Capítulo 7
Vinícius Strondda Saí do quarto e fechei a porta devagar, sem estrondo. Diferente de todas as outras vezes em que saía de algum lugar com raiva, agora eu estava… confuso? Pela primeira vez. Eu sempre soube o que fazer, sempre segui à risca os conselhos do Don, meu pai. Sempre mantive as rédeas da minha vida, dos meus homens, dos meus negócios. Mas aquela ragazza… Dio santo… ela não cabia em nenhuma das minhas regras. Lucia me irritava, me desafiava, me afrontava sem medo das consequências. Mas ao mesmo tempo… o choro dela ainda ecoava nos meus ouvidos, como se tivesse cavado espaço dentro do meu peito. Raiva e compaixão misturadas. E, acima de tudo, um desejo insano que me consumia toda vez que eu a encarava. Atravessei o corredor até o escritório de meu pai, abri a porta e deixei que a escuridão me engolisse. Acendi apenas o abajur da mesa. O silêncio da sala era pesado, mas familiar. Peguei uma garrafa de vinho e servi a taça quase até a borda, tentando afastar a imagem da pele molhada dela na banheira. Não sei se me estresso mais com o fato de estar tão agredida ou de desejá-la e não possuir por piedade, e sei lá o quê. . O celular vibrava. Centenas de mensagens. Meu pai. Minha mãe, e até minha irmã, me perturbando, certeza. Respirei fundo e, com um gole do vinho, decidi ligar pra eles. — Mama mia! — a voz de meu pai preencheu a linha com aquele sotaque carregado. — Até que enfim consegui uma ligação do meu bambino… Fechei os olhos, apoiando o cotovelo na mesa. — Eu cresci, pai. — Vini… che diavolo você tá fazendo? Já recebi ligação dizendo que vai casar! Sorri de canto. — Foi o Maicon, não é? — Sim, o Maicon. Mas agora um soldado me ligou dizendo que você matou uns homens pela sua noiva. E outro contou que precisou segurar a ragazza porque ela tentou pular o muro da casa, fugindo de você. — Ah… que bom que te mantiveram a par de tudo. — ironizei, girando o vinho na taça. — Qual o nome dos soldados? — Pietro e Salvatore. Bons soldados. Balancei a cabeça, já gravando na mente. Seriam os primeiros a sumirem da minha lista quando eu assumisse. Soldados que correm contar fofoca para o meu pai enquanto estou no comando, não são soldados, são ratos. — Fica tranquilo, va bene? — continuei, com frieza. — Foi apenas um mal-entendido. O que importa é que vou casar. Ninguém mais me perturba, pai. — Certo, certo… — ele resmungou do outro lado, como quem ainda não entendia nada. — Mas quem é a moça? — Lucia Bianchi. Houve silêncio por alguns segundos. — Não conheço. Você tem certeza que não quer escolher alguém melhor, alguém de nome, sangue mais forte…? — Não, pai. — cortei sem paciência. — Pode preparar a cerimônia para que eu assuma como Don na próxima semana. — Mas… quando você vai casar? — Em dois dias. Do outro lado da linha, ouvi o ar pesado dele, a incredulidade. — Dois dias? Eu e sua mãe não chegamos em dois dias, Vini! Como você faz algo assim sem nós? — Bom… minha casa já está pronta. — bebi o resto do vinho num gole. — Vou fazer como você fez, pai. Casar logo de uma vez. — Usei o que sei a respeito dele. Meu pai bufou, mas por fim cedeu. — Va bene. Vamos tentar chegar a tempo. E vou informar ao conselho sua decisão. — Obrigado, pai. — Buona notte, bambino. — Buona notte, papa. . Desliguei sem cerimônia. Fiquei mais alguns segundos olhando a tela preta do celular, ouvindo apenas o próprio coração. Depois me levantei, servi outra taça e caminhei até o jardim. As rosas estavam perfeitas, alinhadas como sempre. Estiquei a mão, segurei uma delas com força e a esmaguei até os espinhos cravarem na pele. Pétalas vermelhas caíram, se desfazendo no chão de mármore. Senti a dor atravessar a palma da minha mão e sorri. Me senti melhor. Quando voltei para o quarto, o silêncio parecia ainda maior do que antes. Girei a maçaneta e abri a porta devagar. Mas, assim que entrei, o cheiro de perfume barato me atingiu. E lá estava ela. Uma puttana que trabalha aqui na casa do meu pai. Deitada sobre a minha cama. Os peitos de fora, a saia erguida, as pernas abertas, sem calcinha. — Pronta pra você, Don Vinícius… — ela sussurrou com um sorriso lascivo, como se estivesse oferecendo a coisa mais preciosa do mundo. Eu caminhei até ela, tirei o cinto e me sentei na poltrona em frente, jogando as costas contra o estofado com ar de tédio. — É… preciso aliviar. — murmurei, frio. — Vem