Capítulo 2
Author: Kayla Sango
last update2025-12-22 05:04:40

Duas horas.

Foi esse o tempo que levou para eu me arrepender oficialmente de ter aceitado aquele emprego.

E, honestamente, uma hora e meia eu passei sentada na frente da mesa do senhor Novak, ouvindo-o listar as regras da casa.

Depois de uns trinta minutos, meu cérebro começou a traduzir tudo como "horário das crianças, blá blá blá, pouco açúcar, blá blá blá, rotina, responsabilidade, blá blá blá, não morra, não deixe ninguém morrer"... enquanto uma parte completamente imbecil de mim só pensava em como era injusto alguém ser tão bonito e tão irritante ao mesmo tempo.

Sério. Como é possível que o homem ficasse ainda mais atraente quando estava sendo absolutamente insuportável?

— Você entendeu tudo, Mareu?

Pisquei, voltando à realidade.

— Sim! Claro. Tudo.

Mentira. Eu tinha entendido "bebê" e "não morrer". O resto era névoa.

Ele me olhou por um longo momento, como se tentasse decidir se eu era incompetente ou apenas distraída. Provavelmente optando por ambos.

— Ótimo — disse, com aquela voz grave que não ajudava em nada minha concentração. — Enquanto minha filha está na escola, você fica com o William. Se tiver qualquer dúvida, fale com a governanta. Não comigo.

E então ele simplesmente saiu, me deixando ali sozinha no escritório enorme, com a sensação crescente de que eu tinha acabado de assinar meu próprio atestado de incompetência.

Segui de volta pelo corredor em direção ao quarto do bebê. Quando abri a porta, a governanta praticamente correu na minha direção.

— Graças a Deus você chegou! — disse. — Preciso resolver umas coisas lá embaixo.

E saiu antes que eu pudesse responder.

A primeira coisa que ouvi foi o choro.

Não um choro comum. Era um choro operístico. O tipo de choro que poderia facilmente ganhar uma audição para a Scala de Milão.

Calma, Mareu. Você conseguiu ontem. É só repetir o truque.

Me aproximei do berço, respirei fundo, e comecei a cantar a música do dorama.

O bebê me olhou.

E continuou chorando.

Cantei mais alto.

Ele chorou mais alto também.

Ótimo. Aparentemente meu superpoder tinha prazo de validade.

Peguei meu celular com as mãos trêmulas e digitei no G****e: "Por que bebês choram?"

A lista apareceu na tela:

Fome

Sono

Fralda suja

Cólica

Quer atenção

Comecei a riscar mentalmente as opções.

Chequei fome. A mamadeira vazia deixada pela governanta na mesinha indicava que ela já tinha cuidado disso.

Chequei sono. Peguei ele no colo, balancei, fiz sons ridículos. Nada.

— Fralda suja — murmurei, lendo a terceira opção.

Olhei para ele. Ele olhou para mim.

— Merda!

Levantei o bebê e o cheirei com elegância zero.

— Hum. Número três. Certamente número três.

E agora, G****e, o que eu faço?

Abri o YouTube e digitei: "como trocar fralda de bebê".

O primeiro vídeo tinha uma moça sorridente que trocava a fralda em menos de um minuto, enquanto a bebê dela ficava ali tranquila, quase colaborando.

Ótimo. Eu só precisava ser uma moça sorridente e competente em menos de um minuto também. Fácil.

Coloquei o bebê na cama, abri a fralda, e...

— Meu Deus do céu — murmurei, virando o rosto para o lado.

Como algo tão pequeno produzia algo tão... volumoso?

Respirei pela boca, peguei os lenços umedecidos e tentei imitar os movimentos precisos da moça do vídeo.

Só que o bebê não colaborava. Ele se mexia. Chutava. Parecia estar treinando para as Olimpíadas de Ginástica Infantil.

— Para — pedi, segurando as perninhas dele com uma mão enquanto limpava com a outra. — Por favor. Apenas... para.

Ele não parou.

Tentei pegar a fralda limpa. Ela caiu no chão. Peguei outra. O lenço grudou na minha mão. O bebê quase rolou para o lado.

— Isso não estava no vídeo! — reclamei, suando.

Finalmente, finalmente, consegui colocar a fralda limpa embaixo dele. Suspirei aliviada.

E foi exatamente nesse segundo que ele aproveitou.

Jato. Na minha direção.

Direto no meu rosto.

Congelei. O bebê me olhou com aqueles olhinhos inocentes, como se não tivesse acabado de me usar como alvo de tiro.

Limpei o rosto com a manga da blusa, respirando fundo para não gritar.

Voltei para o YouTube, abri a caixinha de comentários e digitei:

"Quando o bebê é menino, talvez avisar que ele vem com gatilho de spray seria legal. Grata."

Levei meia hora para conseguir trocá-lo e cerca de mais uma hora para fazê-lo dormir. Quando finalmente consegui, eu estava exausta, grudenta de suor e com a sensação de ainda ter xixi em lugares onde nenhum ser humano deveria ter xixi.

Mais cedo, a governanta tinha explicado que meu quarto era conectado ao do bebê e deixou minhas malas ali temporariamente, até eu conseguir me organizar. Abri uma delas, peguei uma roupa limpa e fechei o zíper com a dignidade que ainda me restava.

Só então reparei nas duas portas internas do quarto.

Uma delas era simples, branca, sem nenhum detalhe. A outra era maior, de madeira escura, com uma maçaneta bonita e cara de lugar elegante.

Não pensei muito.

Peguei a mala pela alça e a babá eletrônica que estava na mesinha — uma daquelas com câmera que a governanta tinha me mostrado mais cedo, dizendo que era para eu levar comigo sempre. Fui direto na porta mais elegante — a outra devia ser closet de fraldas, ou coisa assim — girei a maçaneta e entrei.

O quarto era enorme, com uma cama king-size e um banheiro digno de revista.

Uau. Eles realmente se importam com os funcionários aqui.

Mas, sinceramente, depois de tudo o que eu tinha passado nos últimos meses, um banheiro decente parecia o mínimo que o universo me devia.

Entrei no banheiro de mármore — mármore! — e enchi a banheira. Água quente, espuma, silêncio abençoado.

Me afundei na água com um suspiro de puro alívio.

Era isso. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha um teto, um emprego e uma banheira que não parecia ter vindo de um catálogo de promoção.

Fechei os olhos por um instante, sentindo a água quente relaxar músculos que eu nem sabia que doíam.

Talvez as coisas finalmente estejam melhorando.

— Que diabos está acontecendo aqui?

A voz cortou o ar como uma lâmina.

Abri os olhos.

E lá estava o senhor Novak, parado na porta do banheiro, me encarando como se eu fosse um crime em andamento.

Eu congelei.

Ele congelou.

E então, muito lentamente, a ficha caiu.

Porta elegante.

Quarto enorme.

Banheiro de mármore.

Eu não estava no quarto da babá.

Eu estava no quarto dele.

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