All Chapters of Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva: Chapter 61
- Chapter 70
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Capítulo 61
~ MAREU ~Eu estava de pijama.Pijama de verdade. De algodão. Com uma estampa que eu não vou descrever porque não é isso que está em pauta.Eu estava descalça.Descabelada.E correndo pelos corredores de um navio que custava milhões, como se eu estivesse fugindo de um incêndio — quando, tecnicamente, eu estava fugindo de uma criança de seis anos e meio escondida debaixo do lençol gritando “CONTENÇÃO DE DANOS”.O vento batia na minha nuca e eu sentia cada passo no carpete como um lembrete humilhante de que eu não tinha tido tempo pra nada. Nem pra uma sandália. Nem pra um casaco. Nem pra um fio de dignidade.Eu também sentia culpa.Porque, sim, eu tinha deixado Olívia sozinha. Por alguns minutos. Mas ela estava bem fisicamente, ela tinha gritado com potência, ela tinha ordem na voz. E, acima de tudo, ela tinha pedido o pai com uma urgência que eu reconhecia.Não era birra.Era emergência.E, se tinha uma coisa que eu aprendi sobre Olívia Novak, era que ela não desperdiçava palavras gra
Capítulo 62
~ MAREU ~Um casal vinha pelo corredor, impecável, rindo baixo, parecendo jovem e apaixonado. Os seguranças ajeitaram a postura na mesma hora. O olhar deles saiu de mim e foi para o casal — sorriso, atenção, respeito.Eu não me orgulhava do que eu estava prestes a fazer.Mas orgulho não ia tirar Olívia debaixo do lençol.Eu baixei o queixo, fingi que tinha entendido a ordem, dei um passo para trás… e, quando os dois se inclinaram levemente para checar o convite do casal, eu simplesmente passei.— Senhora…!O primeiro segurança demorou um segundo para reagir. Eu quase senti a incredulidade dele: ninguém ali fazia isso. Ninguém corria. Ninguém burlava.Eu era um erro estatístico de pijama.Eu atravessei a porta e entrei no salão como quem invade um filme errado.Luzes douradas. Música. Vestidos longos que pareciam se mover sozinhos. Ternos impecáveis. Perfume caro no ar. Taças na mão de gente que parecia ter nascido sabendo onde colocar os cotovelos.E eu, no meio daquilo, parecendo uma
Capítulo 63
~ LOGAN ~Eu não pensei.Foi isso.No instante em que Mareu disse “é… a Liv…”, o salão deixou de existir. A música, as taças, os olhares, o conselho, Paula atrás de mim com a indignação engomada — tudo virou ruído de fundo.Eu só vi uma coisa: minha filha em algum lugar, em algum tipo de colapso, pedindo por mim.Eu virei o corpo e comecei a andar rápido. Rápido demais para parecer educado.Eu senti a mão de Paula tocar meu braço, como se ela pudesse me prender com etiqueta.— Logan...— Depois — eu cortei, sem olhar.E foi aí que eu ouvi o som dos passos de Mareu atrás de mim, seguindo sem hesitar.Quando atravessamos a porta e entramos no corredor, o ar pareceu mudar. Menos perfume. Menos música. Mais silêncio. Mais realidade.Eu aumentei o passo.— O que aconteceu? — eu perguntei, já correndo. — Ela se machucou?— Eu não sei — Mareu respondeu, tentando acompanhar. — Ela não quis me dizer. Só queria você. Disse que precisava de contenção de danos e que você é especialista nisso.Eu
Capítulo 64
~ MAREU ~Eu estava na sala da cabine com uma barra de chocolate na mão e uma sensação estranha no corpo — metade adrenalina, metade vergonha, metade alívio.Sim. Três metades. Era a matemática do dia.O tapete ainda parecia julgador demais para ter presenciado uma mulher descalça em pijama atravessando um baile de gala. A mesa ainda tinha a marca do copo d’água que eu larguei na correria. E eu ainda conseguia ouvir, na memória, o barulho do cristal quebrando e o silêncio geral me julgando como se eu fosse um comunicado oficial de desastre.Eu dei uma mordida grande no chocolate.Não porque eu estava com fome.Porque mastigar era uma forma socialmente aceita de não surtar.Olívia finalmente tinha dormido. Depois de negociar “a reforma estrutural” do próprio rosto como se estivesse assinando um aditivo contratual com a fada do dente, ela apagara com um pragmatismo que me irritou um pouco. Eu queria esse talento. Eu queria desligar o cérebro e simplesmente… dormir.Eu ouvi passos na esc
Capítulo 65
~ PAULA ~Eu nunca fui rejeitada.Não do jeito real. Não do jeito que deixa marca.Eu já ouvi “agora não”, “talvez depois”, “minha agenda está cheia”. Eu cresci num mundo em que essas frases significavam “insista com a pessoa certa” e não “aceite e suma”.“Não” era uma palavra que existia para os outros.Por isso, quando Logan Novak saiu do salão — e, pior, saiu por causa de uma mulher descalça, de pijama, e descabelada — o meu corpo reagiu como se tivesse sido traído pelo próprio chão.Eu fiquei plantada no mesmo lugar por um segundo longo demais.O som da música continuava. As pessoas continuavam dançando, fingindo que nada tinha acontecido, como gente bem treinada faz quando algo inconveniente acontece perto demais.Eu olhei na direção da porta por onde ele tinha sumido e tentei colocar a cena numa moldura lógica.A mulher era a do corredor.A da água.A babá da menina.E Logan Novak tinha dito: ela está comigo.“Comigo.”Como se fosse uma frase que ele usaria para alguém que impor
