
— Eu nunca fui tão humilhada na minha vida! — A mulher que acabara de sair da sala de entrevistas praticamente gritou isso ao passar pela recepção como um furacão.
As outras candidatas se entreolharam. Algumas ajeitaram a postura. Outras checaram os currículos pela décima vez. Todas pareciam prontas para desistir.
Eu? Eu estava sentada numa cadeira desconfortável demais para um prédio tão chique, com uma barra de chocolate meio derretida na mão, que eu beliscava compulsivamente porque meus nervos estavam em frangalhos.
Calma, Mareu. Você consegue.
Mentira. Eu não conseguia. Mas também não tinha escolha.
Minha amiga Clara tinha me arranjado essa entrevista para digitalizar papelada no RH da empresa onde ela trabalhava. Algo temporário, entediante, mas era dinheiro. E era melhor do que continuar dormindo no sofá apertado dela, comendo miojo.
Ouvi a mulher ao meu lado suspirar alto e murmurar para outra candidata:
— Não sei se vale a pena tudo isso por uma vaga de babá de duas crianças birrentas...
Minha cabeça girou tão rápido que quase quebrei o pescoço.
Espera. Crianças? BABÁ?
A recepcionista tinha me mandado para a sala errada! Peguei a bolsa do chão com a mão livre, pronta para sair dali. Eu não fazia a menor ideia de como cuidar de criança — mal cuidava de mim! Tomara que ainda desse tempo de achar a entrevista certa.
Droga, tudo estava dando errado!
Mas para ser honesta, nada mais parecia dar certo na minha vida depois de Rafael, o golpista que fingiu estar apaixonado por mim só para ter acesso ao dinheiro da minha família.
Depois do escândalo, meus pais decidiram "resolver" minha vida. Arranjaram um casamento por contrato com um viúvo bilionário — alguém que eu nunca conheci, nunca vi, sequer quis saber o nome.
Fugi antes do jantar de noivado.
Já estava quase me levantando da cadeira, pronta para fugir daqui também, quando a outra candidata respondeu, com aquele tom de quem sabe de fofoca boa:
— Mas os benefícios são ótimos! Moradia, alimentação, salário generoso... e dizem que o patrão é um gato.
Congelei com a bolsa no colo.
Teto. Comida. Salário.
Sentei de novo, devagar, recolocando a bolsa no chão.
Bom... já que estou aqui...
Mordi mais um pedaço do chocolate e esperei.
Uma a uma, as candidatas foram chamadas, desapareceram pela porta e voltaram com cara de derrota.
— Homem grosso... — ouvi uma resmungar.
— Criança impossível... — outra completou.
O relógio parecia andar rápido demais e, ao mesmo tempo, não sair do lugar.
Quando a penúltima se levantou, já não restava ninguém além de mim e da minha barra de chocolate.
— Candidata número nove! — A voz da secretária ecoou pela recepção.
Levantei com as pernas bambas. A secretária abriu a porta da sala e anunciou:
— Senhor Novak, essa é a última candidata.
Depois olhou para mim e acenou com a cabeça.
— Pode entrar.
Respirei fundo e entrei.
A primeira coisa que senti foi o caos. Um bebê chorando alto num carrinho. O tipo de choro que perfura o cérebro. Uma menina de uns seis anos andando de um lado para o outro, mexendo num celular e falando alto como mini executiva, revirando os olhos para o choro do irmão.
E então... ele.
Céus! O homem estava sentado atrás de uma mesa enorme, terno impecável, gravata afrouxada, cabelo castanho escuro bagunçado como se ele tivesse passado a mão ali várias vezes por puro estresse. Olhos verdes, cansados, mas intensos. Maxilar marcado, ombros largos, presença que ocupava o ambiente inteiro.
Meu cérebro romântico e viciado em doramas pensou imediatamente: Nem na ficção tinha um protagonista masculino tão perfeito.
