THE REHEARSAL
last update2026-07-09 22:32:10

Roman Kael estava sentado no sofá de couro preto de sua cobertura, um copo de uísque na mão, os olhos fixos no horizonte noturno. A cidade de São Paulo se estendia abaixo como um tapete de luzes cintilantes, mas ele não via nada além de seu próprio reflexo no vidro — um homem na casa dos trinta com olheiras profundas e uma cicatriz invisível no peito.

O relógio na parede marcava 20h47. Uma hora e treze minutos antes do jantar que ele mesmo havia remarcado para as 22h.

A desculpa que ele deu a Vera foi técnica, fria, burocrática: "Preciso resolver algo com Isadora primeiro. Adie o jantar para as 22h."

A verdade era mais simples e mais patética: ele precisava de uma distração. Precisava provar a si mesmo que Lara não era a única mulher capaz de o afetar profundamente. Precisava sentir outro corpo, o aroma de outro perfume, o som de outro gemido — qualquer coisa para apagar a imagem daquela mulher de olhos castanhos e postura de guerreira ferida.

Isadora estava lá, sentada na poltrona em frente a ele, vestindo um vestido vermelho justo que ela claramente escolhera para impressionar. Seus cabelos loiros platinados caíam em ondas perfeitas sobre os ombros nus, e seu batom carmesim estava impecável — sem borrões, sem imperfeições. Ela parecia ter saído da capa de uma revista, o tipo de mulher que qualquer homem pagaria para ter ao seu lado.

Roman mal a viu.

Seus olhos estavam fixos no copo de uísque, o líquido âmbar girando lentamente enquanto ele movia o pulso. O gelo tilintava contra o copo, um som pequeno e frio preenchendo o silêncio.

"Você está estranho hoje." Isadora inclinou a cabeça, seus olhos azuis tentando penetrar sua armadura. Havia uma vulnerabilidade em sua voz que ela tentava esconder por trás de um tom casual. "O que aconteceu? Negócios?"

"Sempre negócios." Roman tomou um gole, sentindo a ardência descer pela garganta. A bebida era cara — um single malt de vinte anos — mas tinha o mesmo gosto de sempre: amargo, vazio, insuficiente.

Isadora estava de pé. Seus movimentos eram estudados, ensaiados — os quadris balançando na medida certa, os passos calculados para que o vestido abraçasse suas curvas. Ela passara horas em frente ao espelho aperfeiçoando aquele andar. Roman já vira aquele mesmo andar em outras mulheres, em outras noites, em outros cômodos.

Ela sentou-se em seu colo, os braços envolvendo seu pescoço, a boca perto de sua orelha. Seu perfume — floral, doce, artificial — invadiu suas narinas. Não era o cheiro de Lara. Lara cheirava a sabonete neutro e algo mais terroso, como terra molhada e café. Aquele cheiro o assombrava há quatro anos.

"Você está tenso." Isadora mordeu o lóbulo da orelha dele, um gesto que ele conhecia de outras noites. As pontas dos dedos dela percorreram o peito dele, deslizando sobre a camisa de linho. "Deixe-me ajudá-lo."

Roman fechou os olhos. O toque dela era habilidoso, experiente — mas não era o que ele queria. E naquele momento, ele se odiou por ter sido tão transparente.

"Isadora." Sua voz era baixa, quase um suspiro. "Você quer me ajudar?"

"Sim, aceito." Ela sorriu, triunfante. Seus dentes brancos brilhavam sob a luz indireta. "O que você quiser."

Roman abriu os olhos. A visão do rosto dela, tão próximo, tão perfeito, tão vazio, despertou algo nele. Não era desejo. Era fome — a fome de preencher o vazio com qualquer coisa, até mesmo com uma ilusão.

Ele a puxou para um beijo. Não foi romântico. Foi brutal, quase agressivo, como se ele estivesse tentando extrair dela algo que ela não tinha — uma faísca, uma chama, qualquer coisa que ardesse mais forte que o gelo dentro dele. Isadora correspondeu com entusiasmo, seus dedos se enroscando em seus cabelos, seu corpo arqueando contra o dele.

Mas Roman sentiu o vazio aumentar. Cada toque era um eco de algo que ele realmente desejava. Cada som que ela emitia era uma imitação barata de uma lembrança.

Suas mãos percorreram o corpo dela, encontrando a pele quente sob o vestido. Ela gemeu, arqueou as costas, fez todos os movimentos certos. Era uma performance. E Roman, o rei do teatro, reconhecia uma performance quando a via.