chupar meu pau. Ela riu baixinho, excitada com a ordem. Se arrastou até mim, se ajoelhou, puxou o zíper da minha calça e começou a chupar devagar. Subindo e descendo, apertando os lábios. Fechei os olhos por um instante, tentando afastar o rosto de Lucia que insistia em aparecer na minha mente. Mas então… um barulho me incomodou. Passos leves, um rangido no chão. — Quem é? — rosnei, abrindo os olhos e encarando a porta. A puttana não parou. Silêncio. Até que uma batida suave ecoou. — Entre. — falei de uma vez, impaciente. Meus soldados não ligam pra essas coisas com putas. Mas me surpreendi quando a porta abriu e vi Lucia. De roupão, o cabelo ainda úmido, os olhos vermelhos de tanto chorar. Ficou parada no batente, encarando a cena. Meu corpo inteiro ficou tenso. — Quem te deixou sair? — perguntei, frio, mas minha voz saiu mais áspera do que eu queria. — Eu mandei dormir. Descansar, caralho. Ela não respondeu. Os olhos dela não estavam nela, estavam em mim. Mais exatamente… no meu pau na boca da puttana. A maledetta continuou chupando, como se quisesse mostrar serviço, mas Lucia… Lucia não desviava o olhar. — Eu… eu estou com fome. — disse, baixo, quase um sussurro. — Posso usar a cozinha? Franzi o cenho. — Só isso? — perguntei, confuso. Eu esperava gritos, escândalo, drama. Qualquer mulher em sã consciência teria exigido o lugar de dama da máfia naquele instante. Mas ela só olhava. Calada. E parecia… curiosa. Um arrepio estranho percorreu minha espinha. Olhei para baixo e puxei a cabeça da puttana com força. — Chupa, caralho. — ordenei só para provocar, e ela obedeceu de imediato, gemendo abafado contra mim. Foi então que Lucia deu dois passos para frente. Lenta, mas decidida. — O que foi? — perguntei, encarando-a. Talvez agora ela se irrite — Também quer? Se quiser eu tiro a Gracy daqui. Ela negou com a cabeça, firme. Gracy parou na mesma hora, se afastando com os lábios manchados de vinho barato e batom borrado. Olhou para mim, ofendida. — É sério? Então fica com essa vadiazinha nova. — disparou, levantando-se furiosa, tapando os peitos e ajeitando a saia. Saiu batendo a porta. Fiquei encarando Lucia. O silêncio dela me desarmava mais do que qualquer grito. — Não… eu não quero nada. — murmurou, quase correndo para fora também. E lá estava eu. Sozinho. O cinto ainda pendurado na mão, o corpo latejando de desejo e a mente em caos. Soltei um palavrão, passei a mão pelos cabelos e me levantei da poltrona fechando o zíper, com a sensação de que tinha perdido o controle outra vez. — Che cazzo… — murmurei para mim mesmo. Lucia não queria gritar. Não queria mandar. Não queria exigir. Mas, de algum jeito, só de olhar, ela tinha me tirado tudo. "Vou atrás dela".Latest Chapter
Difícil
Capítulo 205 Manuela Strondda Lindström O celular vibrou na minha mão como se fosse um aviso do destino me puxando de volta para a realidade. Eu ainda estava sentada no colo dele. Hugo não desviou o olhar de mim. — Seu celular está tocando. Ignorei por dois segundos. Talvez três. O suficiente para sentir o peso do que eu tinha perguntado ainda pairando entre nós. — Não vai responder, Hugo? — provoquei, sabendo que não podia esperar pra atender. O canto da boca dele se moveu. Ao olhar pra minha tela no painel do carro. — É seu irmão. Melhor atender. Bufei baixo. Eu sabia que precisava. Mas eram só alguns segundos. Só um “sim” ou “não”. Só uma resposta curta que eu queria arrancar dele antes do mundo voltar a nos engolir. Mas desci do colo dele com um suspiro contido e atendi. — Vini… — Cadê o Hugo? — a voz dele veio direta, tensa. — Ele realmente apareceu pra te ajudar? Olhei de lado. Hugo estava de perfil, observando a rua pela janela, mas eu sabia que ele e
Dúvida
Capítulo 204 Manuela Strondda Lindström O carro ficou parado numa rua lateral pouco iluminada. O motor desligado transformava tudo em silêncio — um silêncio pesado, vivo, cortado apenas pelo som distante da cidade e pelo rádio chiando baixo no painel. O olhar de Hugo ainda estava em mim. Aquele olhar que não era de médico, nem de chefe, nem do homem frio que comandava cirurgias e impérios com a mesma precisão. Era pessoal. Direto. Quase perigoso. — Então ficaremos aqui? — ele confirmou, a voz baixa, virando mais pra mim. Assenti, cruzando os braços para conter a adrenalina que ainda vibrava na pele. — É. Eles vão ligar. Certeza que vão criar alguma emboscada. Se não for pra mim, vai ser pro Vinícius ou pro papà. Eles vão nos informar. Sempre informam quando acham que têm o controle. Hugo inclinou levemente o corpo na minha direção. A mão subiu devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, e afastou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. Um gesto simples. Ínti
