All Chapters of Vendida para o Don 2: Chapter 71
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A gêmea
Capítulo 71 Don Vinícius Strondda Arrumei o vestido dela com cuidado, mínimos rituais de respeito no meio do caos que a gente gosta. Alisei o tecido nos quadris, ajeitei a lateral, e, de propósito, deixei a mão demorar um pouco mais do que o necessário. Ela percebeu e ergueu a sobrancelha, cúmplice. — Trinta minutos você pediu ao garçom. — sussurrou. — Eu disse meia hora. — corrigi, olhando o relógio. — Gastamos vinte e oito. Ainda tenho dois para te olhar como você merece. — Possessivo. — ela provocou, endireitando o cabelo no espelho. — É, pode ser. — respondi, aproximando o queixo do topo da cabeça dela. — Escuta, piccola… lá fora eu sou o homem que coloca os outros de joelhos. Aqui dentro, ou sozinhos, é você quem fica porque meu pau não dá conta de esperar ou só olhar. Entendeu? Ela não respondeu com palavras. Só encostou a testa na minha, uma batida leve, íntima, que disse mais do que qualquer discurso. Eu a beijei de novo, breve, como selo de algo que a g
Assunto encerrado
Capítulo 72 Lucia Bianchi Strondda Eu não sei como consegui me manter em pé. Minhas pernas tremiam — não só de medo, mas de adrenalina — e meus dedos estavam frios, mesmo com a sala cheia. Quando Vinícius puxou a cadeira para mim, toquei o encosto com a ponta dos dedos, quase agradecendo ao gesto silencioso. Sentei devagar, mantendo a coluna ereta, como uma mulher segura de quem é… mesmo quando metade disso ainda é mentira. Quando ele disse “Senta, amore mio”, senti a pele arrepiar sob o tecido do vestido. Na frente deles. Na frente do homem que um dia me chamou de esposa como quem assina um recibo de propriedade. Nada no mundo teria sido mais satisfatório. Casar com o Don foi a melhor coisa que me aconteceu. Ambos pareciam incrédulos. E vi a cara do velho safado com medo das armas dos soldados do Don. Babaca. Estava imóvel, silencioso, olhos avaliando tudo e todos. Sempre analisando, sempre calculando. Giovanni parecia um animal acuado, peito arfando,
Um jardim
Capítulo 73 Lucia Bianchi Strondda Voltamos para casa. O banco do carro era quente ainda do sol. Encostei a testa no vidro e deixei os olhos perderem-se no reflexo distorcido das árvores que passavam rápidas — era curioso como tudo parecia se mover tão devagar quando eu me esforçava para prestar atenção. A mão dele repousava no meu joelho. Senti o formato dos nós dos dedos sob o tecido do vestido e, por um instante, pensei que sabia quem eu era ali dentro. Depois o pensamento fugiu. — Está bem? — ele perguntou, baixo, sem virar para mim. Olhei para ele. A luz batia na lateral do rosto, desenhando um ângulo duro que me lembrava cem decisões que eu não havia tomado e já me condenavam. Sorri, uma coisa pequena e fácil de esconder. — Sabe, agora que tenho um pouco de liberdade... — comecei, meio provocando, meio testando. — Você bem que poderia me deixar fazer um jardim. Ele bufou, e eu ouvi o riso contido — o riso que sempre vinha antes do aviso. — Nós já conver
Senhora
Capítulo 74 Lucia Bianchi Strondda Acordei tarde. O sol tinha escolhido invadir tudo de vez — cortinas abertas, o quarto grande e quente naquele jeito de manhã italiana. Levantei devagar. Vinícius não estava. Prendi o cabelo num coque frouxo, vesti um vestido simples. Comecei a andar pela casa. As janelas estavam abertas, que milagre! O ar entrava com cheiro de terra molhada. Havia mais soldados do que eu lembrava antes: um em cada janela, um na porta da frente, outro encostado no alpendre, todos com o olhar de quem mata só pra ver o tombo. Os fuzis reluziam silenciosos ao sol. Era engraçado — e um pouco reconfortante — perceber que a presença deles me fazia sentir importante. Mesmo sabendo que cheguei a ser esposa do Don forçada, é como se eu fosse um objeto de valor raro, cuidado com luvas. Ao mesmo tempo, a visão dos canos longos me lembrava que ali, como em todo lugar que Vinícius tocava, liberdade tinha limites. Dona Irina, a cozinheira, sorriu antes de eu
Mulas mancas
Capítulo 75 Lucia Bianchi Strondda Corri pro banho com o coração acelerado, como se o tempo tivesse virado inimigo. A água quente batia no corpo e, mesmo assim, não era o bastante pra me acalmar. Lavei o cabelo depressa, sem o cuidado de sempre, e quando percebi que o relógio já avançava, saí com a toalha enrolada, tropeçando nos próprios pensamentos. O armário estava aberto, metade das roupas espalhadas pela cama. Escolhi o que me pareceu rápido e seguro: uma saia que batia quatro dedos acima do joelho, justa o suficiente pra lembrar que ainda sei provocar, e uma blusinha branca colada ao corpo, curta o bastante pra deixar um pedaço da pele à mostra. Por cima, um casaco leve — elegância com armadura. Não deu tempo de secar o cabelo, apenas penteei. Passei os dedos entre os fios, deixando as pontas molhadas caírem pelas costas. Uma maquiagem rápida: base leve, batom rosado, máscara de cílios — o bastante pra fingir naturalidade. O som do motor lá fora me fez prender