E então eu tropecei. No tapete. Meu pé prendeu na beirada, meu corpo se desequilibrou, e eu me agarrei na beirada de uma mesinha lateral. O copo plástico de água que estava em cima tombou. A água se espalhou pelo tampo e começou a pingar no chão.
O barulho ecoou pela sala. Até o bebê parou de chorar por dois segundos, confuso com o show de desastres.
Eu queria enfiar a cabeça num buraco e sumir do mapa.
Senhor Novak me olhou. Aqueles olhos verdes me analisaram de cima a baixo com uma expressão que eu não consegui decifrar. Cansaço? Incredulidade? Desprezo? Provavelmente tudo junto.
O bebê voltou a chorar, mais alto ainda.
Senhor Novak fechou os olhos por um segundo, como se reunisse toda a paciência do universo.
— Como pode perceber — disse, a voz grave, controlada —, minha filha derramou refrigerante em cima do seu currículo.
Olhei para a mesa. Havia uma folha de papel molhada, borrada, ilegível.
— O que eu preciso saber sobre você? Seja rápida. Eu não tenho todo o tempo do mundo.
Engoli seco.
— Meu nome é Maria Eu... — Merda. — Mareu. Meu nome é Mareu e...
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você não sabe seu nome?
— Sei! É que... pode me chamar de Mareu. Tenho 26 anos e...
— Olha, Mareu — ele me interrompeu. — Você é a última candidata. Já entrevistei outras oito pessoas hoje. O bebê não para de chorar há horas e eu... — passou a mão pelo cabelo, bagunçando ainda mais. — Eu só preciso que alguém consiga fazer o básico. Se você fizer esse bebê parar de chorar, o emprego é seu.
— Sério?
— Sério.
É só um bebê. Quão difícil pode ser?
Caminhei lentamente até o carrinho. O bebê chorava mais alto ainda, como se soubesse que eu não fazia ideia do que estava fazendo.
Tentei empurrar o carrinho de um lado pro outro. O choro continuou.
Fiz uma careta engraçada. Nada.
Tentei balançar mais rápido. Só piorou.
— Então — a voz do Senhor Novak veio atrás de mim. — Como era sua rotina na última casa? Minha filha é bem ativa.
Ele quer conversar AGORA?
— Ahm... natação duas vezes na semana, tênis às quintas, hipismo no final de semana e depois do Rafael tinham as aulas de defesa pessoal...
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Defesa pessoal para criança? Interessante.
Ahh.
Ele estava falando de criança?
Eu tinha respondido sobre a minha rotina. A rotina que eu tinha quando ainda morava na mansão dos Valença.
Melhor improvisar.
— É! — forcei entusiasmo, ainda balançando o carrinho. — Super importante para... desenvolvimento da confiança delas! E autodefesa, claro. Defesa... muita... defesa. Auto.
Ele pareceu considerar isso, então continuou:
— E como você lida com birras?
Respirei aliviada. Essa eu sabia responder.
— Normalmente com chocolate e doramas. Quero dizer, depois de uma certa idade, não dá pra achar que birra vai resolver tudo. É só se sentar e esperar passar.
Os olhos dele se estreitaram levemente.
Merda.
De novo, Mareu?
Mas então ele disse, com um toque quase... divertido?
— Interessante. Chocolate como recompensa e distração visual. Funciona?
— ...Funciona sim.
Pelo menos pra mim.
— Viagens podem estar incluídas no trabalho. Tudo bem para você?
Tentei fazer cócegas no pé do bebê. Sons engraçados com a boca. Nada.
— Ah, eu amo viajar! — respondi, quase gritando por cima do choro. — Ano passado passei um verão incrível num cruzeiro de luxo pelas ilhas gregas!
Ele inclinou a cabeça.
— Então você está acostumada a trabalhar com famílias de alto padrão. Ótimo.
Trabalhar? Eu tinha falado das minhas férias. Mas se ele entendeu como experiência profissional, eu não ia corrigir.
