Capítulo 8
Lucia Bianchi/ Isabella Romano Eu saí correndo pelo corredor, mas precisei encostar na parede para recuperar o ar. O peito subia e descia sem controle, e minhas mãos tremiam como se não fossem minhas. Eu nunca tinha visto… aquilo. O corpo de um homem. O órgão genital tão de perto. Sempre me mantiveram afastada, trancada, cuidada como uma boneca que não podia sequer saber o que existia além da própria dor, depois casei com o demônio que não tinha pênis. Não gostava de mulher e me mantinha por ódio e status. Digo isso porque desconfiava que ele gostava de homens. E agora… santo Dio, eu tinha visto. Não em livros, não em cochichos. De verdade. Um misto de raiva e confusão me atravessava. Como ele podia? Como aquele bastardo aparecia com toda a arrogância do mundo, dizia que iria casar comigo, que eu era a “futura esposa do Don”, e logo em seguida deixava outra mulher se ajoelhar diante dele… fazendo algo tão íntimo? O coração disparava, mas a mente gritava: não importa, Lucia. Você não vai casar com ele de verdade. Não vai e nem pode. Só precisa se acalmar e aguentar. Foi quando a porta do quarto abriu de repente. Dei um pulo, o corpo inteiro em alerta, e corri para a parede oposta, como se a distância fosse me proteger. — Estava mesmo com fome? — a voz dele veio baixa, carregada. — Ou foi me espiar? Senti as pernas falharem. — N-não… eu estava com fome. — respondi, rápido demais, tentando disfarçar o nó na garganta. E era verdade, eu não conseguia dormir com a barriga roncando. Ele se aproximou, devagar, até esticar a mão e prender uns fios do meu cabelo entre os dedos. Olhou nos meus olhos, e parecia que me despia só com aquele olhar. — Você está ofegante… — murmurou, como se tivesse descoberto um segredo. — Espantou a minha foda. Agora vai comer alguma coisa. E depois… vamos resolver isso. Arregalei os olhos. — Resolver como? O sorriso dele foi lento, perigoso. — Vai terminar o que começou. Meu corpo gelou. Não respondi. Apenas deixei que ele me guiasse até a cozinha, os pés quase arrastando no chão frio. --- O ambiente era amplo, limpo, mas não parecia ter vida. Peguei alguns ingredientes da dispensa, sem pensar direito, e comecei a jogar coisas na frigideira. O barulho do óleo chiando me fez sentir útil, como se cozinhar fosse um escudo contra ele. — O que está fazendo? — ele perguntou, encostado no balcão, observando de cara feia. — Comida. — murmurei, concentrada em fingir normalidade. — Eu disse que estava com fome. Coloquei alho, cebola, tomates, pedaços de pão duro e até batata no meio, tudo junto, eu queria muito comer. — Basta! — a voz dele cortou o ar. Deu dois passos, tirou a frigideira da minha mão e jogou tudo na pia. — Vai matar alguém desse jeito. Abri a boca, indignada, mas ele apenas riu. Riu. — Senta aí. — apontou para a cadeira. — Vou fazer ovos mexidos. Aprendi com a minha mãe. Eu ainda o olhava desconfiada, mas acabei obedecendo, me sentando devagar, o roupão apertado no corpo. Ele abriu a geladeira, pegou ovos, leite e manteiga, e começou a preparar com movimentos seguros, quase… leves. Não era o mesmo homem que me arrastara pelo quarto horas atrás. — Não imaginei que um Don soubesse cozinhar. — soltei, sem pensar. Ele ergueu uma sobrancelha, mexendo os ovos na frigideira. — Não sou Don, ainda. Mas minha mãe sempre disse que um homem que não sabe se virar sozinho, não merece comandar nada. Temos várias cozinheiras, mas não vou acordar ninguém porque quero comer ovos a esse horário. Mordi o lábio, surpresa com a resposta. O cheiro começou a preencher a cozinha. Simples, mas acolhedor. Ele serviu em dois pratos, trouxe até a mesa e sentou-se de frente para mim. — Prova. — ordenou, mas sem dureza. Levei uma garfada à boca. O gosto era suave, diferente do que eu esperava. O peito afrouxou um pouco. — Não está ruim. Ele riu baixo. — “Não está ruim”? — repetiu, com sarcasmo. — Melhor do que sua catástrofe na frigideira, com certeza. Revirei os olhos, mas, pela primeira vez, um sorriso ameaçou escapar. Só que o escondi rápido, abaixando a cabeça. Por alguns minutos, só ouvimos o barulho dos talheres. A tensão parecia menor, como se a cozinha fosse um território neutro, onde ninguém precisava gritar ou se desafiar. E então percebi. Ele não era só aquele monstro arrogante que me arrastava pelos corredores. Havia algo mais ali. Algo que me confundia. E isso, talvez, fosse ainda mais perigoso. Quando terminei de comer, ele me olhava estranho. Seus olhos verdes pareciam me despir. — O que foi? — perguntei com os olhos baixos. — Quero você na minha cama, e agora. Ferrou.Latest Chapter
Difícil
Capítulo 205 Manuela Strondda Lindström O celular vibrou na minha mão como se fosse um aviso do destino me puxando de volta para a realidade. Eu ainda estava sentada no colo dele. Hugo não desviou o olhar de mim. — Seu celular está tocando. Ignorei por dois segundos. Talvez três. O suficiente para sentir o peso do que eu tinha perguntado ainda pairando entre nós. — Não vai responder, Hugo? — provoquei, sabendo que não podia esperar pra atender. O canto da boca dele se moveu. Ao olhar pra minha tela no painel do carro. — É seu irmão. Melhor atender. Bufei baixo. Eu sabia que precisava. Mas eram só alguns segundos. Só um “sim” ou “não”. Só uma resposta curta que eu queria arrancar dele antes do mundo voltar a nos engolir. Mas desci do colo dele com um suspiro contido e atendi. — Vini… — Cadê o Hugo? — a voz dele veio direta, tensa. — Ele realmente apareceu pra te ajudar? Olhei de lado. Hugo estava de perfil, observando a rua pela janela, mas eu sabia que ele e
