ou se tinha alguém esperando do lado de fora.

Dorian não respondeu de imediato. Olhou para a xícara agora vazia em sua frente.

Por um instante, pensou no bilhete. No sorriso dela. No jeito como ela desapareceu sem deixar vestígio.

— Eu pensei em não fazer isso — disse por fim, com voz baixa. — O mistério tem seu próprio valor. Tem uma força.

Cássio o observava em silêncio, respeitando o raciocínio. Sabia que, quando se tratava de Dorian, decisões vinham como lâminas bem afiadas.

— Mas — Dorian continuou, levantando-se com calma —... eu também sou um homem que gosta de controle.

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  • Nota da autora

    Chegar ao fim dessa história é estranho. Bonito, mas estranho.Foram quase seis meses acompanhando Francine e Dorian, vivendo cada tropeço, cada escolha difícil, cada reconciliação.E, no meio do caminho, Malu e Cássio surgiram quase sem pedir licença, e acabaram tomando um espaço enorme no meu coração e, espero, no de vocês também.Nada disso teria sido possível sem quem esteve aqui capítulo após capítulo, comentando, reagindo, sentindo junto.Cada mensagem, cada teoria, cada carinho ajudou a moldar essa história e deu sentido às horas passadas escrevendo.Encerrar um livro nunca é simples.Sempre dá uma dorzinha no coração, como se estivéssemos nos despedindo de pessoas que fizeram parte da nossa rotina.Mas também existe gratidão, por ter vivido isso até o fim.Espero que essa história tenha inspirado vocês a acreditarem no amor verdadeiro, mesmo quando tudo parece impossível. A confiarem em quem se ama, mas também a manterem os olhos abertos para quem está ao nosso redor, afinal ne

  • Epílogo III

    Cássio chegou em casa e largou as chaves sobre a mesa de madeira da entrada.O som ecoou baixo pelo apartamento silencioso.Enquanto soltava a gravata e tirava o paletó com movimentos automáticos, chamou:— Malu?Nenhuma resposta.Ele franziu o cenho, caminhou pelo corredor e empurrou a porta do quarto com cuidado, mas ainda assim, um pouco apressado.— Malu, você…— Shhhhhhh… — Malu levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio, os olhos atentos.Cássio parou imediatamente.A luz suave que atravessava a cortina na janela iluminava a cena com delicadeza.Malu estava sentada na poltrona, o corpo relaxado, a cabeça levemente inclinada enquanto amamentava a bebê.O mundo parecia caber inteiro naquele gesto.Ele se aproximou devagar, como se qualquer passo em falso pudesse quebrar aquele instante.Depositou um beijo calmo na testa de Malu, depois se inclinou um pouco mais, observando a filha.— E como você está, Cassinha? — murmurou, passando os dedos com extremo cuidado pelos fios fininhos,

  • Epílogo II

    Na penitenciária o curso de empreendedorismo acontecia duas vezes por semana, sempre no mesmo horário, sempre na mesma sala sem janelas, com paredes bege encardidas e cadeiras de plástico alinhadas em fileiras quase militares.Gaspar sentava-se sempre no fundo, mais por hábito do que por escolha. Não gostava de chamar atenção. Não gostava de falar. Gostava menos ainda de ouvir discursos sobre futuro.Aquele dia não parecia diferente.O educador, um homem jovem demais para estar ali, como Gaspar diria, falava sobre empreendedorismo, gestão moderna, liderança responsável. Palavras grandes para um ambiente pequeno.Ainda assim, Gaspar prestava atenção.Não por interesse real, mas porque aprender rendia dias a menos de pena, e ali dentro o tempo era a única moeda que importava.— Hoje eu trouxe um exemplo atual — disse o educador, levantando uma revista. — Um case real, brasileiro, de crescimento sólido nos últimos cinco anos.Alguns presos se inclinaram para frente. Outros bocejaram.Gas

  • Epílogo I

    A casa estava um caos cuidadosamente organizado.Luzes montadas na sala, cabos no chão, um fotógrafo tentando enquadrar a cena perfeita enquanto Francine mudava de posição pela terceira vez, procurando um jeito minimamente confortável de sustentar a barriga já enorme.— Amor, se eu cair pra trás, você segura — ela avisou, sem nenhuma cerimônia.— Eu seguro você, a barriga, o bebê e o fotógrafo se for preciso — Dorian respondeu, ajustando a postura no sofá.Theo, com seus quatro anos recém-completos, não parecia minimamente interessado no conceito de editorial de revista.Estava inquieto no colo do pai, girando o tronco, esticando o pescoço para procurar qualquer coisa que fosse mais interessante do que ficar parado.— Theo, amor… fica quietinho só mais um pouquinho — Francine pediu, tentando manter o sorriso.— Mas eu já fiquei quieto! — ele rebateu, indignado, como se estivesse há horas cumprindo um castigo.No colo de Francine, Matheus, com pouco mais de um ano, dormia profundamente

  • 337 - Em casa

    O impacto veio antes mesmo de atravessarem as portas de desembarque.O ar quente envolveu Francine e Malu como um abraço exagerado, quase teatral, daqueles que fazem a pele lembrar imediatamente onde está.O contraste com o inverno nova-iorquino foi tão brusco que Malu riu sozinha, sentindo o suor surgir antes mesmo de dar três passos.— Meu Deus… — Francine soltou o casaco no braço. — Assim que chegarmos em casa eu quero um banho de piscina. Pra lavar esse frio até da alma.— Você acabou de sair do avião — Malu provocou. — Já quer entrar na água?— Quero — Fran respondeu, sem culpa nenhuma. — E depois quero reclamar do calor. É o ciclo natural da vida.O caminho até a mansão foi silencioso no começo.Não um silêncio pesado, um silêncio confortável, de quem ainda estava se reajustando ao próprio fuso horário e às próprias emoções.Foi Malu quem quebrou primeiro.— Fran… eu tava pensando. — Ela apoiou o braço no vidro, observando a cidade que reaparecia familiar. — Acho que tá na hora

  • 336 - Um ano... novo

    O acesso ao telhado foi mais simples do que Francine imaginava.Nada de tapetes vermelhos, portas escondidas ou seguranças de terno.Apenas uma porta metálica discreta no fim de um corredor pouco iluminado, o rangido suave da maçaneta sendo girada e, logo em seguida, o vento frio batendo no rosto como um aviso claro de que eles estavam muito mais altos do que deveriam.Assim que saíram, a cidade se abriu diante deles.Nova York parecia outra dali de cima.Menos barulhenta, menos agressiva.Um emaranhado de luzes pulsando em silêncio, prédios recortando o céu escuro, ruas que pareciam veias luminosas levando gente de um lado para o outro sem que eles precisassem ouvir o caos.A área coberta ocupava apenas parte do telhado, suficiente para protegê-los da chuva fina que começava a cair, quase tímida.Duas poltronas confortáveis, um sofá compacto encostado na parede, mantas dobradas com cuidado como se alguém tivesse pensado em cada detalhe.Uma mesa pequena com petiscos simples, queijos,

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