— Sim. Totalmente acostumada.
O bebê estava inconsolável. Senhor Novak me observava com aquela cara séria. Eu estava falhando miseravelmente.
E então, sem pensar, comecei a cantar uma música idiota de um dorama que eu tinha assistido na semana passada, em um coreano ruim, que eu nem sabia o significado.
Baixinho. Desafinado. Ridículo.
Eu estava tentando acalmar mais a mim mesma, mas... o bebê parou de chorar.
Assim. De repente. Ficou me olhando com aqueles olhinhos arregalados.
Continuei cantando, com medo de parar e o choro voltar.
O bebê soluçou uma última vez e fechou os olhinhos, finalmente em paz.
Silêncio.
Parei de cantar devagar, quase sem acreditar.
Senhor Novak continuou me observando por um longo momento.
A sala em silêncio absoluto, só o som da minha respiração ofegante, enquanto até a menina mais velha me encarava por cima do celular como se eu fosse a coisa mais estranha que tinha acontecido naquele dia.
Então... eu consegui o emprego?
Olhei para a cara dele buscando algum sinal, mas ele apenas me encarou com aqueles olhos verdes penetrantes, a expressão séria, fria, ilegível.
Bem... talvez não...
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Capítulo 127
~ MAREU ~Segunda-feira tem um talento especial: ela não pergunta se você está pronta. Ela só entra, acende as luzes da cozinha e exige produtividade como se eu não tivesse passado a noite anterior lembrando, com detalhes indecentes, de um banheiro caro demais e de um homem que não tinha o menor direito de me fazer perder a noção de bom senso.Eu estava de pé, tentando convencer meu corpo de que aquilo tinha sido só… um evento isolado. Um episódio fora da curva. Uma pane elétrica emocional. Eu me repetia isso enquanto servia o café da manhã da Olívia e enquanto a mini-executiva do meu coração se preparava pra aula com a calma de quem já tem uma reunião marcada com o destino.A diferença é que, naquele dia, ela estava com o tablet apoiado na bancada, assistindo alguma coisa decididamente infantil. Infantil do tipo “crianças normais com idade normal assistem” e não “documentário sobre a logística de um porto norueguês”. E isso, vindo da Olívia Novak, era muito suspeito.— Por que você e
Capítulo 126
~ MAREU ~— Logan, você me assustou! — eu disse, levando a mão ao peito como se isso fosse impedir meu coração de tentar fugir pela garganta. — Fica aí igual uma alma penada de galã de filme dos anos 40.Eu só percebi o que tinha dito depois. Porque ele estava mesmo daquele jeito: encostado no sofá, luz baixa, camisa ainda alinhada, aquele rosto sério e bonito demais pra ser usado como mobília de sala às onze da noite. E eu não precisava jogar elogio no ar como quem deixa comida no chão pra cachorro.Ele ergueu o olhar devagar. Parecia… tenso. Como se o corpo inteiro dele estivesse tentando ficar sentado enquanto a cabeça queria levantar e ir resolver alguma coisa. Preferencialmente invadindo a vida dos outros com um terno.— Seu encontro foi bom? — ele repetiu.A minha primeira reação foi ridícula: piscar, travar e olhar ao redor, só pra confirmar que eu tinha entrado na casa certa e não numa realidade paralela em que meu chefe fazia perguntas de namorado.— Eu… eu… — começou a sair
Capítulo 125