Dúvida
Capítulo 204 Manuela Strondda Lindström O carro ficou parado numa rua lateral pouco iluminada. O motor desligado transformava tudo em silêncio — um silêncio pesado, vivo, cortado apenas pelo som distante da cidade e pelo rádio chiando baixo no painel. O olhar de Hugo ainda estava em mim. Aquele olhar que não era de médico, nem de chefe, nem do homem frio que comandava cirurgias e impérios com a mesma precisão. Era pessoal. Direto. Quase perigoso. — Então ficaremos aqui? — ele confirmou, a voz baixa, virando mais pra mim. Assenti, cruzando os braços para conter a adrenalina que ainda vibrava na pele. — É. Eles vão ligar. Certeza que vão criar alguma emboscada. Se não for pra mim, vai ser pro Vinícius ou pro papà. Eles vão nos informar. Sempre informam quando acham que têm o controle. Hugo inclinou levemente o corpo na minha direção. A mão subiu devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, e afastou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. Um gesto simples. Ínti
Admitir
Capítulo 203 Manuela Strondda Lindström Entrei no carro quase no mesmo instante que Hugo. A porta bateu com um som seco, definitivo, e o mundo lá fora virou ruído. Logo atrás de nós, outros veículos ganharam vida — motores roncando baixo, coordenados, como um corpo único se preparando para o ataque. — Eles ainda são de confiança? — perguntei, sem tirar os olhos da estrada à frente. — Já vi que, na Suécia, a traição é bem comum. Hugo não desviou o olhar do volante. — Esses sim. — respondeu, firme. — Escolhi a dedo. Não deixaria ninguém perto de você se tivesse qualquer dúvida. Assenti. — Certo. A van apareceu mais à frente, dobrando rápido à direita. Hugo acelerou. O velocímetro subiu como se não houvesse amanhã. Os prédios começaram a borrar, luzes viraram riscos alongados. — Segura. — ele avisou, curto. A primeira rajada veio da van. O vidro dianteiro estilhaçou em um ponto, a bala ricocheteando para longe. Instintivamente, abaixei o corpo e puxei a arma, apoiando o braço
Não vai matar ele!
Capítulo 202Manuela Strondda LindströmSaí da sala do Vinícius com a cabeça latejando.O corredor parecia mais estreito do que antes, ou talvez fosse só a pressão esmagando meu peito. Que sensação horrível. Sei que estão desconfiando do Hugo, mas agora ele é meu marido. Porque faria algo assim?Puxei o celular do bolso ainda andando pelos corredores do reduto.Disquei o número do Hugo.Chamando.Chamando de novo. Droga! Cadê esse maledetto?O sinal tocou tantas vezes que meu coração começou a bater fora do ritmo. A ligação quase caiu quando, enfim, a voz dele surgiu do outro lado, baixa, cansada, como se estivesse em movimento.— Alô.— Onde você está? — disparei, sem rodeios.Houve uma pausa mínima. Curta demais para ser confortável.— No Brasil. Eu já te disse.Parei no meio do corredor.— No Brasil? — repeti, incrédula. — O que você está fazendo aí, Hugo?— Investigando. — respondeu, firme. — Tem alguns assuntos aqui que eu precisava entender melhor. Consegui uns dias de folga no
A verdade
Capítulo 201 Manuela Strondda Lindström O ar parecia mais denso, carregado de raiva, desconfiança. Vinícius andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, mãos fechando e abrindo, mandíbula rígida. João Miguel permanecia encostado na mesa, braços cruzados, observando tudo com atenção demais — o tipo de atenção que só quem ainda não comprou totalmente uma versão da história costuma ter. — Isso não faz sentido — eu disse pela terceira vez, já sem paciência para o coro silencioso de reprovação. — Não desse jeito. Vinícius parou de andar e me encarou. — Manuela, ela levou Anders do nosso território. — a voz dele saiu baixa, perigosa. — Não estamos falando de impressão ou sentimento. Estamos falando de fatos. — Fatos também podem ser manipulados. — rebati, firme. — E você sabe disso melhor do que ninguém. Ele riu sem humor. — Ela apareceu na imagem de uma das câmeras. — cuspiu. — Devo admitir, ela é muito boa no que faz. Não sei como descobriu minúsculos pontos
Ameaçada
Capítulo 200 Manuela Strondda Lindström A casa dos meus pais ainda cheirava a lar. Não no sentido ingênuo da palavra, mas naquele cheiro específico de algo que já foi seu antes de virar obrigação. Cheiro de café forte, o perfume discreto da minha mãe que nunca some completamente. Parei o carro em frente ao portão e, por um segundo, fiquei só observando a fachada iluminada. Silenciosa. Segura. Capone ouviu antes de mim. Quando abri a porta, ele veio correndo pelo corredor, unhas batendo no piso, corpo inteiro vibrando como se eu tivesse ficado fora por anos — e não por dias. Ajoelhei e ele praticamente se jogou contra mim, lambendo meu rosto, rodando, choramingando baixo. — Ei, ei… calma. — ri, afundando os dedos no pelo dele. — Agora você vem comigo. Minha mãe apareceu na porta da sala, braços cruzados, um sorriso pequeno e cansado. — Vai levar mesmo? — Vou. — respondi, firme. — Ele precisa se acostumar com a casa nova. Ela assentiu. Conversamos um pouco sobre a