"Roman..." Ela murmurou contra os lábios dele, e sua voz tremeu levemente. "Você está pensando em outra pessoa."

Ele parou. Suas mãos congelaram na cintura dela.

"O que?"

"Seus olhos." Isadora tocou o rosto dele com a ponta dos dedos, um gesto inesperadamente gentil. "Eles estão aqui, mas você não." Ela tentou sorrir, mas o sorriso vacilou, os cantos da boca tremendo. "Quem é ela?"

Roman sentiu a raiva crescer — não de Isadora, mas de si mesmo. Por ser tão previsível. Por deixar uma modelo medíocre ler suas emoções como um livro aberto.

"Não é da sua conta." Ele a empurrou delicadamente para longe do seu colo, levantando-se com um movimento brusco. "Vá embora, Isadora."

Ela ficou paralisada, olhos arregalados, o vestido vermelho amarrotado. "O quê? Mas eu..."

"Vá embora." Sua voz era gélida, o mesmo tom que usava com subordinados desleais. "Eu te paguei. Eu te usei. Agora vá."

Isadora engoliu em seco. Por um instante, Roman viu algo em seu rosto que não esperava: não raiva, não humilhação. Era tristeza. Uma tristeza genuína que a tornava quase humana.

"Você é um péssimo mentiroso, Roman." Ela pegou a bolsa, os dedos tremendo, a voz rouca. "Você acha que está me usando, mas eu sei a verdade. Você não sente nada por ninguém. Porque a única pessoa que te fez sentir alguma coisa te abandonou." Ela caminhou em direção à porta, mas parou. Sua mão na maçaneta tremia. "Espero que você a encontre de novo. E que ela te destrua tão completamente quanto você me destruiu esta noite."

A porta bateu com força.

Roman estava sozinho no meio da sala, com o uísque ainda na mão, os dedos brancos de tensão. O silêncio do apartamento era ensurdecedor — o zumbido do ar condicionado, o som distante dos carros lá embaixo, as batidas do seu próprio coração.

Ele olhou para o relógio. 21h15. Quarenta e cinco minutos para o jantar.

"Destruir." Ele repetiu a palavra de Isadora, sentindo o peso dela em sua língua. "Ela já me destruiu uma vez. O que mais ela pode fazer?"

Mas a pergunta era uma mentira, e ele sabia disso. Lara podia fazer muito mais. Podia olhá-lo com aquele olhar — o mesmo que usava no escritório, aquele que dizia "Eu te vejo, e não gosto do que vejo". Podia recusar o acordo, deixar Rafael afundar, e então Roman seria o vilão. Sempre o vilão.

Ele atirou o copo contra a parede.

O copo estilhaçou-se em mil pedaços, espalhando uísque pelo chão de mármore. O som foi satisfatório — um estalo que quebrou o silêncio, uma pequena violência que ecoou pela sala. Mas o vazio permaneceu. Os copos quebraram, as mulheres foram embora, e Roman Kael ficou sozinho com seu próprio reflexo.

"Senhor." A voz de Vera veio da porta. Ela estava parada ali, imóvel, com a chave reserva na mão. O tablet no braço. O impecável coque grisalho. "O jantar estará pronto em 30 minutos. O carro está esperando."

Roman não se virou. "Você não bateu."

"Eu nunca bato." Ela entrou, seus olhos percorrendo os cacos de vidro no chão, a poça de uísque espalhada pelo mármore. "Quebrou o copo?"

"O copo não quebrou." Sua voz estava rouca. "O que você quer, Vera?"

"Quero saber se você vai ao jantar ou se vai ficar aqui para se autodestruir." Ela fechou a porta atrás de si, um gesto que Roman não esperava. Normalmente, ela ficava na entrada, como uma sentinela. Desta vez, ela entrou.

Roman finalmente se virou. Seu rosto estava cansado, seus olhos vermelhos, seu maxilar cerrado. Mas seus olhos — seus olhos eram penetrantes, como lâminas.

"Vou ao jantar."

"E Isadora?"

"Ela foi embora." Ele pegou o paletó no cabide, um terno cinza-escuro que Vera havia escolhido naquela manhã. Ele sabia que ela sempre escolhia as roupas certas para as ocasiões certas. Era quase perturbador. "Vera." Ele fez uma pausa, com a mão na gravata. "Você mandou uma mensagem para Lara, não foi?"