~ LOGAN ~A televisão estava ligada, o volume baixo, alguma coisa passando. Eu estava no sofá como se aquilo fosse descanso — postura correta, mãos relaxadas, cara de quem encerrou o domingo com normalidade.Por dentro, eu estava exatamente no oposto. Não inquieto como alguém ansioso. Inquieto como alguém que cometeu um erro estratégico e agora precisa conviver com a própria estupidez sem poder corrigi-la.Eu tinha inventado um compromisso só para justificar a hora extra da Mareu. A ideia, na minha cabeça, tinha sido limpa: evitar que ela saísse, evitar que eu tivesse que assistir a mulher que mora na minha casa e ocupa a minha cabeça indo ao encontro de outro homem.O problema com ideias “limpas” é que elas raramente sobrevivem ao mundo real.Depois de flagrar Mareu saindo com Rômulo eu peguei a pizza como se nada tivesse acontecido e subi para comer no quarto com Olívia enquanto ela me contava animada que ia costurar um vestido.Olívia, sem levantar o tom, decretou que “ainda cabia
Capítulo 124
~ MAREU ~Eu fiquei sentada na cama com o celular na mão como se ele fosse um objeto perigoso. Na tela, a mensagem do Rômulo:“Não consegui esperar a próxima vez. Estou no seu portão. Pode vir aqui?”Eu li duas vezes. Três. Quatro, só pra ter certeza de que o meu cérebro não tinha decidido inventar romance pra compensar o domingo.Meu primeiro impulso foi o impulso sensato — aquele que raramente ganha, mas eu sempre deixo ele tentar pelo menos uma vez.“Você não devia ter feito isso.”Aí eu pensei na continuação.“Já está tarde. É domingo. Amanhã eu trabalho cedo. Tenho uma criança de seis anos e meio que acorda como se o mundo fosse uma reunião que começa pontualmente às sete. Tenho um bebê de nove meses que não respeita horário nem hierarquia. E tenho um patrão com olhos verdes que não me deixa esquecer que eu sou… eu.”Ok. Essa parte eu não ia mandar. Primeiro porque era longa. Segundo porque era verdade demais.Eu respirei fundo e tentei ser a adulta responsável que Clara insiste
Capítulo 123
~ LOGAN ~Eu acompanhei Olívia até o quarto. Quando entrou, já foi tirando a manta do sofá pequeno e jogando por cima da poltrona, organizando o espaço sem olhar, como se a casa inteira fosse um tabuleiro dela.— Já comeu pipoca o suficiente ou ainda cabe jantar? — perguntei, encostado no batente, fingindo casualidade.Olívia levantou o queixo e pensou por meio segundo.— Ainda cabe uma pizza.Eu soltei uma risada curta. Era impossível não rir quando ela falava como se “caber” fosse uma questão de logística e não de fome.— Tá. Pizza, então. Marguerita?— Sempre.— Certo — peguei o celular no bolso. — Banho antes da pizza chegar.— Eu sei — ela disse, já andando, como se eu tivesse sugerido o óbvio demais para merecer debate.A porta do banheiro fechou e, por alguns segundos, eu ouvi a água abrindo e o barulho das embalagens sendo remexidas. Ela tinha um ritual. Banho, escova, pijama, um livro que ela “não ia ler” e acabava lendo. Eu conhecia a sequência inteira, e isso me tranquiliza
Capítulo 122
~ MAREU ~Quando a porta da frente abriu, eu já sabia que era ele pelo jeito como o ar mudou.Eu e Olívia ainda estávamos no sofá, em um acordo tácito de domingo à noite: fingir que amanhã não existia enquanto um dorama coreano tentava convencer o mundo de que conflitos se resolvem com trilha sonora triste.Olívia estava com as pernas cruzadas, postura de diretora de cena. Eu tinha um cobertor no colo e a falsa serenidade de quem acha que consegue passar despercebida por um homem que pergunta pouco e conclui demais.Ele entrou, tirou o paletó com um movimento automático e ficou parado por um segundo. O cabelo ainda impecável, o terno ainda perfeito, mas o rosto… o rosto parecia ter percorrido dez reuniões e voltado andando.Eu deveria ter ficado quieta.Eu sabia.Mas eu não fiquei.— Os negócios não foram bem? — escapou de mim, com o mesmo impulso com que alguém toca numa panela quente pra ver se já esfriou.No instante em que a frase saiu, minha consciência já tinha levantado os dois