Me subiu
Capítulo 76 Lucia Bianchi Strondda — Está molhado, mas a cor é interessante — disse uma das mulas mancas, em tom que queria ser só casual e saiu cortando como lâmina. O toque havia sido leve, como quem encosta por distração, mas a sensação era outra: invasão. Senti o corpo inteiro ficar alerta. Virei, devagar — controle na superfície, sangue em ebulição por dentro. Vinícius levantou junto comigo. O movimento dele foi curto, medido; não precisava ser grande para impor. O olhar dele passou de mim para a mulher, transparente comunicado: não toque. Como um animal que marca território sem latir. — Eu não gosto que encostem no meu cabelo — falei, tentando recitar calma. A ruiva inclinou a cabeça, um sorriso de quem se diverte com as reações alheias. — Ela só ficou curiosa. Fica tranquila, querida. — aproximou-se mais, e o perfume barato dela invadiu meu espaço como uma provocação. — Que não se repita — cortou Vinícius, e sua voz fez mais efeito do que qualquer olhar meu
Lascou
Capítulo 77 Lucia Bianchi Strondda — Merda! — gritou uma delas, tentando se secar e fazendo movimentos que mais pareciam danças atrapalhadas do que prestações de contas. As outras mulheres começaram a gritar, enlouquecidas. — Merda! — vociferou a morena tentando arrancar a tinta do cabelo e só espalhando mais. — Olha o que ela fez! Elas se contorciam, tentando limpar o rosto, o vestido, o salto. Escorregavam entre si, gritando insultos desconexos, e quanto mais tentavam se recompor, mais pareciam marionetes desajeitadas. — Porca! — gritou a ruiva, pegando um guardanapo. — Você é louca! — Louca não. Criativa. — respondi, sorrindo. — Pensei em te ajudar a mudar de cor. Essa tinta combina mais com você. O cheiro forte de solvente se sobressaiu, o chão brilhava de cinza, e o reflexo das luzes de neon misturava-se à confusão, pintando tudo de um vermelho sujo. Vinícius não estava perto, mas alguns clientes começaram a se aproximar, curiosos, rindo da cena. F
Minha esposa
Capítulo 78 Lucia Bianchi Strondda Don Vinícius olhou para os seguranças e ordenou: — Colocam as mãos sobre a mesa. Agora. A ordem foi curta. Não hesitaram por muito tempo; — Está louco? Nem pensar — um negou com arrogância. — Faça alguma coisa, porra! — outro buscou ajuda com o chefe, esperando que a autoridade deles os salvasse. O chefe, que até minutos atrás rira com os clientes, permaneceu em silêncio absoluto. Olhei para ele — o homem que financiava a noite, que patrocinava a vaidade — e ele não tinha resposta. A boca se contraiu, os olhos procuraram algo, alguém; não havia salvador. — Eu mandei — repetiu Vinícius, mais calmo do que era preciso. — Coloquem a porra das mãos sobre a mesa. A calma na voz dele era pior que qualquer berro. Alguns dos seguranças trocaram olhares, incomodados pela clareza do comando. Foi aí que dois dos homens do Vinícius saíram da penumbra com o que parecia uma faca grande — Puta que pario! Ele não estava pra conversa. A faca sa
Ser firme
Capítulo 79 Lucia Bianchi Strondda — Quem tocou na minha esposa? Quem falou merda para a dama da máfia Strondda? Levanta a mão. Ninguém levantou. As vozes secaram. Alguns olharam pra mim como se eu fosse a culpada por ocupar aquele silêncio. Outras desviaram os olhos. — Vocês são funcionárias daqui — disse Vinícius, apontando pra fila de mulheres amontoadas nos cantos — Quem trabalha aqui tem responsabilidade pelo que acontece nas nossas paredes. E Lucia é minha esposa. Devem obediência e respeito a ela. Uma das “puttanas” arregalou os olhos, a maquiagem borrada, a roupa amassada e suja de tinta; outra encolheu-se, como se quisesse sumir sob o palco. Todas sujas e escorrendo na boate. Vinícius não se deu ao trabalho de perguntar detalhes. Provavelmente já sabia. — Vocês vão pagar — decretou. — Mas não com dinheiro. Pagarão com trabalho e com lembrança.Pensaram que podiam tocá-la. Eu não permito. Nem que a cidade inteira acredite que tem direito. Entendeu? Dois dos seus
Reação
Capítulo 80 Don Vinícius Strondda Trouxe Lucia pra dentro de casa. Caminhei até o quarto, e ela me seguiu. Tranquei a porta. Lucia ficou parada no meio do quarto, a roupa clara contrastando com a raiva silenciosa que eu ainda carregava do que tinha acontecido na boate. Ela não disse nada. Nem eu. Andei devagar até a cama, tirei o relógio e o deixei na cômoda. — Sabe por que está aqui, piccola? — perguntei, sem levantar a voz. — Porque desobedeci. — respondeu, firme, mas com o olhar baixo. — Porque agiu sem ordem. E se tivesse morrido lá dentro, o que acha que eu faria? Ela tentou respirar, mas o peito subiu pesado. — Então vai mesmo me punir? — Sua pele branca contrastou com seu cabelo vermelho quando ela mexeu e jogou para o lado. Tão linda quanto complicada. Eu desabotoei o cinto com um movimento lento. O couro fez um som seco. — Ajoelha piccola. — ordenei. Ela obedeceu. O olhar dela subiu até o meu rosto, e por um instante o silêncio ficou cheio demais.