Capítulo 66
~ LOGAN ~Eu vi Mareu desaparecer escada acima e tive um impulso ridículo de dizer “não precisa”, “fica”, “desculpa”, qualquer coisa que não fosse essa sensação de que eu estava… expulsando alguém.Mas eu não expulsei.Ela se retirou sozinha, eficiente, como se tivesse entendido as regras não ditas do meu mundo melhor do que eu gostaria.Paula já estava na sala como se a cabine fosse dela por direito: postura impecável, perfume que chegava antes da voz, aquele controle treinado.O carrinho de jantar ocupava metade do ambiente. A louça brilhava. O consommé trufado soltava vapor como se tivesse sido preparado para seduzir. O risoto cremoso, os legumes, os pães, o vinho… era, de fato, perfeito.— Você organizou tudo isso em… minutos — eu disse, mais por educação do que por admiração.Paula sorriu com delicadeza estudada.— Eu gosto de ser eficiente — ela respondeu, como se aquela palavra fosse uma qualidade íntima. — E eu imaginei que você não teria comido nada de verdade.Eu puxei uma c
Capítulo 67
~ MAREU ~Eu me deitei. Eu apaguei a luz. Eu fechei os olhos.E meu cérebro abriu uma reunião extraordinária.Uma coisinha ridícula martelando por dentro, como se alguém tivesse esquecido uma torneira aberta no meu peito.Ciúmes.Eu estava com ciúmes de Logan Novak.Eu, Maria Eugênia Valença, vinte e seis anos, mulher adulta, alfabetizada, vacinada, com noção mínima de dignidade social, com ciúmes de um homem que eu não tinha direito nenhum de sentir nada a respeito.Eu virei de lado e apertei o travesseiro como se fosse um botão de desligar.“Não é ciúme”, eu pensei, tentando me convencer com a mesma firmeza com que Olívia negociava dinheiro com a fada do dente. “É senso de responsabilidade.”Porque Olívia estava com ciúmes.Isso era um fato. Aquele olhar dela no almoço, aquela energia de “isso não faz parte do plano”. E, como babá responsável, eu tinha o dever moral de investigar o motivo desse ciúme — de Olívia, só pra deixar estabelecido — mais a fundo.Pela estabilidade emocional
Capítulo 68
~ PAULA ~Eu nunca tive problema com silêncio.Silêncio sempre foi uma coisa que eu controlava. Uma pausa bem colocada. Um olhar bem sustentado. A certeza de que, se eu ficasse firme, o mundo cederia primeiro.Só que o silêncio que veio depois do “não” de Logan Novak tinha outra textura.Não era pausa estratégica.Era recusa.E eu senti isso como quem sente um erro de etiqueta — não em mim, claro. No ambiente. No universo. Em qualquer lugar que não fosse a minha própria execução.Eu não mexi o rosto. Não deixei o sorriso cair. Eu só respirei como se nada tivesse acontecido, como se eu tivesse apenas testado um limite e encontrado uma resposta… aceitável.Logan estava ali, impecável, mas com o olhar já longe. Não em mim. Não no jantar.— Minha filha está na cabine, no andar de cima — ele falou, como se estivesse informando o horário de uma reunião. — E a babá…— Eu entendo — eu disse, doce, encaixando a palavra na boca como se ela tivesse sido feita pra mim.Claro.Sempre a filha.Semp
Capítulo 69
~ MAREU ~Paula saiu como se nada tivesse acontecido.— Com licença — ela disse, macia, e ajeitou o casaco com a mesma calma de quem ajeita uma coroa.Ela passou por mim sem olhar direito. Ou olhou e decidiu que eu não merecia atenção. O que, naquele instante, foi quase um favor.Porque o que vinha atrás dela era pior do que qualquer humilhação.Olívia ainda estava olhando para pai, mas o corpo dela tinha endurecido num jeito estranho. Não era birra. Não era cansaço. Era… choque.Aquele olhar de quem está processando o mundo como um problema de matemática e, pela primeira vez, não consegue achar a resposta.Ela tinha visto.Ela tinha visto o beijo.Logan também percebeu. Eu vi pelo micro movimento do maxilar. Pelo cuidado com que ele se abaixou para falar com a filha, como se mudando a posição pudesse mudar o que já tinha acontecido.— Liv… — ele começou, a voz baixa, quase um pedido.Olívia não respondeu.Continuava parada.Só olhando.Eu nunca tinha visto Olívia assim. Sem fala pron
Capítulo 70
~ MAREU ~Eu subi as escadas quase correndo, mas tentando não parecer que eu estava correndo. Porque, aparentemente, eu ainda tinha uma parte do cérebro preocupada com etiqueta, mesmo quando a criança da casa tinha acabado de declarar guerra ao próprio pai.Quando eu cheguei no corredor de cima, a porta do quarto da Olívia estava encostada. Não fechada com força. Encostada. Como se ela tivesse entrado correndo demais para lembrar de bater.Eu empurrei devagar.— Liv…? — eu chamei, baixo. Do jeito que a gente chama alguém quando sabe que a pessoa pode estar desmoronando e não quer assustar mais.A resposta veio em forma de som.Um choro abafado, esquisito, como se ela estivesse tentando engolir as lágrimas para não deixar ninguém ver. Como se chorar fosse contra as regras internas dela.Ela estava na cama, encolhida, o lençol puxado até o queixo. O rostinho virado para a parede. Os ombros tremendo com pequenos soluços indignados.Eu parei no meio do quarto. Porque, por mais que eu tive