Admitir
Capítulo 203 Manuela Strondda Lindström Entrei no carro quase no mesmo instante que Hugo. A porta bateu com um som seco, definitivo, e o mundo lá fora virou ruído. Logo atrás de nós, outros veículos ganharam vida — motores roncando baixo, coordenados, como um corpo único se preparando para o ataque. — Eles ainda são de confiança? — perguntei, sem tirar os olhos da estrada à frente. — Já vi que, na Suécia, a traição é bem comum. Hugo não desviou o olhar do volante. — Esses sim. — respondeu, firme. — Escolhi a dedo. Não deixaria ninguém perto de você se tivesse qualquer dúvida. Assenti. — Certo. A van apareceu mais à frente, dobrando rápido à direita. Hugo acelerou. O velocímetro subiu como se não houvesse amanhã. Os prédios começaram a borrar, luzes viraram riscos alongados. — Segura. — ele avisou, curto. A primeira rajada veio da van. O vidro dianteiro estilhaçou em um ponto, a bala ricocheteando para longe. Instintivamente, abaixei o corpo e puxei a arma, apoiando o braço
Não vai matar ele!
Capítulo 202Manuela Strondda LindströmSaí da sala do Vinícius com a cabeça latejando.O corredor parecia mais estreito do que antes, ou talvez fosse só a pressão esmagando meu peito. Que sensação horrível. Sei que estão desconfiando do Hugo, mas agora ele é meu marido. Porque faria algo assim?Puxei o celular do bolso ainda andando pelos corredores do reduto.Disquei o número do Hugo.Chamando.Chamando de novo. Droga! Cadê esse maledetto?O sinal tocou tantas vezes que meu coração começou a bater fora do ritmo. A ligação quase caiu quando, enfim, a voz dele surgiu do outro lado, baixa, cansada, como se estivesse em movimento.— Alô.— Onde você está? — disparei, sem rodeios.Houve uma pausa mínima. Curta demais para ser confortável.— No Brasil. Eu já te disse.Parei no meio do corredor.— No Brasil? — repeti, incrédula. — O que você está fazendo aí, Hugo?— Investigando. — respondeu, firme. — Tem alguns assuntos aqui que eu precisava entender melhor. Consegui uns dias de folga no
A verdade
Capítulo 201 Manuela Strondda Lindström O ar parecia mais denso, carregado de raiva, desconfiança. Vinícius andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, mãos fechando e abrindo, mandíbula rígida. João Miguel permanecia encostado na mesa, braços cruzados, observando tudo com atenção demais — o tipo de atenção que só quem ainda não comprou totalmente uma versão da história costuma ter. — Isso não faz sentido — eu disse pela terceira vez, já sem paciência para o coro silencioso de reprovação. — Não desse jeito. Vinícius parou de andar e me encarou. — Manuela, ela levou Anders do nosso território. — a voz dele saiu baixa, perigosa. — Não estamos falando de impressão ou sentimento. Estamos falando de fatos. — Fatos também podem ser manipulados. — rebati, firme. — E você sabe disso melhor do que ninguém. Ele riu sem humor. — Ela apareceu na imagem de uma das câmeras. — cuspiu. — Devo admitir, ela é muito boa no que faz. Não sei como descobriu minúsculos pontos
Ameaçada
Capítulo 200 Manuela Strondda Lindström A casa dos meus pais ainda cheirava a lar. Não no sentido ingênuo da palavra, mas naquele cheiro específico de algo que já foi seu antes de virar obrigação. Cheiro de café forte, o perfume discreto da minha mãe que nunca some completamente. Parei o carro em frente ao portão e, por um segundo, fiquei só observando a fachada iluminada. Silenciosa. Segura. Capone ouviu antes de mim. Quando abri a porta, ele veio correndo pelo corredor, unhas batendo no piso, corpo inteiro vibrando como se eu tivesse ficado fora por anos — e não por dias. Ajoelhei e ele praticamente se jogou contra mim, lambendo meu rosto, rodando, choramingando baixo. — Ei, ei… calma. — ri, afundando os dedos no pelo dele. — Agora você vem comigo. Minha mãe apareceu na porta da sala, braços cruzados, um sorriso pequeno e cansado. — Vai levar mesmo? — Vou. — respondi, firme. — Ele precisa se acostumar com a casa nova. Ela assentiu. Conversamos um pouco sobre a