A fuga dela
Author: Edi Beckert
last update2025-09-13 00:20:08

Capítulo 6

Vinícius Strondda

Lucia caminhou até o banheiro em silêncio. O corpo ainda trêmulo, os pés descalços contra o mármore. Eu não disse nada, apenas encostei na parede do quarto, tirando devagar os sapatos.

Puxei o cobre-leito da cama com um gesto impaciente, jogando-o de lado. A raiva ainda latejava nas têmporas, mas também havia um prazer doente em saber que ela não tinha saída.

Abri um pouco a porta do banheiro para conferir. O som da água ecoava. O vapor subia pelo ar. Ela estava lá dentro, mas… estranhamente quieta.

— Lucia… — chamei, com a voz baixa, carregada de autoridade. — Não me faça esperar. Seja rápida.

Silêncio.

Entrei de uma vez, os passos firmes no chão. Foi quando percebi: a janela lateral estava entreaberta, cortina balançando com o vento da noite. A banheira ainda cheia. Mas Lucia não estava lá.

O sangue subiu como fogo.

— Maledetta ragazza… — rosnei, correndo até a janela.

E lá estava ela. Tentava descer pelo beiral, enrolada apenas na toalha, os cabelos vermelhos soltos como uma bandeira de guerra. O desespero fazia os dedos dela tremerem enquanto buscava apoio.

— Maledetta do diavolo… Como ousa me desafiar assim? — rosnei, o sangue subindo.

Saí do quarto feito louco, os passos ecoando pelo corredor. Logo ouvi gritos e barulho de luta vindos do jardim lateral.

— DON VINÍCIUS! — um dos soldados gritou como se eu já fosse o Don. Maledettos puxa-sacos.

Corri até lá. Dois dos meus homens tentavam segurar Lucia, que se debatia com a toalha presa ao corpo.

Caralho! Se essa toalha cair eu mato essa ragazza.

O cabelo vermelho se agitava, os pés chutavam o ar, os dentes cerrados. Ela mordeu o ombro de um deles com tanta força que o homem urrou, quase largando.

— Figlio de puttana! Segurem direito! — rosnei, avançando.

Um deles tentou justificar, ofegante:

— Don, ela é uma selvagem… quase pulou pelo muro.

Lucia aproveitou o vacilo e arranhou o rosto dele, deixando sangue escorrer. O outro teve que puxá-la pelo braço, mas ela girou o corpo e deu uma joelhada no estômago dele.

— Cazzo! — o soldado gemeu, curvando o corpo.

Foi quando cheguei perto. Agarrei Lucia pelo braço com tanta força que ouvi o estalo do ombro dela sendo puxado.

— ME SOLTA! ME DEIXEM IR! ME SOLTA!

Ela gritou, mas não larguei. Arranquei-a dos braços dos soldados com um puxão seco, como se fosse só minha.

— Não preciso de incompetentes pra segurar uma ragazza! — gritei para os dois. — Se não conseguem cumprir nem isso, não servem pra nada. Quando eu assumir como Don, vou escolher minha equipe.

Eles abaixaram a cabeça, envergonhados, enquanto eu puxava Lucia de volta para dentro da casa, ignorando os chutes e socos que ela tentava me dar.

Arrastei-a até o quarto, o corpo dela tremendo de raiva, não de medo. Fechei a porta com força e, sem hesitar, arranquei a toalha de cima dela com um único movimento. O tecido escorregou das mãos dela e ficou no meu punho por um segundo, antes que eu o jogasse na banheira cheia, a água espirrando para fora.

— Aqui quem manda sou eu, porra! — gritei, o peito arfando. — Nunca mais me desafie desse jeito. Nunca!

— EU DISSE QUE QUERIA IR EMBORA!

— VOCÊ SAIU PRATICAMENTE NUA PERANTE SOLDADOS! EU DEVERIA MATAR VOCÊ!

Lucia não recuou, virou-se para mim com os olhos marejados e gritou:

— Eu tenho medo! Entendeu? Eu não quero ficar presa de novo, não quero voltar pra uma maledetta gaiola! — a voz dela quebrou no fim, mas ainda assim era cortante. — Prefiro morrer a viver trancada desse jeito! Nua ou vestida... Eu já não me importo. Só não quero sofrer mais.

Os gritos ecoaram pelo quarto, me atravessando como lâminas. Por um instante, fiquei em silêncio, olhando para ela. A respiração dela era rápida, o peito subindo e descendo, e as lágrimas agora escorriam de verdade.

A água quente deixou claro o que antes eu não tinha visto direito. Cicatrizes. Pequenas, irregulares, espalhadas pelos ombros, braços, costas. Algumas pareciam cortes, outras queimaduras.

Meu maxilar travou. O sangue latejava. O desejo de quebrar o pescoço de quem fez isso com ela só aumentava.

Apoiei as mãos na borda da banheira, olhando fixo para ela.

— Foi ele que fez isso com você? O maledetto que você não quer dizer o nome?

Ela fechou os olhos, mergulhou o rosto na água e, ao voltar, apenas continuou esfregando o braço. Fingiu que eu não existia.

Passei a mão pelo meu rosto, tentando controlar a fúria.

— Quando eu descobrir quem foi, não vou só matar. Vou fazer ele implorar pela morte. E talvez eu nem dê.

Ela estremeceu. Mas não me olhou.

Aproximei-me devagar, sem brusquidão dessa vez. Apoiei uma mão firme em seu ombro, a outra erguendo o queixo dela para que me olhasse.

— Lucia… aqui não é uma gaiola. — falei baixo, mas firme, deixando cada palavra pesar. — Você está num quarto. Um quarto meu. E ninguém vai te prender como antes. Só não me provoque, ragazza… porque eu posso perder a paciência, e não é isso que quero.

Ela piscou rápido, tentando afastar o choro, mas não conseguiu. A raiva deu lugar a um medo vulnerável que ela não queria mostrar.

— Eu não quero ter medo de você… — murmurou, quase num sussurro.

Meu maxilar travou, e por dentro a raiva pelo passado dela queimou mais do que qualquer provocação. Respirei fundo, mantendo a mão no seu queixo, firme, mas não agressiva.

— Então não tenha. Eu não sou ele. — minha voz saiu rouca, carregada. — E se eu descobrir quem te deixou com esse medo, juro que vou acabar com a vida dele.

Os olhos dela encheram de lágrimas de novo, mas dessa vez ela não gritou. Apenas desviou o olhar, como se tentasse se proteger de acreditar em mim.

Soltei devagar o rosto dela e caminhei até o armário. Peguei um roupão de tecido grosso e voltei até a beira da banheira. Estendi a mão.

— Vem.

Ela hesitou por um instante, depois saiu devagar da água. Peguei o roupão, vesti nela com calma, fechando o nó na cintura, as mãos firmes segurando os braços dela por alguns segundos a mais.

— Apenas descansa. — falei perto de seu ouvido. — Amanhã a gente conversa. Mas lembre-se: você é a futura esposa do Don.

Afastei um pouco o rosto, deixando meu olhar cravar no dela.

— Só não ouse me afrontar de novo… porque aí eu não sei se consigo me segurar.

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