Vera não piscou. Seus olhos cinzentos encontraram os dele com uma calma que era quase um desafio. Ela ajeitou os óculos — um tique que Roman conhecia bem. Significava "Estou calculando cada palavra".

"Não sei do que você está falando."

"Você é uma péssima mentirosa." Roman passou por ela, ajeitando a gravata em frente ao espelho do corredor. A imagem refletida mostrava um homem de terno, poderoso, rico — mas seus olhos estavam cansados, seus ombros levemente curvados. "Eu sei que você mandou. E sei que era sobre a Mia."

Vera não negou. Ela apenas inclinou a cabeça.

"Sim, senhor. Eu enviei." Ela deu um passo à frente. "E se o senhor vai me demitir por isso, então me demita. Mas antes disso, escute." Ela ergueu o queixo. "Lara é a única pessoa que pode te desarmar. E se você for a esse jantar sem que ela saiba que você sabe a verdade, será um massacre. Ela lutará com unhas e dentes. Vocês se destruirão."

"E você acha que avisá-la vai ajudar?"

"Acho que isso lhe dá a chance de escolher." Vera segurou o tablet contra o peito. "E se ela escolher dizer a verdade, então talvez vocês duas tenham uma chance de não repetir os mesmos erros."

Roman ficou em silêncio por um longo momento. Sua gravata estava torta. Ele a ajeitou com movimentos lentos, quase mecânicos.

"Você tem razão." Sua voz era baixa, quase um sussurro. "Ela precisa saber. Mas não era para ser você a contar para ela."

"Então você teria contado a ela?"

"Não." Ele se virou para encará-la. "Eu queria que ela descobrisse sozinha. Queria ver a cara dela quando percebesse que eu já sabia."

Vera balançou a cabeça. "Isto não é um jogo de xadrez, senhor. É uma vida. A vida de uma criança."

O sistema piscou na visão de Roman, mas ele ignorou. As palavras de Vera atingiram um lugar que ele pensava estar morto.

"Vou ao jantar." Ele pegou o celular e as chaves do carro. "E vou deixar a Lara contar a verdade. Mas se ela mentir..." Ele olhou para Vera, e o gelo voltou aos seus olhos. "Se ela mentir, eu destruo tudo. Rafael, a empresa, a casa. Tudo."

Vera não recuou. "E se ela disser a verdade?"

Roman não respondeu. Abriu a porta e saiu.

O corredor estava vazio, iluminado apenas por luzes indiretas. Roman caminhou até o elevador privativo, seus passos ecoando no mármore. O sistema piscou diante de seus olhos:

Missão principal: "O Jantar" — Em andamento.

Escolha pendente: Humilhar Rafael (+100 de Influência) ou Seduzir Lara (+150 de Lealdade).

A decisão determinará o destino do Clã da Noite.

Roman apertou o botão do elevador. "Destino do clã." Ele riu baixinho, um som amargo. "O clã pode esperar."

O elevador desceu e Roman encarou seu próprio reflexo no espelho. O homem de terno cinza, o homem poderoso, o homem que comprava empresas e destruía rivais. Mas por baixo do terno, havia apenas um garoto ferido que nunca aprendeu a perdoar.

"E se ela disser a verdade?", ele repetiu a pergunta de Vera para si mesmo. "Então terei que decidir se consigo perdoá-la. E não sei se consigo."

O elevador parou. A porta se abriu para o saguão, onde o motorista esperava com a porta da cabine aberta.

Roman saiu do prédio, sentindo o frio da noite paulistana bater em seu rosto. O céu estava limpo, as estrelas invisíveis por trás da poluição luminosa.

Ele entrou no carro e, antes que a porta se fechasse, olhou para o edifício Aurora. Lá em cima, a luz do seu escritório ainda estava acesa. Vera provavelmente estava lá, recolhendo os cacos de vidro.

"Ajustando as peças", murmurou ele. "E o rei está prestes a perder a cabeça por causa de uma rainha."

O carro arrancou, deslizando pela noite paulistana. Roman fechou os olhos e sentiu o peso das próximas horas — o peso de um jantar que poderia mudar tudo.

Lá de cima, Vera olhava pela janela do escritório, observando o carro de Roman desaparecer no trânsito. Ela segurava o tablet em uma mão e, na outra, um dos cacos do vidro quebrado.

"Boa sorte, senhor." Ela falou para o vazio. "O senhor vai precisar."

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